Passagem – por Maria Fernanda Paes de Barros

Passagem - FOTO: Lucas Rosin

Que é a arte, afinal, do ponto de vista emotivo, senão a linguagem das forças inconscientes que atuam dentro de nós?  

Mario Pedrosa

 

Maria Fernanda Paes de Barros emerge de sua crisálida e apresenta sua primeira obra, “Passagem”. Decididamente contemporânea, ela vai direto ao ponto. Através de uma estética poética muito bem-sucedida, ela traz o espectador de volta às origens do Brasil, questiona a passagem do tempo e nossas energias inconscientes.

Onde quero deixar meu reflexo? | FOTO: Ricardo Cavalheiro

A passagem do tempo e a herança indígena

As obras de arte dignas desse nome nas artes plásticas, em geral, nascem sempre em um momento preciso.  Elas vêm de longe, após um longo exercício que sucede o acúmulo de rascunhos, ou um longo e silencioso amadurecimento feito de observação, pensamento e experiência. Nesse caso, a obra nasce ja pronta, fruto de um caminho longamente percorido. Não importa, então, a carreira, o número de obras precedentes, pois o fruto está maduro e a obra nasce quase a despeito de seu autor.  Com “Passagem”, Maria Fernanda Paes de Barros oferece aos espectadores anos de reflexão. É uma obra que se enquadra perfeitamente no século XXI. Ela não poderia ter sido vista ou compreendida antes. Derivada da Land art, sem dúvida … talvez sociológica, seu conceito nos faz olhar para o passar do tempo, mas também para a herança indígena. Projetada para ser exibida em áreas externas, a obra também pode ser exibida em áreas internas. A artista utiliza materiais comuns que evocam “O louvor do solo”, as Matériologies ou as Texturologies do grande teórico francês da Art Brut, Jean Dubuffet (1901-1985).

Yankatu

Maria-Fernanda explica como e de onde veio a ideia de criar a Yankatu, antes de revelar-se como artista. Primeiro, alguns indícios sobre a sua filosofia de vida: “No Museu Xingu encontrei um pequeno texto dos Irmãos Villas-Bôas que falava sobre a terceira alma, Yankatu. Como eu queria que meu trabalho se destacasse e não eu, sabia que dele sempre fariam parte o artesanato e as tradições culturais, e, desde o início, dizia que ele teria alma, então resolvi lançar a Yankatu, ao invés de lançar “Maria Fernanda Paes de Barros”. Para mim não são apenas línguas e cores diversas, são histórias, costumes, experiências, dores e alegrias, gravadas nos ossos, escritas na pele, correndo pelo sangue. É preciso despir a alma de preconceitos, receber todos os estímulos, desconstruir para poder reconstruir com novo significado, somando o antes e o depois, o meu e o do outro.”

Onde quero deixar meu reflexo? | FOTO: Ricardo Cavalheiro

Um primeiro trabalho a quatro mãos

Pesquisadora e designer que, como acabamos de ver, há muitos anos valoriza a cultura indígena, Maria Fernanda é uma paulistana nascida em 1969, que hoje vive longe do agito, em Jundiaí (SP). Sentíamos, há algum tempo, que sua imaginação a instigava, e que ela queria passar para o lado dos artistas plásticos. Em 2020, para a 3ª versão do projeto paulistano Circular-Arte na Praça Adolpho Bloch, produziu uma obra a quatro mãos, com o amigo artista do Xingu, Kulikyrda “Stive” Mehinaku, “Onde quero deixar meu reflexo?” Uma escultura composta por um banco da tradição do Xingu, representando um tamanduá de nariz muito comprido, um espelho e uma grande raiz de árvore. Maria Fernanda queimou, simbolicamente, as extremidades da escultura. “A obra foi um convite para uma pausa, para o ‘sentar’, como momento de interiorização. Uma forma de despertar memórias para que percebamos nossa força, possamos enxergar todos os sinais ao nosso redor, ler cada detalhe e escrever a história que queremos deixar como herança,” confiou então, Maria Fernanda.

