Obras ilusionistas de Leandro Erlich circulam CCBBs

Swimming pool, 1999 | FOTO: Guyot/Ortiz

Vai parecer uma reforma completa, mas é bem mais que isso: uma exposição. A partir de 15 de setembro deste ano, um conjunto de 20 obras de grandes proporções vai mexer com a forma como vemos os prédios do Centro Cultural Banco do Brasil: barco e elevador flutuantes, janelas para jardins imaginários e até uma piscina em que o visitante pode entrar de roupa e ficar submerso sem medo de se afogar fazem parte da mostra de um dos nomes mais provocativos e populares da arte contemporânea, o argentino Leandro Erlich.

A exposição que chega ao Brasil tem um nome bastante explícito, “A tensão” (e sonoramente ambíguo: quem não lê pode ouvir “atenção”), revelador de um dos prováveis sentimentos que os visitantes sentirão diante das instalações do artista. Isso porque Erlich trabalha com referências que são, literalmente, “lugares-comuns”, espaços que estamos acostumados a ver no dia a dia, mas deslocados da condição de normalidade. Como afirma o curador da exposição, Marcello Dantas, “a obra de Leandro Erlich é estruturada no mecanismo da dúvida. O que nossos olhos veem está em desacordo com o que nossa mente conhece”, sintetiza.

Leandro Erlich, nascido em 1973 e produzindo suas obras em seus ateliês em Buenos Aires e Montevidéu, está, assim, constantemente rompendo as fronteiras que normalmente acreditamos existir entre a realidade e a ilusão. Em entrevista ao jornal argentino Clarín, o artista explicou seu projeto: “Estou interessado principalmente em transformar elementos que as pessoas acreditam que não podem ser transformados, que não podem ser diferentes. Trata-se de uma utopia de apresentar a possibilidade de transformar o que existe em uma outra coisa, e essa ação nos convida a imaginar a realidade de uma maneira diferente”.

Uma das mais bem sucedidas experiências nesse sentido – que se tornou uma de suas obras mais populares e desconcertantes – é “Swimming Pool” (piscina, em português), que será instalada no pátio do CCBB Belo Horizonte. Atração onde quer que seja exposta, a piscina de Erlich provoca sensações absurdas tanto por quem entra nela – sem se molhar – quanto para quem está do lado de fora: uma camada de água entre um lado e outro cria a ilusão de que as pessoas ao fundo estão de fato mergulhadas numa piscina em que não precisam respirar.

Classroom, 2017 | FOTO: Guyot/Ortiz

Outra obra desconcertante e grande destaque entre as instalações de Erlich presente na exposição de Belo Horizonte é “Classroom”. Nela, quando o visitante adentra na sala, sua imagem é refletida num vidro, como se ele fizesse parte de uma cena diferente. Nessa cena, o visitante se parece com uma espécie de fantasma, como se estivesse numa sala de aula abandonada – as memórias de infância se projetam para um cenário de crise e de abandono.

Em diferentes trabalhos, Erlich recorre à ideia de recorte visual sugerida pelas janelas. Um desses trabalhos, que será exposto no Brasil, se chama, justamente, “Blind Window”. “O que guarda a memória? Nosso cérebro ou nossos olhos?”, perguntou o artista, de forma retórica, durante uma entrevista no Japão. “Gosto da ideia de pensar que o olho, ou o vidro, também são capazes de guardar histórias”. É justamente essa a proposta de Erlich ao fixar paisagens, situações imaginárias e inusitadas, em objetos arquitetônicos ou decorativos, como uma janela ou um falso espelho num elevador.

Erlich participou de algumas grandes exposições no Brasil. Em 1997, integrou o rol de artistas que estiveram na 1ª Bienal do Mercosul e, em 2004, figurou entre os nomes da 26a Bienal de São Paulo. Em 2001, representou a Argentina na 49ª Bienal de Veneza, onde voltou a estar em 2005. São, também, dezenas as grandes exposições coletivas em que Erlich esteve, assim como são dezenas as exposições individuais de Erlich pelo mundo: New York, Barcelona, Londres, Seul, Paris, Buenos Aires: onde quer que seja exposta, a arte de Leandro Erlich provoca o público.

Num texto de 2021 publicado em seu blog, o especialista em arte latino-americana Hans Herzog associou o trabalho de Erlich ao trompe-l’oeils de Escher, por provocarem espanto e surpresa e por serem “levemente sinistros”. E cita o crítico Rodrigo Alonso, que num texto de 2014 defendeu que a obra do argentino rompe com os automatismos do nosso mundo, ao “desafiar a gravidade, inverter os espaços, enganar o olhar”, entre outras estratégias de construção de verossimilhança e de potencialização do insólito.

