Público acompanha ao vivo restauro de obras de Aleijadinho

Restauro Aleijadinho | FOTO: Studio Cerri

O patrimônio cultural denota o valor das formas de manifestação de nossa memória e evidencia a importância do conhecimento das raízes de nossa identidade. Prova disso são as expressões artísticas pregressas: ao se transformarem em um legado, nos moldam até os dias atuais e, mais do que isso, trazem perspectivas e referências para o futuro. Para celebrar seus 15 anos e a reabertura ao público, “Aleijadinho, arte revelada: o legado de um restauro” é um presente da Casa Fiat de Cultura a Minas Gerais e ao Brasil. O grande destaque desta iniciativa inédita está no cuidadoso restauro de três obras de Aleijadinho (1738-1814), guardadas sob as montanhas de Minas Gerais: as imagens de Sant’Ana Mestra, de São Joaquim e de São Manuel. Em uma experiência viva e única, será possível conhecer os bastidores do ateliê e vislumbrar detalhes das etapas do restauro. A partir do dia 3 de novembro, o público poderá agendar, pela Sympla, visitas mediadas pelo Programa Educativo ao ateliê-vitrine instalado no hall da Casa Fiat de Cultura. Além disso, pelas redes sociais, será possível acompanhar uma websérie que vai apresentar o making of de todo o processo e aspectos da vida e da obra de Aleijadinho. No dia 2 de dezembro, será inaugurada a mostra que revela as obras de São Joaquim e São Manuel já restauradas, enquanto Sant’Ana continua em processo de restauro, ao vivo, para apreciação do público.

Segundo o presidente da Casa Fiat de Cultura, Fernão Silveira, desde sua fundação, em 2006, a instituição desenvolve ações voltadas à valorização do patrimônio. “Restaurar obras do século XVIII revela, além de suas características e peculiaridades, a importância do seu gênio criador, o mestre Aleijadinho. Restaurar é respeitar o passado e, ao mesmo tempo, reconstruir a esperança no futuro. Ao oferecermos a oportunidade de o público acompanhar um restauro ao vivo, estamos, uma vez mais, a cumprir nosso papel de valorizar a cultura e os múltiplos saberes, formando públicos aptos a vivenciar as muitas dimensões da arte”, afirma.

“Ao completar 45 anos de presença em Minas Gerais, a Fiat, agora integrada à Stellantis, o quarto maior grupo automotivo do mundo, apoia a Casa Fiat de Cultura neste presente especial oferecido aos brasileiros: o cuidadoso restauro de obras do mestre Aleijadinho. A Fiat e a Stellantis orgulham-se de participar deste momento. Além de preservar a riqueza de obras de grande importância, a Casa Fiat de Cultura ajuda a preservar, para as futuras gerações, a expressão mineira de um movimento artístico europeu como o Barroco”, salienta o presidente da Stellantis para a América Latina, Antonio Filosa.

“Aleijadinho, arte revelada: o legado de um restauro na Casa Fiat de Cultura” é uma realização da Casa Fiat de Cultura, com apoio do Ministério do Turismo, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, patrocínio da Fiat, do Banco Safra e da Gerdau, copatrocínio da Expresso Nepomuceno, da Sada, do Banco Fidis e do Mart Minas. A mostra tem apoio institucional do Circuito Liberdade, do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico (Iepha), do Governo de Minas e do Governo Federal, além do apoio cultural do Programa Amigos da Casa, da Brose do Brasil e da Brembo.

O mestre Aleijadinho e sua contribuição para Minas e o Brasil

Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, era um homem pardo, filho de mulher negra e escravizada, que nasceu na primeira metade do século 18. Suas dificuldades físicas não o impediram de trabalhar até cerca de dois anos antes de sua morte, tampouco afetaram a delicadeza de suas obras, repletas de características muito específicas, como os desenhos dos cabelos cacheados, dos olhos, geralmente amendoados, das sobrancelhas arqueadas, e dos narizes com delineamento longo e estreito. O artista – que foi entalhador, escultor e arquiteto – aprendeu seu ofício na prática, sem estudos, mas seu talento e sua representatividade na arte brasileira o tornaram reconhecido mundialmente.