O bufê Abrigo, mostrar para o mundo o valor e a importância dessa harmonia

Bufê Abrigo | FOTO: Lucas Rosin

 

Outra obra, desta vez, idealizada por Maria-Fernanda, que começou a “caminhar sozinha”, ainda sob a supervisão dos amigos do Xingu, um buffet sculpture de um jacaré mostrando os vestígios de sua “passagem”, foi produzido usando uma tecelagem de fio de algodão magnífica. Mais do que um móvel, ou um objeto de design, essa composição escultórica, possivelmente utilitária, é para ela uma oportunidade de apresentar o que é mais importante para ela: mostrar para o mundo o valor e importância dessa harmonia.

“Ele foi inspirado na arquitetura das ocas da etnia Mehinaku, que vive no Território Indígena do Xingu. Para eles as ocas são lugar de abrigo e proteção, é nelas que famílias inteiras vivem, protegidas do sol intenso e dos animais predadores. Suas formas arredondadas me lembram um abraço, que foi o que tentei passar com as portas que abrem, arredondando-se nas laterais, sem nunca desaparecerem. As portas me passam a mesma sensação de acolhimento das ocas.”

Bufê Abrigo | FOTO: Lucas Rosin

Maria Fernanda explica: “Uma parede que reflete a passagem do tempo, um tempo que aos poucos lava as camadas do barro e deixa transparecer apenas aquilo que é essencial. Uma mistura de fragilidade e força cuja sensível impermanência deixa os poros abertos, como se nos despíssemos das inúmeras peles que nos são impostas pela sociedade em que vivemos e passássemos não apenas a enxergar o outro, mas também a nos nutrirmos e reaprendermos o que significa viver de verdade.” A passagem do tempo, o tema já estava germinando antes do surgimento da obra que é a matéria deste artigo. Mas falemos ainda um pouco sobre sua maneira de ver as coisas:

“Era preciso buscar o significado de prazer para si próprio explorando o olfato, o tato, a visão, a audição, o paladar e a intuição. Não sei bem como, mas nessa busca fui parar na Floresta Amazônica, no Pantanal, rodeada de verde, dos sons dos pássaros, do cheiro da chuva na mata, das sementes e da arte indígena. Me vi em meio aos sorrisos, às cores e aos sons dos rituais indígenas, encantada pela delicadeza dos seus artesanatos, no significado que existia em cada detalhe e na harmonia e plenitude com que viviam cercados pela natureza. O resultado dessa busca foi um encontro comigo mesma, com a minha essência, com a vontade de mostrar para o mundo o valor e importância dessa harmonia, das peças que resultam dela e das vidas que as criam. O bufê Abrigo nasceu dessa experiência.”

“Passagem”, o nascimento da primeira obra

Passagem | FOTO: Lucas Rosin

Medindo aproximadamente 167cm (L) x 202cm (A) e disposta de maneira que o público da 4ª versão do projeto Circular-Arte na Praça Adolpho Bloch possa circular em torno dela, “Passagem”, tem sua estrutura em madeira jequitibá maciça, esculpida em formas orgânicas, intercalando painéis feitos com uma mistura de barro, numa composição que abre espaço para uma “janela”, onde um punhado de sementes de Tento, conhecidas por Pau Brasil, nos coloca em contato com a essência da vida.

“A arte verdadeira está sempre onde você não espera”, Dubuffet

A obra apresenta uma superfície com asperezas onde o gesto da artista pode ser adivinhado: o material que ela aplica em camadas grossas é amplamente espalhado, retrabalhado, e até esculpido, dando, entre os elementos estruturais em madeira um relevo para a representação, como uma espécie de inventário de texturas. Já não há mais marcos nestes fragmentos, que parecem ter sido trazidos de campos sem limites, de um todo contínuo. Esta obra dá uma visão diferenciada de pedaços de solo, de um caminho, de uma estrada, como peças carregadas de história e memória. Esses pedaços de terra acastanhados parecem conter toda a substância nutritiva do universo, sem recorrer à presença da figura, com ambiguidade entre realidade e abstração. Não se trata então de focar o nosso olhar no que nos escapa?

“Transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem senão a que somos. Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos.”

