Projeto inovador A Incubadora de Publicações Gráficas lança 10 livros de artista em Salvador neste sábado

A Incubadora de Publicações Gráficas é um espaço criado para acolher artistas e autores com projetos de livro de artista originais e inéditos. Seu objetivo é estimular a criação e desenvolvimento deste tipo de publicação, oferecendo aos participantes orientação, atividades de formação, financiamento, lançamento e distribuição. No ciclo de trabalho 2019/2020 recebemos mais de 140 inscrições, selecionando 15 autores e 10 propostas locais para acompanhamento. As atividades de formação deste ciclo, quatro no total, aconteceram entre dezembro de 2019 e março de 2020 e foram ministradas por Amir Brito Cadôr, Estela Vilela, Elaine Ramos e Marilá Dardot. A produção e curadoria ficou mais uma vez a cargo dos diretores da RV Cultura e Arte, Ilan Iglesias e Larissa Martina.

A Incubadora de Publicações Gráficas, iniciativa que visa estimular a criação e desenvolvimento de livros de artista em Salvador, chega ao final de seu segundo ciclo de atividades no próximo dia 05 de dezembro, a partir das 10:00h, com uma exposição coletiva na RV Cultura e Arte para o lançamento das 10 publicações participantes do projeto. VEJA AQUI mais informações sobre a abertura.

Entre as obras que serão apresentadas ao público estão livros fotográficos, a exemplo de “Imemorial” (Lara Perl) que compartilha a experiência de um longo período de convivência de uma personagem oculta com a biblioteca de livros do seu pai, e “Unblack Lisbon” (Tom Correia) que toca em questões relacionadas à invisibilidade do negro na fotografia portuguesa, ao racismo estrutural e ao silenciamento ao redor do tema; livros-objeto que exploram possibilidades escultóricas como “Até a falha” (Renata Voss) no qual imagens reveladas em chapas de radiografia nos convidam a examinar, olhar através e ir além da superfície, e “No meu corpo o canto” (Alex Simões e Tanto) que sobrepondo camadas cartográficas, poéticas e tipográficas, convida o leitor a se perder em um labirinto dobrável de haikais; e até publicações que investigam procedimentos performáticos de impressão como é o caso de “Reza” (A margem) um livro-memória, um ritual de contato a partir da pólvora e “NoitesCinzas” (Zé de Rocha) que de forma metalinguística reúne imagens que tratam sobre destruição e reconstrução, transgressões sociais e a memória de uma manifestação cultural em vias de desaparecimento. Todas as publicações têm tiragem mínima de 100 exemplares, numerados, e poderão ser adquiridas por valores que variam de R$ 65,00 a R$ 130,00.

“Nesse segundo ciclo de trabalho da Incubadora acredito que conseguimos ampliar o interesse dos autores e artistas visuais da cidade pelo universo do livro de artista, recebemos um número expressivo de inscrições e conseguimos selecionar projetos diversos, de autores com trajetórias em diferente linguagens das artes, o que sempre é muito interessante para que o trabalho em coletivo seja mais rico. Porque esse é um dos pontos mais importantes para nós no processo de formulação da Incubadora: a criação desse arranjo coletivo de trabalho, onde os participantes estão em constante troca de experiências e informações, não só entre si mas também com os profissionais convidados que ministram as atividades de formação e inclusive com a rede de profissionais do livro e da arte gráfica de Salvador, acionados pelos artistas no processo final de produção das publicações”, comenta Larissa Martina, curadora do projeto.

  • Abertura 05/12/2020 das 10:00h às 16:00h a partir de agendamento – para saber mais sobre como visitar a exposição seguindo os protocolos de segurança acesse incubadoragrafica.com
  • Visitação gratuita na galeria (segunda a sexta das 10:00h às 16:00h e sábados das 10:00h às 12:00h) ou através do site até 16/01/2021
  • Local: RV Cultura e Arte – Av. Cardeal da Silva 158, Rio Vermelho, Salvador/Bahia.