Um dos mais importantes nomes do barroco e do rococó, Aleijadinho teve o período de maior desenvolvimento de sua arte entre os séculos 18 e 19. Um grande destaque em sua trajetória é o conjunto em Congonhas, obra complexa, que envolve narrativa, arquitetura e paisagem e, hoje, é registrada como Patrimônio Cultural Mundial pela Unesco. Além do conjunto, o mestre deixou como legado importantes obras, que fazem parte não somente da história de Minas Gerais, mas também de várias cidades pelo país. Por mais que, à época, Aleijadinho pudesse não imaginar que seu ofício se reverberaria como arte, as obras sacras e seu rico trabalho arquitetônico se tornaram referência no que se conhece como um dos primeiros processos artísticos genuinamente brasileiro.

As obras de Aleijadinho a serem restauradas

O legado de Aleijadinho será rememorado pela Casa Fiat de Cultura por meio do processo de restauro das obras de Sant’Ana Mestra, pertencente à Capela de Sant’Ana, da comunidade de Chapada de Ouro Preto/MG; de São Joaquim, da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, em Raposos/MG; e de São Manuel, do acervo da Paróquia de Nossa Senhora do Bonsucesso, em Caeté/MG. A iniciativa acontece 60 anos depois que Jair Afonso Inácio, conservador-restaurador do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), após restaurar a imagem de Sant’Ana Mestra, teve a oportunidade de observar as características definidoras do estilo que culminaram com a atribuição da peça a Aleijadinho.

A iconografia de Sant’Ana Mestra representa uma cena em que a santa, já idosa, sentada em uma cadeira vermelha, ensina sua filha Maria, de pé ao seu lado direito, as primeiras letras em um livro aberto sobre seu colo. Mãe de Maria e avó de Jesus, Sant’Ana é considerada a protetora dos lares e da família, bem como dos mineradores. Em Minas Gerais, diversas igrejas e capelas são dedicadas à santa, que também tem sua imagem replicada em oratórios em muitos lares brasileiros – devoção que começa no período colonial e segue até hoje. A imagem de Sant’Ana Mestra representa o modelo maternal e, por extensão, os valores da educação, da formação, especialmente moral e religiosa. Foi produzida na maturidade de Aleijadinho, na virada do séc. 18 para o séc. 19, sendo possivelmente contemporânea às imagens de Congonhas. A representação de uma cena estática, mas que traduz grande movimentação, por meio dos direcionamentos das dobras das vestes, das linhas de força que se entrecruzam e que levam o espectador, a cada momento, a dirigir seu foco para uma posição distinta da imagem são características bastante representativas do estilo barroco. Entretanto, a presença da rocalha na cadeira, a elegância de seu espaldar com áreas vazadas, e até mesmo o alongamento na representação de Sant’Ana indicam um trabalho já ao gosto do rococó.

Em Minas Gerais, o imenso culto a Sant’Ana fez com que a devoção a São Joaquim – avô do Menino Jesus – fosse, da mesma forma, largamente disseminada entre a população católica. Nessa imagem da fase madura de Aleijadinho, entre os séculos 18 e 19, São Joaquim é representado com idade avançada, barba e cabelos de coloração acinzentada, tendo como atributo o cajado. A diagonalização de suas linhas composicionais, o olhar e um dos pés dirigidos para um dos lados; a mão aberta em direção oposta a eles; a posição do cajado em relação às linhas do seu manto são todas características barrocas, mas já com alongamento e elegância do rococó.

Já a imagem de São Manuel é misteriosa: trata-se de um santo oriental, vindo da Pérsia, que surge somente em textos apócrifos, mas conquista fiéis em Portugal e alcança a religiosidade em Minas Gerais. Na representação de Aleijadinho, o santo tem o corpo perfurado por cravos, que atravessam seus ouvidos e as laterais do peito, e apresenta, no pescoço, a marca de sua decapitação. Em pé e com as mãos postas, leva na cintura um pano belamente drapeado, e à cabeça um resplendor de prata. Toda a composição é bastante vertical, uma referência ao rococó.

