Segundo volume da biografia de Lucian Freud revela a crueldade por trás da fama do artista

Quando começa o segundo volume da extensa e quente biografia de William Feaver sobre o pintor Lucian Freud, o artista está na meia-idade: não muito longe dos 50 anos, ainda esquentando os lençois de suas amantes (neste caso, Jacquetta Eliot, a condessa dos alemães, com quem terá um filho, Freddy). Mas mesmo enquanto as travessuras continuam (e elas vão durar até seus últimos anos – como um velho adoecido, seu orgulho sexual o induz a contar a seu assistente David Dawson que o sangue em seus lençóis, resultado de uma de suas hemorragias nasais, “pode ser de uma garota”), o leitor detecta uma certa mudança na atmosfera. Isso não tem a ver apenas com o sucesso crescente de Freud – em 1974, haverá uma retrospectiva de seu trabalho na Hayward Gallery; seus preços em breve aumentarão dramaticamente – mas com sua ambição. “Quão longe você pode ir?” ele às vezes murmurava para si mesmo, olhando para uma pintura que estava quase completa. A resposta foi: muito mais longe. À sua frente estão outros 40 anos no estúdio.

A narrativa de Feaver, enérgica e principalmente ágil, é baseada em parte nos telefonemas quase diários e em muitos encontros que os dois tiveram ao longo de várias décadas. A parte boa é poder ouvir a voz de Freud na página, que é emocionante quando ele fala sobre arte (“Você sente que ele está contando mentiras”, diz ele criticando Caravaggio, indo direto ao cerne da questão). A parte ruim é que, como observa Dawson, “o que ele diz e como ele se sente não são a mesma coisa. Sempre.” Sua relação um tanto simbiótica também significa que Feaver está apto a aceitar o desdém de Freud pela interpretação, seja da arte ou da natureza humana. Logo no início, um pouco comicamente, ele pergunta ao artista se Naked Man With Rat (1977-8) refere-se a Notas sobre um caso de neurose obsessiva, de seu avô, Sigmund Freud – um ensaio sobre um jovem “torturado por ratos ou pelo pensamento de ratos, viz a fonte erótica anal”. Mas não. Seu modelo simplesmente gostou do rato. Depois disso, ele resiste à tentação de ceder ao que Freud chamou de “aspecto terapêutico duvidoso” de conectar vida e trabalho.

Mas isso não quer dizer que estas conexões não sejam encontradas se você olhar. Sim, o livro está cheio de fofocas. Jerry Hall, Kate Moss e a Rainha têm passagem pelas páginas. Freud pode ser extremamente rabugento. “Ele até me ameaçou com ingressos para o teatro”, diz ele sobre as tentativas de Andrew Lloyd Webber de cortejá-lo. Mas seus fascínios mais profundos nada têm a ver com os parasitas e os aspirantes. Agora, ele já abandonou muitas mulheres; ele teve um número desconhecido de filhos. Ainda assim, é difícil endurecer o coração contra ele.

Há o fato desagradável de que a maioria das mulheres e crianças são capazes de aceitar, até mesmo compreender, aquilo que os que o vêem de fora tendem a condenar. Jacquetta Eliot escreveu “Peido” no carro de luxo de Freud, e conta que, quando ela arranca os dentes do siso, ele dá a ela um abacaxi – algo que a enche de ternura tanto quanto o que outros chamam de “suas viariações desarmantes de galanteio”. Se ele é perverso, muitas vezes também é doce. Se ele é egoísta, também pode ser instintivamente gentil. Você sente pelas crianças que ele exclui. Quando sua filha Esther descreve como ela jogaria a comida sem hesitar no lixo se ele a chamasse para jantar, você sente o calor do sentimento que segue o sofrimento.

 

Lucian Freud em Paris

Lucian Freud em Paris. Fotografia: © William Feaver

Ponderando tanto os escombros de seus relacionamentos quanto seu olhar inflexível como pintor, a questão da falta de amor estava – está – sempre a espreita. Quando um curador colocou isso por escrito, Freud ficou furioso. Emoção era uma receita para “arte ruim”, mas ele não era insensível. De certa forma, ele sentia demais. Para Auerbach, ele era mais vivo do que as outras pessoas – mais nervoso, mais simples, mais honesto e a grande e generosa conquista de Feaver em seu livro é nos permitir imaginar isso. Suas últimas linhas – Freud diz a ele, no final, que sempre gostou de batom nos dentes – são perfeitas. De alguma forma, elas dizem tudo. Vista-se, saia, transe. E então tente colocar tudo em seu trabalho: “Diga às pessoas que você esteve vivo”.

 The Lives of Lucian Freud: Fame 1968-2011 por William Feaver é publicado pela Bloomsbury (£ 35) e vendido em  guardianbookshop.com. 

Fonte e tradução: The Guardian

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