Livros

No meu corpo o canto, de Alex Simões + Daniel Saboia, Fábio Steque e Patricia Almeida (Tanto – Criações Compartilhadas)
No meu corpo o canto reúne poemas visuais feitos com palavras colhidas nas ruas de Salvador pelo poeta Alex Simões, que desde 2018 se apropria do caráter gráfico e textual de letreiros urbanos captados com a câmera do celular para compor a série de fotomontagens do trabalho #experimentoscomletrasurbanas, publicando-as nas redes sociais. A colaboração entre o poeta e os arquitetos-urbanistas e artistas gráficos da TANTO Criações Compartilhadas (Patricia Almeida, Fabio Steque e Daniel Sabóia) motivou um olhar coletivo sobre as errâncias do poeta na cidade e o tipo de experiência urbana praticada, como caminho para remontar outra cidade, ou outra experiência, igualmente errante e poética, através da fruição do livro-objeto. Sobrepondo camadas cartográficas, poéticas e tipográficas, a publicação convida o leitor a se perder em um labirinto dobrável de haikais envolvido por uma cartografia poética que que reflete sobre o diálogo entre os autores, a poesia, a performance, a arquitetura, o urbanismo e outras linguagens.

Como se escreve um bicho, de João Oliveira + Kaula Cordier
Como se escreve um bicho parte de uma questão, uma expiação interrogativa, e constrói a sua narrativa justamente ante a impossibilidade de respondê-la. Criado a partir de animais de plástico prensados sobre papel, esse livro-objeto brincante permite múltiplas montagens, reconfigurações e histórias. Através da junção de imagens ligeiramente zoomórficas, pequenos textos, e capas-peles moles e coloridas, lança a pergunta do que é ou pode ser um bicho, imenso imaginário em aberto. Uma interrogação move outra e, movendo mais uma, entre páginas, um bicho único se desenha.

Imemorial, de Lara Perl
Imemorial é um livro que compartilha a experiência de um longo período de convivência de uma personagem oculta com a biblioteca de livros do seu pai; a partir deste arquivo e de seus
fragmentos, ela propõe pistas para possíveis caminhos, aberturas e desvios, chegando em um lugar de descanso, um oásis entre Amaralina, Japão e o universo geológico do escultor Isamu Noguchi. Ali, páginas soltas colecionadas há tempos ganham uma nova morada: títulos, epígrafes, dedicatórias, dias e anos viajam e flutuam em páginas ásperas, mergulhadas em um jardim de pedras, água e vento. Como uma escultura, cada livro guarda o seu segredo e cada arquivo, a sua miragem. A guardiã-colecionadora deste livro quer devolver ao mundo o seu ritual de encontrar coisas pequenas e gigantes dentro dos livros, oferendo a surpresa, o acaso e a promessa de um livro-amuleto, em busca de novas mãos para proteger o que está dentro e fora. Com tiragem de 100 exemplares, cada exemplar apresenta uma narrativa única, formada por essas páginas soltas originais. O processo de edição vira a despedida deste material uma fragmentação do próprio arquivo no mundo.

 

Inês: pequena antologia do passado, de Laura Castro
Inês é um livro de poesia de Laura Castro, a partir da memória de seu avô materno. Amilton Ignácio de Castro era seu nome, que herdou de duas mulheres: Ignácio veio de Ignácia, sua avó de criação e o Castro de Inês, sua avó de sangue, mulher negra escravizada cuja história se perdeu na memória de seus descendentes. Dividido em três partes, o livro percorre o caminho entre um Recôncavo-África até o Sul da Bahia em busca desse encontro que nunca houve, entre Inês e Ignácio. No caminho, uma legião de vozes e mulheres. Com o miolo impresso 100% em tecnologia tipográfica, impresso pelas mãos negras de Seu Antônio e composto pelo tipógrafo e poeta Ronny Bom, mestres gráficos do Recôncavo da Bahia, o livro é gravado por uma espécie de memória gráfica dessa região.