FOTO: Leo Lara

O passo a passo do restauro

A restauração das três obras de Aleijadinho será feita pelo Grupo Oficina de Restauro, com o acompanhamento técnico do IPHAN. A dinâmica a ser desenvolvida na Casa Fiat de Cultura permitirá a aproximação entre os visitantes e os restauradores, que poderão acompanhar todo o passo a passo e conhecer os bastidores de um restauro, seja por meio de visitas presenciais agendadas, seja através das vitrines da Casa Fiat de Cultura ou, ainda, pela programação virtual, que inclui a websérie “Aleijadinho, arte revelada: o legado de um restauro na Casa Fiat de Cultura”.

Antes da restauração começar, um trabalho de pesquisa e análise das obras foi feito com o objetivo de coletar o maior número de informações sobre sua iconografia, os estudos estilístico-formais, o contexto histórico em que foram produzidas e o estado de conservação. Foram realizadas, também, fotos científicas usando fluorescência de ultravioleta, que permite analisar a camada pictórica e o estado de conservação dos vernizes superficiais, e infravermelho, para identificar possíveis riscos e desenhos que não são vistos a olho nu. Com este tipo de fotografia, foi possível verificar, por exemplo, se houve repintura, além de diferenciar tons e cores originais daqueles aplicados por intervenções anteriores. Para identificação de todas as uniões entre os blocos de madeira e os cravos usados na confecção de cada peça do conjunto escultórico, as obras passaram, ainda, por uma leitura oferecida pelo raio X.

De acordo com a restauradora e coordenadora do projeto de restauro, Rosangela Reis Costa, as obras apresentam um estado de conservação regular em diferentes estágios, com danos naturais causados pela ação do tempo: início de ataque de cupim e fissuras possivelmente provenientes da movimentação da madeira, especialmente em partes que se supõe tratar das junções entre os blocos utilizados em sua confecção. Em se tratando da pintura, a imagem de Sant’Ana tem muitas falhas, São Manuel apresenta manchas e craquelês em quase todas as áreas; já em São Joaquim, quase não é possível encontrar resquícios da pintura original. “O processo de restauração é importante para impedir que sejam gerados danos permanentes e irreparáveis”, pontua.

Todas as imagens passarão pelo mesmo processo de intervenção, o que inclui, dentre outras etapas, higienização da obra, contenção de fissuras, complementação de partes faltantes com massa, reintegração de lacunas e manchas, complementação de partes faltantes com massa e, por fim, a aplicação de verniz, que protege a superfície e permite o ajuste do brilho da peça.

Além disso, as peças serão colocadas em uma bolsa sem a presença de oxigênio – tratamento totalmente atóxico, que usa tecnologia de ponta, que garante a total desinfestação de cupins em madeira –, e imunizadas por uma barreira química para evitar novos ataques. “A intervenção que faremos será o mais sutil possível e apta de ser retratável, de modo a não impedir futuras restaurações. Afinal, estamos atuando com o resgate da cultura, das memórias e, principalmente, com a preservação da história de um grande mestre”, reforça a restauradora Rosangela.

Sant’Ana Mestra, pertencente à Capela de Sant’Ana Aleijadinho | FOTO: Studio Cerri

Um projeto em três atos

“Aleijadinho, arte revelada: o legado de um restauro na Casa Fiat de Cultura” acontecerá em três momentos, deixando como legado as obras de Aleijadinho restauradas e reintegradas ao patrimônio.

O primeiro momento, a partir do dia 3 novembro, se dá com a abertura do ateliê-vitrine de restauro ao vivo. Com o intuito de sensibilizar as pessoas quanto à relevância da preservação do patrimônio e do criterioso trabalho de conservação de uma obra de arte, o ateliê será montado no hall principal da Casa Fiat de Cultura e ficará aberto à visitação do público por meio de agendamentos, com entrada gratuita. O segundo momento, a partir de 2 de dezembro, inaugura a mostra que revela as obras de São Joaquim e São Manuel já restauradas, enquanto Sant’Ana continua em processo de restauro, ao vivo, para apreciação do público. O terceiro momento, em 2022, será o lançamento do e-book sobre a exposição, com todo o histórico e o registro do processo de restauro, culminando com a entrega das obras às suas comunidades.