Ao deslocar o conhecimento prévio do espectador daquilo que poderíamos chamar, agora recorrendo a um lugar-comum da linguagem, de “zona de conforto”, Erlich coloca o expectador necessariamente em confronto com o que dizia sua experiência sobre dada situação, exigindo “um engajamento e uma atenção participativa para desvendar cada obra”, explica o curador Marcello Dantas: “cada situação só se materializa com a presença do público, em que a obra abre um espaço de acontecimento. O título da exposição já conclama essa dúvida: pede-se atenção ao mesmo tempo em que carrega em si o mistério provocado pela tensão que existe no espaço vazio antes da participação”, completa.

Lost Garden, 2009 | FOTO: Guyot/Ortiz

As ilusões óticas e a subversão da realidade propostas por Erlich fazem dele um artista, simultaneamente, conceitual e tremendamente popular. A exposição “Ver e crer”, no Museu Mori de Tokio, aberta no fim de 2017, atraiu 400 mil espectadores pagantes nos três primeiros meses, superando a bilheteria alcançada pelo japonês Takashi Murakami (315 mil ingressos) e se aproximando do resultado obtido pelo Ai Weiwei (460 mil) no mesmo período. À época, o museu destacou o interesse que a obra do argentino provocava entre os jovens e adolescentes, que representavam cerca de metade dos visitantes.

Além de provocar o olhar destes visitantes em particular, as obras de Erlich convidavam à interação nas redes sociais: o Instagram ficou cheio de fotos de jovens integrados ao espaço expositivo e esse foi um dos motores, também, do sucesso de público. Em 2018, ao transformar o teto de uma enorme loja de departamentos de Paris em céu artificial, foi chamado pela imprensa, positivamente, de “manipulador do real” e de “o mágico da arte”. A reputação se manteve quando expôs no Museu de Arte Latino- americana de Buenos Aires (Malba), em 2015, fazendo “desaparecer” um pedaço de um grande obelisco da capital argentina enquanto uma réplica da ponta do monumento era exibida na porta do museu.

Montar uma exposição de Leandro Erlich não é tarefa simples. Ao trabalhar com peças grandes e instalações que exigem adaptações específicas para os espaços expositivos, e que rompem com a lógica cotidiana da arquitetura e do urbanismo, parte das as obras de Erlich exige uma montagem prévia, que está sendo feita em galpões no próprio Brasil, antes de serem levadas ao CCBB.

“Vamos proporcionar ao nosso público a oportunidade de viver uma experiência cultural única, com todo o cuidado e a segurança que o momento requer. Nosso espaço foi adaptado aos protocolos sanitários, e construímos novas alternativas para continuarmos a oferecer às pessoas a oportunidade de visitar, gratuitamente, acervos e exposições nacionais e internacionais,” afirma a Gerente Geral do Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte, Gislane Tanaka.

Leandro Erlich | FOTO: Guyot/Ortiz

Desse modo, a tensão provocada pelo artista é resultado não apenas de uma percepção aguda das possibilidades visuais de uma dada situação, mas também de uma preocupação com o próprio espaço que abriga as mostras, que se tornam, desse modo, únicas. A percepção da piscina em Belo Horizonte, num prédio histórico, será bastante diferente da provocada pela instalação no Malba, de Buenos Aires, por exemplo, um prédio bem mais moderno.

Justamente por dialogar com o entorno e com as experiências prévias dos visitantes, o trabalho de Leandro Erlich expressa como poucos nossa época. Como explica Marcello Dantas, essa é também uma sensação progressiva: “A cada etapa dessa viagem pela exposição, nos damos conta da relação entre expectativa, tensão e atenção que traduzem o espírito de um tempo de incertezas”.

“A exposição propõe despertar diferentes olhares do público sobre uma determinada realidade. Provocativo e ousado, o artista busca transpor o que se espera”, afirma Júlio Vezzaro, diretor comercial e de produtos da BB DTVM, patrocinadora da exposição (clique aqui para download da imagem do executivo). “Assim como Leandro Erlich, a BB DTVM acredita na transformação e sabemos que as mudanças acontecem quando nos desfiamos. Somos uma empresa inovadora que apoia a cultura, o esporte e contribui para construir uma sociedade ainda mais sustentável”, finaliza.

A mostra vai fazer o circuito Centro Cultural Banco do Brasil, passando por Belo Horizonte (de 15.09 a 22.11.2021), Rio de Janeiro (de 05.01.2022 a 07.03.2022) e São Paulo (13.04.2022 a 20.06.2022).

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