Declaração de Barbara Chase-Riboud reacende debate sobre política cultural, critérios institucionais e os bastidores ainda nebulosos da Bienal de 2026
A névoa sobre o pavilhão mais controverso da 61ª Bienal de Veneza ainda não dissipou. Mas, a poucos meses da abertura, uma das artistas convidadas a representar os Estados Unidos quebrou o silêncio. E a justificativa é tudo, menos óbvia.
Barbara Chase-Riboud, escultora e escritora franco-americana cujo trabalho dualista acabou de ser celebrado em oito museus de Paris, disse ao Financial Times que recusou a oferta porque “este não era o momento”. “Participar da 61ª Bienal de Veneza teria sido esplêndido”, afirmou. “A arte é a única coisa que prova que alguma vez aconteceu algo no mundo. Mas, como cidadã do mundo, este não era o momento.”
A declaração vem em meio a uma sucessão de reviravoltas na escolha do representante norte-americano. Chase-Riboud e o lendário fotógrafo William Eggleston teriam sido os primeiros nomes sondados pela recém-criada American Arts Conservancy (AAC), organização sem fins lucrativos fundada em 2025 por Jenni Parido, ex-dona de loja de suprimentos para animais de estimação na Flórida. Ambos recusaram. O escolhido da vez foi o escultor abstrato Alma Allen, baseado no México.
O processo, porém, nunca foi simples. Em maio do ano passado, o Departamento de Estado dos EUA assumiu a curadoria da indicação e alterou as diretrizes dos editais para alinhar-se ao desmonte federal de iniciativas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) promovido pela gestão Trump. Entre as novas exigências para o subsídio de US$ 375 mil: a proposta precisa “promover valores americanos” e demonstrar “capacidade de exibir excepcionalismo e inovação dos EUA”.
O cronograma também foi reduzido para oito meses. E o que veio depois foi uma sucessão de idas e vindas: uma proposta do artista Robert Lazzarini com o curador John Ravenal chegou a receber sinal verde do Departamento de Estado, mas foi desautorizada após negociações com o museu Contemporary Art Museum da Universidade do Sul da Flórida fracassarem. Em novembro, o Departamento anunciou oficialmente Allen e o curador independente Jeffrey Uslip como os representantes americanos. Mas perguntas sobre a AAC – seu modelo de financiamento, sua transparência e sua súbita ascensão – continuam sem resposta. A organização foi criada em parceria com Erin (Elmore) Scavino, diretora do programa Art in Embassies e esposa de Dan Scavino, vice-chefe de gabinete da Casa Branca.
Chase-Riboud não comentou se sua recusa teve como objetivo evitar qualquer associação com a administração Trump. Mas, ao dizer que “não era o momento”, a artista deixou no ar o que muitos no circuito já sussurravam: em Veneza, o silêncio, às vezes, pesa mais do que qualquer obra exposta.