Reza, de Leonardo Vieira + Nadine Nascimento (A margem)
Reza a história de um homem que, em fuga de si, largou tudo e partiu com Maria e alguns meninos no braço em direção às Minas Gerais, no lugar onde o primo vivia com a antiga e manchada lepra. Foi rei de uma oyó marginal, na região dos Limas – uma vila da Hanseníase -, fronteira entre a colônia [12.329] Sanatório Santa Isabel e o nada. Excluído de si, meu avô nasceu dentro de mim, no interior da Bahia. Sua história em branco, passado fumaça, etéreo. Nuvem esparsa. Espaços de memórias soltas, excluídas, gaguejadas. Aqui eu imagino e ando só. Escrevo a partir do inaudível, dos segredos sussurrados pelos caminhos que estive até chegar aqui. E o convoco para riscar suas verdades, pó pólvora de sua própria história. Um livro-memória, um ritual de contato. Xangô tem seu livro marcado na pedra. Reza uma possível história para meu avô Joaquim Trovão.

1., de Miguel Falci
Para entender é preciso reler. E reler. E reler. Até encontrar. 1. Escondido em cada página. Mudo. Quase invisível. Ele nos fala de terras distantes. Onde pisar é uma arte. Onde um asfalto tatuado por faixas imprime ritmos ao folhear. Você folheia como quem caminha. E como quem caminha você aos poucos vai descortinando um universo de texturas. Áspero por fora, mas suave por dentro. Simples assim. Um livro de caminhadas e cruzamentos por onde passei até chegar aqui.

Retratos de coisas sonhadas, de Patrícia Martins
As imagens que compõem a série que apresento neste livro vieram de um arquivo de imagens de um estúdio fotográfico baiano que aparenta ser de meados da década de 1950, cedido por um amigo, mas de origem desconhecida. Viradas do avesso, reconfiguradas, gravadas ou destruídas, estão inseridas agora em um outro universo, dos sonhos e dos fantasmas.

Até a falha, de Renata Voss
Livro de fotografias de uma fisiculturista em poses que são obrigatórias em competições, trazendo um corpo que nos fala sobre ir até ou além dos limites quando faltam condições perfeitas. Essas imagens que foram reveladas em chapas de radiografia nos convidam a examinar, olhar através e ir além da superfície. O que revela a imagem de uma mulher forte?

Unblack Lisbon, de Tom Correia
Série em preto-e-branco de pessoas negras anônimas em momentos espontâneos nas ruas de Lisboa, onde o autor realizou residência artística em 2017. De forma poética e ao mesmo tempo contundente, o trabalho toca em questões relacionadas à invisibilidade do negro na fotografia portuguesa, ao racismo estrutural e ao silenciamento ao redor do tema. A publicação foi pensada como uma espécie de suplemento retroativo de “Lisboa, cidade triste e alegre”, de Victor Palla e Costa Martins, uma das obras mais importantes da fotografia lusitana. As imagens dialogam com os versos de Agostinho Neto, Carla Fernandes, Francisco José Tenreiro e Telma Tvon.

NoitesCinzas de Zé de Rocha
NoitesCinzas é um livro de artista, totalmente impresso com carvão e cinzas, inspirado na Guerra de Espadas de Fogo de Cruz das Almas, cidade natal do autor Zé de Rocha. Sua confecção foi resultado de uma sequência de procedimentos que se inicia com um desenho a carvão, medindo 300x28cm, passa pela incineração e transformação desse desenho em tinta, e se encerra através de uma impressão serigráfica. Assim, NoitesCinzas estabelece conexões entre o local e o global, possibilitando a repercussão de imagens que tratam sobre destruição e reconstrução, transgressões sociais e memória de uma manifestação cultural em vias de desaparecimento.

 

A incubadora de Publicações Gráficas é uma iniciativa da RV Cultura e Arte e financiado pelo edital Gregórios – Ano II, da Fundação Gregório de Mattos, Prefeitura de Salvador.

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