Os universos díspares da Rússia contemporânea pelas lentes de Serguei Maksimishin em “O Último Império”

A exposição “O Último Império – Serguei Maksimishin”, que esteve no Museu Oscar Niemeyer (MON), em Curitiba, entre dezembro de 2018 e março de 2019, entrou recentemente na plataforma Google Arts and Culture.

A mostra traz 65 fotografias da Rússia contemporânea, selecionadas pelo curador Luiz Gustavo Carvalho. Por meio delas mergulhamos no cotidiano de um país marcado pela história política internacional, e é essa imersão que destaca o trabalho do fotógrafo.

É quase possível sentir o aborrecimento que os personagens sentem, em situações nas quais o tédio é muito próximo de ser palpável. E é essa a oposição mais brilhante que o artista nos entrega: o pequeno da existência dentro do país de dimensões continentais que é a Rússia.

Os enquadramentos escolhidos trazem, em sua maioria, o contraste absurdo da vida comum dos retratados, que coexistem com os resquícios de uma Rússia complexa, de passado czarista e soviético.

Cada cena e pessoa retratada parece ter sido diretamente retirada de um filme em algum festival de cinema independente. Ao mesmo tempo, as imagens parecem assumir vida própria com um toque de vida e espontaneidade digno de Cartier Bresson.

As cores registradas por Maksimishin nos lembram as obras de Edward Hopper, os tons saturados de vermelho e azul trazem vivacidade para as fotografias. Já as situações congeladas pelas lentes do fotógrafo se aproximam das narrativas do escritor Nikolai Gogol, referência assumida para Serguei. Assim como Gogol, Maksimishin possui uma obra tão consolidada no realismo que quase dialoga com o surreal.

Até mesmo detalhes técnicos são utilizados como recurso para construir uma narrativa, como por exemplo na obra “Sem título (2000)”, que apresenta diversos arranhões e manchas. O fotógrafo explica que, após presenciar e registrar um bombardeio, tropeçou e caiu, junto com a câmera, na lama. “Na manhã seguinte, levei o filme para o único laboratório fotográfico da cidade [Mozdok], localizado em uma loja de departamentos. Os filmes estavam parcialmente danificados. Na imagem do edifício sendo derrubado, encontrei um rastro de bota. Não retoquei os arranhões, que para mim são parte da obra”, justifica.

A história profissional de Maksimishin explica muito da ousadia que permeia suas obras. Serguei iniciou sua carreira na fotografia entre 1985 e 1987, anos que passou em Cuba, prestando serviço militar ao Exército Soviético. Seu primeiro retratado foi ninguém mais ninguém menos que Fidel Castro.

Seria clichê e injusto definir “O Último Império” apenas como um retrato sensível e objetivo da Rússia contemporânea. A mostra nos leva a refletir a complexidade do grande e do pequeno, do presente e do passado, do atípico e da rotina, e por muito pouco não nos incomoda com a proximidade do real e do imaginário que traça.

 

Acesse a exposição no Google Arts & Culture aqui.

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