Em uma nova e excêntrica investida contra os limites do tempo, Damien Hirst anunciou seu plano de perpetuar sua produção artística por dois séculos após sua morte. Em entrevista ao London Times, o artista britânico — frequentemente listado entre os mais ricos do mundo — revelou o projeto das chamadas “pinturas póstumas” (ou, como ironiza seu empresário, “pinturas preposterous”). A proposta envolve a criação de 200 cadernos, um para cada ano após sua morte, cujos conteúdos servirão de base para obras futuras. Os direitos de produção dessas peças poderão ser adquiridos por colecionadores, e as criações serão oficialmente assinadas por seus descendentes, acompanhadas de certificados com valor de mercado próprio.
A cronologia dos cadernos ditará quando as obras poderão ser produzidas, mas com uma reviravolta: elas também poderão carregar datas retroativas. Hirst cita como exemplo uma escultura de um porquinho em formol, concebida em 1991 mas nunca realizada. Caso essa ideia conste no caderno 145, ela poderá ser concretizada 145 anos após sua morte e ainda assim datada de 1991. Essa abordagem remete a controvérsias recentes, quando o artista foi criticado por atribuir datas dos anos 1990 a obras produzidas bem depois. Sua empresa, Science Ltd., defendeu-se afirmando que essas peças são conceituais, e que a data corresponde ao momento de concepção da obra.
A obsessão de Hirst com a longevidade — artística e financeira — não é novidade. Em 2021, ele causou furor ao lançar The Currency, projeto que confrontava o valor de obras físicas e NFTs: os colecionadores tinham um ano para escolher entre o arquivo digital ou a pintura em papel; o que não fosse escolhido seria destruído. Em 2023, ele atualizou suas famosas Spin Paintings dos anos 1990 com algoritmos generativos, oferecendo versões físicas, digitais ou híbridas. O projeto arrecadou US$ 20,9 milhões. Para uns, trata-se de inquietação criativa genuína; para outros, de mais um capítulo em sua lucrativa trajetória, marcada por episódios controversos — como o leilão autogerido na Sotheby’s em 2008 ou o polêmico uso de recursos públicos durante a pandemia. Resta saber se, no futuro, o porquinho em formol encontrará seu lugar na história da arte — ou se evaporará como tantas promessas de imortalidade artística que o tempo encarrega de dissolver.


