Quase noventa anos após ter sido cortada ao meio, a pintura Salomé com a cabeça de João Batista (c. 1530), de Lucas Cranach, o Velho, volta a ser exibida em sua forma original no Museu Ducal de Gotha, na Alemanha. Em 1937, uma galeria alemã separou a parte superior da obra — transformando a figura bíblica em uma “princesa saxã” — por considerar a cena do martírio “insuportável para pessoas refinadas”. O fragmento inferior, com a cabeça de João Batista, permaneceu em Gotha, enquanto o retrato de Salomé circulou pelo mercado europeu de arte ao longo do século XX.
A redescoberta se concretizou em 2022, quando o museu adquiriu a parte superior da pintura em um leilão em Paris por €144 mil. Agora reunidas, as duas metades voltam a dialogar quase cinco séculos após terem sido concebidas como um todo. “Este retorno é um ganho extraordinário, para Gotha e para a pesquisa em história da arte como um todo”, declarou Timo Trümper, diretor de coleções da Fundação Friedenstein. Apesar da recomposição, parte da obra permanece perdida para sempre.
A trajetória da pintura expõe as vicissitudes do mercado e do colecionismo no século XX. Vendida em 1936, em meio às dificuldades financeiras da instituição durante a hiperinflação alemã, a tela foi considerada “impossível de negociar” devido ao fundo repintado, às fissuras e, sobretudo, à presença da cabeça decepada. Ainda assim, o retrato de Salomé sobreviveu ao esquartejamento simbólico da galeria e percorreu coleções em Amsterdã e Londres até regressar à Alemanha. Hoje, o reencontro das partes oferece novas pistas sobre a prática de ateliê de Cranach e se soma a iniciativas recentes, como a reunião de Adão e Eva na Galleria degli Uffizi, em Florença.




