A Gallerie dell’Accademia, em Veneza, transforma uma obra-prima do século XV em canteiro de obras transparente, literalmente
Há algo de teatral em restaurar uma pintura sacra do Quattrocento com o público como plateia. Foi exatamente o que decidiu a Gallerie dell’Accademia, em Veneza, ao anunciar a intervenção na San Giobbe Altarpiece, de Giovanni Bellini. Durante dois anos, a obra-prima executada entre 1478 e o final da década de 1480 ficará protegida por uma estrutura de vidro, transformando o museu em um “canteiro de obras aberto ao público”, uma oportunidade rara de acompanhar cada etapa da conservação, em tempo real, como quem assiste a uma encenação do próprio ofício da restauração.
A escolha da peça não é casual. A Madona entronizada com o Menino, anjos músicos e santos, título extenso para uma pintura que, segundo a própria instituição, representa “um ponto de virada decisivo na evolução do retábulo veneziano”, reúne os desafios mais delicados da conservação atual. A madeira sofre com fissuras provocadas por séculos de oscilações térmicas, e os pigmentos originais mudaram de cor com o tempo. A obra já havia sido removida no século XIX da igreja de São Jó, onde permaneceu por trezentos anos em condições de umidade crítica, mas as soluções adotadas em restaurações passadas acabaram gerando novas tensões na estrutura.
Agora, com um orçamento de €500 mil, o projeto liderado pela Gallerie dell’Accademia em parceria com a fundação Venetian Heritage propõe uma revisão radical dos métodos anteriores. “A restauração, geralmente realizada em espaços separados e privados, revela aqui sua complexidade e delicadeza, tornando-se parte integrante da experiência do visitante”, afirmou o museu em comunicado. Mais do que uma obra atrás do vidro, o que se anuncia é um convite a testemunhar o tempo lento da conservação e, com ele, as camadas de história que insistem em pedir novo cuidado.


