Após cinco anos de pesquisa, plataforma reúne a produção de Luiz Sacilotto e documentos que ajudam a reconstruir sua trajetória entre arte, técnica e indústria
Após cinco anos de pesquisa e organização documental, o Projeto Sacilotto disponibiliza ao público um catálogo raisonné digital dedicado à produção de Luiz Sacilotto (1924–2003). Com mais de 1.600 obras catalogadas, a plataforma reúne não apenas imagens e informações técnicas sobre os trabalhos, mas também documentos, registros de exposições, bibliografia, fortuna crítica, entrevistas e materiais audiovisuais. O resultado amplia o acesso à trajetória de um dos nomes centrais da arte concreta brasileira e cria uma ferramenta de pesquisa capaz de acompanhar a circulação e a recepção de sua produção ao longo das décadas.

Luiz Sacilotto, C 8873, 1988. Crédito: Coleção particular

Luiz Sacilotto, C C 8331, 1983. Crédito: Coleção particular
A estrutura do catálogo permite consultar cada obra a partir de um conjunto amplo de informações, estabelecendo conexões entre os trabalhos e os documentos relacionados à sua história. Conforme a documentação disponível, as fichas apresentam data, técnica, suporte, dimensões, local de produção, inscrições, títulos alternativos e obras relacionadas, além de referências a exposições, livros, catálogos e outras publicações. Mais do que organizar um acervo, o projeto procura reconstruir as redes documentais que envolvem cada peça, oferecendo aos pesquisadores uma visão mais abrangente dos processos de produção, circulação e interpretação da obra de Sacilotto. Para Valter Sacilotto, filho do artista, a iniciativa também representa uma maneira de manter a produção do pai acessível a novas gerações.
Nascido em Santo André, em 1924, Sacilotto desenvolveu uma formação singular, na qual a prática artística esteve desde cedo associada ao desenho e ao domínio técnico. Durante as décadas de 1940 e 1950, trabalhou como desenhista de letras de alta precisão na Hollerith do Brasil, assistiu a trabalhos de cenografia na Companhia Cinematográfica Vera Cruz e atuou como desenhista-projetista em escritórios de arquitetura e empresas de esquadrias metálicas. Paralelamente, aprofundou suas pesquisas em abstração geométrica e, em 1952, integrou o Grupo Ruptura, ao lado de Waldemar Cordeiro, Geraldo de Barros, Lothar Charoux, Anatol Wladislaw, Kazmer Féjer e Leopold Haar. Em sua produção, geometria, ritmo, luz, movimento e transformação da forma passaram a operar como elementos de uma investigação contínua. A partir de 1954, o artista passou ainda a numerar sistematicamente seus trabalhos, inicialmente identificados como Concreção, estabelecendo uma sequência que atravessa parte significativa de sua carreira.

Luiz Sacilotto, C 8699, 1986. Crédito: Coleção particular
A circulação internacional de sua obra começou ainda nos primeiros anos dessa trajetória. Sacilotto participou da 26ª Bienal de Veneza, em 1952, das cinco primeiras Bienais do Museu de Arte Moderna de São Paulo e das 6ª e 8ª edições da Bienal de São Paulo, em 1961 e 1965. Em 1960, esteve em Konkrete Kunst, exposição internacional de arte concreta organizada por Max Bill em Zurique. Décadas depois, sua produção ganhou uma retrospectiva no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 1980, e voltou ao centro de exposições recentes, como Sacilotto contemporâneo: cor, movimento e partilha, apresentada pelo MAC USP em 2024, durante as comemorações de seu centenário, e Sacilotto BioGráfico, realizada pelo Sesc Santo André em 2025. O catálogo agora disponibilizado incorpora essa trajetória expositiva e a relaciona à documentação acumulada sobre o artista.
A amplitude do material reunido também desloca Sacilotto de uma leitura restrita à pintura e à tradição da arte concreta. Desenhos, gravuras, relevos, objetos tridimensionais, murais, intervenções em espaços públicos, projetos, maquetes e estudos revelam a diversidade de técnicas e suportes mobilizados ao longo de sua carreira. A cronologia do projeto acompanha ainda suas experiências com arquitetura, cenografia, paisagismo e desenho técnico, áreas que ajudam a compreender a presença constante da precisão construtiva e dos processos industriais em sua prática. Entre os documentos recuperados estão entrevistas e registros audiovisuais, além de episódios menos conhecidos de sua biografia, como sua participação, em 1959, em campanhas publicitárias da Fábrica de Tintas Ideal, nas quais apareceu como modelo fotográfico.

Luiz Sacilotto, Sem título, 1976. Crédito: Coleção particular
O catálogo é resultado de um trabalho multidisciplinar que envolveu pesquisadores, catalogadores, profissionais de documentação, revisão bibliográfica, tecnologia e design, com colaboração de museus, instituições, galerias, coleções, pesquisadores e colecionadores. Por seu caráter digital, a plataforma não se apresenta como um levantamento encerrado, mas como uma estrutura aberta à incorporação de novas informações e documentos. Ao reunir mais de 1.600 obras e uma extensa rede de fontes em um mesmo ambiente, o Projeto Sacilotto transforma a documentação da carreira do artista em uma ferramenta permanente de pesquisa, capaz de acompanhar tanto o conhecimento já consolidado quanto as descobertas que ainda podem surgir.