Fernando Pessoa   

Mas nesta obra, o título justifica-se por causa desta “janela”, desta abertura que ela deixou em sua composição da terra. “Passagem” vem de “passo” (passus em latim). Designa um deslocamento, uma marcha em direção a outro lugar, um passo, um processo de transformação ocorrendo. É aqui que ocorre a mudança, e ela nos faz ver e pensar. Esse é o convite de Maria-Fernanda. Como Deleuze (1925-1995), ela concebe o espaço como um lugar de passagem, como um plano de imanência atravessado pela vida. Nesse trabalho, ela incorpora a lógica da transversalidade para torná-lo dinâmico. A passagem, também como ideia de transformação, de metamorfose, condição de todo o progresso … um título que dificilmente será definido em pormenores.

Sementes de Pau-brasil como ser vivo em potencial

Maria-Fernanda, porém, obstruiu parcialmente a abertura da obra com sementes de Tento, que os Pataxós costumam utilizar. Por causa da sua cor vermelha, costumam as chamar de Pau-brasil, responsável por despertar o interesse dos ditos descobridores do Brasil. Ela completa: “As sementes são símbolo de todas as capacidades e possibilidades, da abundância da vida. Elas alteram em si mesmas o futuro. Imagine em um punhado de sementes quanta vida existe! A ação de semear representa a esperança de um fruto que ainda não colhemos. Cada semente é um ser vivo em potencial, que aguarda apenas o momento de expandir-se. Para gerar vida a semente precisa da terra.”

Passagem | FOTO: Lucas Rosin

Embarque para Citera ou para o Inferno?

Recordemos também a importância, no Ocidente, do vermelho, que foi a primeira cor que o homem dominou, e que se manteve como a cor par excellence, a mais rica do ponto de vista material, social, artístico, onírico e simbólico. Na Antiguidade, o vermelho era o símbolo do poder, da riqueza e da majestade. Na Idade Média, assumiu uma forte dimensão religiosa, evocando tanto o sangue de Cristo quanto as chamas do inferno. Mas é também, no mundo laico, a cor do amor, da glória e da beleza, assim como a do orgulho, da violência e da luxúria. Vanitas vanitatis et omnia vanitas. A escolha dessas sementes vermelhas seria mais uma mensagem de Maria-Fernanda? Esta passagem seria um embarque para Citera ou para o inferno?

Abrace o universo

Esta grande leitora prefere autores desconhecidos, mas mesmo assim ela cita, sem dúvida por acaso, o célebre poeta esotérico português Fernando Pessoa (1888 – 1935), que se definia como uma consciência irrompendo no universo que tenta abraçar. Assim como ele, Maria Fernanda vê a experiência de vida e o mundo como um sonho insondável, como um espaço de criação, uma experiência de mudança e metamorfose. Também não é surpreendente que ela invoque o grande compositor Heitor Villa-Lobos (18887-1959) que viajou pelo Brasil em busca de canções tradicionais e sonoridades amazônicas, e que ficou famoso em todo o mundo por suas “colagens” musicais. No campo das artes plásticas: “Sou apaixonada por Arthur Bispo do Rosário (1911-1989), sua arte e história me emocionam”, conta-nos, falando deste criador de uma mitologia que transformava, com maestria, objetos do cotidiano para registrar a sua “passagem” pela terra. “Gosto também de Carybé (1911-1997), talvez por sua paixão pela cultura afro brasileira e o colorido do Brasil retratado em suas pinturas,” ela acrescenta.

“Não há, nem pode haver, na verdade, barreiras ao mundo encantado das formas; não há filas para se entrar no seu recinto, que não e de ninguém, que é comum a todos os homens indistintamente. Feliz a humanidade quando todos, sem inibições e iniciados, puderem entrar no seu campo mágico! A iniciação está ao alcance de todos, disse o grande crítico de arte Mário Pedrosa. Essa “passagem” é promissora. Nasce uma artista, esperemos que este trabalho seja o primeiro de uma longa série onde ela continuará a abraçar o universo sem ideias preconcebidas.

Maria Fernanda Paes de Barros em frente à obra “Passagem” | FOTO: Lucas Rosin

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