Com cerca de 50 obras de 28 artistas, exposição investiga como a arte do século XIX ajudou a construir a imagem do caipira e expõe as tensões raciais desse imaginário
A figura do caipira paulista chega a Piracicaba em uma exposição que propõe olhar para além da nostalgia. A partir de 26 de setembro, a Pinacoteca Municipal Miguel Dutra recebe Caipiras: das tropas à moda de viola, mostra com curadoria de Yuri Quevedo que reúne cerca de 50 obras de 28 artistas pertencentes ao acervo da Pinacoteca de São Paulo. O conjunto percorre mais de um século de representações do interior paulista, passando por tropeiros, bandeirantes, trabalhadores rurais, paisagens e personagens associados à cultura caipira.
A exposição parte de uma questão central: a imagem do caipira não surgiu apenas como registro de uma realidade social. No final do século XIX, ela também foi construída dentro de um projeto cultural e político que buscava definir uma origem para a identidade paulista. Almeida Júnior ocupa posição central nesse processo, com obras como as duas primeiras versões de Caipira Picando Fumo e Amolação Interrompida, ambas de 1893. Para Quevedo, essas pinturas precisam ser compreendidas dentro de seu contexto histórico. “Os caipiras foram eleitos, no século XIX, como a figura ancestral dos paulistas, uma origem calcada numa ideia racista de mestiçagem, que apostava no encontro de indígenas com europeus e na exclusão da população negra”, afirma o curador.

Caipira picando fumo (primeira versão), 1893. Créditos: Isabella Matheus/Pinacoteca de São Paulo.
Organizada em três núcleos, a mostra acompanha essa construção desde seus antecedentes. Em “A construção dos caipiras”, Almeida Júnior aparece ao lado de outras representações de tipos sociais, incluindo imagens de pessoas negras caracterizadas como caipiras, embora não identificadas dessa maneira. “Tropeiros, derrubadores e bandeirantes” recua ainda mais no tempo, reunindo registros de viajantes, representações de bandeirantes e paisagens que documentam a transformação da mata paulista. Entre os trabalhos está a litografia Défrichement d’une forêt [Derrubada de uma floresta], de Johann Moritz Rugendas, produzida entre 1827 e 1835. O último núcleo, “Os tempos mudam: a moda de viola e a nostalgia”, acompanha a transformação do caipira em personagem, com pinturas voltadas à vida doméstica, aos hábitos e às crenças do campo.
A presença de Almeida Júnior ganha ainda mais peso pela relação do artista com Piracicaba, onde morreu em 1899. Ao lado de suas pinturas, a exposição reúne trabalhos de Miguelzinho Dutra, patrono da Pinacoteca Municipal e autor de aquarelas que registram paisagens e tipos humanos do interior paulista, além de Pedro Alexandrino, Henrique Bernardelli, Monteiro França, Jean-Baptiste Debret e Rugendas. Entre os destaques estão Nhá Chica, Apertando o Lombilho, Cozinha Caipira, Estudo para “Caipiras Negaceando”, Estudo para “Partida da Monção” e O Violeiro, obra de 1899 em que Almeida Júnior leva o personagem rural para uma representação de caráter mais dramático.
A mostra é um desdobramento de Caipiras: das derrubadas à saudade, realizada na Pina Luz entre 2024 e 2025, e integra o programa CULTSP na Estrada, da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. A circulação também aproxima do público do interior obras que normalmente permanecem em exposição na capital. “Receber Caipiras: das tropas à moda de viola é uma satisfação e reafirma nosso compromisso com a democratização do acesso à cultura”, afirma Carlos Beltrame, secretário de Cultura de Piracicaba. A exposição permanece na Pinacoteca Municipal Miguel Dutra, no Parque do Engenho Central, até 6 de dezembro, com entrada gratuita.