Para o curador da exposição, o historiador Liszt Vianna Neto, graças ao restauro promovido pela Casa Fiat de Cultura, será possível revisitar a obra de Aleijadinho e revelá-la ao público, para que os contemporâneos possam reconstruir a memória do mestre. “Através destas obras, contaremos a história de Antônio Francisco Lisboa e desses santos católicos, da religiosidade popular que as envolve, das igrejas e capelas que as abrigam, das comunidades a elas devotas e que, ainda hoje, permanecem como suas fiéis guardiãs. Acompanharemos, passo a passo, o reconstruir, por meio da compreensão histórica, e o revelar, através do restauro, de maneira que as futuras gerações possam conhecer e zelar pela arte e a cultura em Minas Gerais”, ressalta o curador.

No momento de planejar a expografia da mostra, o arquiteto Paulo Waisberg conta que criou uma espacialidade para adequar ao tema, e fez interferências sutis na roupagem tradicional do hall da Casa Fiat de Cultura. Cada um dos espaços que abrigará as três obras ficará envolto por uma cortina de voil em forma circular, remetendo ao barroco. Ao mesmo tempo em que a cortina preserva a especificidade do trabalho de restauro, ela revela as obras para que o público possa apreciá-las. No centro dos círculos, o chão é dourado, uma forma de dar destaque às obras, mas, também, uma referência ao douramento comumente realizado nas peças barrocas. “As obras são muito delicadas, assim como as cortinas, que se transformam em um pretexto para contar a história do barroco e da restauração”, explica Waisberg.

Compartilhar:
Notícias - 03/12/2021

Lista de mais poderosos da arte contemporânea traz líder surpreendente

ERC-721, a especificação para o “token não fungível” na rede Ethereum, está em primeiro lugar no ranking anual dos mais …

Notícias - 02/12/2021

Fotografiska pretende se tornar o maior museu privado do mundo

Fotografiska, o museu sueco com fins lucrativos, está adicionando três novos locais à sua lista de unidades já existentes: além …

Notícias - 01/12/2021

Restauro de obras de arte do Metrô de São Paulo vira documentário

Em curso desde 2019 e com as primeiras etapas registradas em um documentário disponível no YouTube com aproximadamente …

Notícias - 01/12/2021

Obra icônica de Banksy vai a leilão pela Bolsa de Arte SP

Pela primeira vez, uma obra de Banksy irá a leilão na América Latina – no dia 10 de fevereiro, na …

Notícias - 30/11/2021

Inhotim recebe o Museu de Arte Negra idealizado por Abdias Nascimento

Poeta, escritor, dramaturgo, curador, artista plástico, professor universitário, pan-africanista e parlamentar, Abdias Nascimento (1914-2011), indicado oficialmente ao prêmio Nobel da …

Notícias - 30/11/2021

Museu Judaico de São Paulo é inaugurado

A partir do dia 5 de dezembro de 2021, abre para visitação o Museu Judaico de São Paulo (MUJ), espaço …

Notícias - 29/11/2021

Festival de performances abre convocatória

Festival Atos de Fala completa 10 anos e sua sexta edição – que acontece de 19 de janeiro a 02 …

Notícias - 29/11/2021

Prêmio Arcanjo de Cultura divulga indicados e retoma cerimônia presencial

Valorizar e premiar nossa cultura e seus artistas em tempos tão difíceis é a missão do Prêmio Arcanjo de Cultura, …

Notícias - 26/11/2021

Steve McCurry e a resiliência da infância em fotos

De meninas enfrentando o Mar de Sulu a crianças em idade escolar no Afeganistão, no novo livro Stories and Dreams …

Notícias - 26/11/2021

Veja resenha de nova biografia de Magritte, um homem de mistério

Ao contrário de seus contemporâneos surrealistas, René Magritte tendia a manter Freud à distância de sua obra – embora poucos artistas ofereçam …

Notícias - 26/11/2021

A 'amizade íntima' de Basquiat e Warhol é explorada em drama

A exposição prometia ser de tirar o fôlego, com os dois artistas usando luvas de boxe no pôster. Mas a ansiosamente …

Notícias - 26/11/2021

Imagem da semana: Um espírito emerge de um depósito de lixo no Senegal

Outside Dakar, capital do Senegal, é um depósito de lixo com seu próprio nome: Mbeubeuss. O terreno onde fica situado foi …