A partir de 14 de maio, a paisagem urbana do Rio de Janeiro ganha novas camadas de crítica e poesia visual com a chegada de cinco esculturas monumentais do artista Beto Gatti. Intitulada Primórdios Digitais, a intervenção espalha obras de até dois metros de altura por pontos estratégicos da cidade, como a Praia do Leblon, a Lagoa Rodrigo de Freitas, a Praça Mauá e o Aeroporto Internacional do Galeão. As peças representam primatas com corpos humanos manipulando celulares, drones e visores digitais, numa alegoria contundente sobre a dependência tecnológica e o esvaziamento das relações sociais na era digital.
Com uma trajetória consolidada em instituições nacionais e feiras internacionais como a Art Basel, Beto Gatti expande seu trabalho para além das galerias ao ocupar o espaço público com obras que interpelam o passante. Através de uma estética que mescla materiais ancestrais como o bronze a tecnologias contemporâneas de modelagem e fundição, o artista cria um discurso visual sobre o paradoxo de viver entre o real e o digital. “Primórdios Digitais é um convite à pausa e à reflexão coletiva sobre o que nos conecta”, afirma Gatti, que começou a desenvolver a série A origem em 2021, após 15 anos atuando como fotógrafo de moda.
Entre as esculturas em exibição, destaca-se La Décadence Biomorphique, instalada em frente ao Museu do Amanhã, que ganhou a capa da revista MIT Technology Review. Outras obras como Desconectados, Saudade e Cabo de Guerraintensificam a crítica ao aprisionamento digital por meio de imagens simbólicas e bem-humoradas: primatas absortos em telas, câmeras no lugar de rostos e abraços interrompidos por selfies. A peça Primórdios Digitais, que dá nome à intervenção e será instalada na Rua Dias Ferreira, reúne dois símios em torno de um único celular, reiterando a substituição do vínculo humano pelo gesto repetitivo e solitário do toque em telas.
As obras fazem parte de coleções particulares e foram gentilmente cedidas para a ação. Cada escultura será acompanhada por placas informativas e, numa ironia própria à proposta do artista, QR codes convidam os espectadores a utilizarem o celular para descobrir curiosidades sobre o processo criativo. Ao transformar o espaço urbano em plataforma expositiva, Gatti reafirma o poder da arte pública como instrumento de crítica, afeto e provocação — e faz do Rio o epicentro de uma reflexão visual urgente sobre os dilemas do nosso tempo.
Se você aprecia esculturas públicas que transformam o cotidiano urbano em experiência estética, vale conhecer o Art Boulevard — concurso recém-lançado que convida artistas a proporem uma obra inédita para a cidade de São Paulo. Voltado especialmente a escultores em ascensão, o prêmio contempla um valor de aquisição de R$ 300 mil e prevê a instalação da obra vencedora em um espaço público da capital. A iniciativa busca incentivar a produção contemporânea e ampliar o diálogo entre arte e cidade, estimulando novas formas de ocupação simbólica do espaço coletivo.
Atualização 18.6.2025
Depois de serem apresentadas em espaços icônicos da cidade do Rio de Janeiro, como a Lagoa Rodrigo de Freitas e a Praça Mauá, esculturas ocupam o pátio do MAC e locais de grande circulação em Niterói
Após a temporada carioca, Primórdios digitais, do artista visual Beto Gatti, chega ao Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC) no sábado, 14 de junho de 2025. Por iniciativa da prefeitura local, as cinco esculturas que integram a intervenção urbana permanecem no museu até 30 de junho e, no dia 1º de julho, serão instaladas em pontos estratégicos da cidade: Praça Araribóia, calçadão da Praia de Icaraí (em frente à UFF), Praça do Rádio Amador (São Francisco) e Parque da Cidade. Na quarta-feira, dia 25 de junho, às 19h, será realizada no MAC uma conversa pública, com participação do artista e mediação da primeira-dama Fernanda Sixel Neves.
“É um privilégio levar as esculturas para Niterói. Acredito na arte como forma de criar pausas, momentos de contato, de presença real. Quero que as pessoas, no cotidiano da cidade, se permitam esse instante de reflexão sobre o paradoxo entre o real e o virtual”, afirma Gatti.
De acordo com o artista, a intenção é expandir a discussão sobre o comportamento digital nas cidades, fazendo com que o público interaja diretamente com as obras em seu cotidiano: “Vivemos imersos em uma realidade digital que aproxima e isola, simultaneamente. Primórdios Digitais é um convite à pausa, à presença e à reflexão coletiva sobre o que, de fato, nos conecta”, afirma o artista.





