David e Shoshanna Wingate passaram 70 anos reunindo obras-primas. Agora, Giacometti, Rothko e uma rara composição de nove figuras vão a leilão pela Sotheby’s. Mas há algo que os catálogos não contam
Mais de sete décadas de um olhar que começou em selos e chegou aos picos do modernismo. A coleção Wingate, formada por David e Shoshanna desde os anos 1950, enfim vai a leilão. E o martelo da Sotheby’s, em Nova York e Londres, promete tremer nos dias 19 e 20 de maio. São mais de 50 obras entre modernas e contemporâneas – de Alberto Giacometti a Wassily Kandinsky, passando por Roy Lichtenstein, Mark Rothko e a construtivista russa Varvara Stepanova. O lance total estimado? Entre US$ 37 milhões e US$ 53 milhões. Mas o centro das atenções, sozinho, responde por quase metade desse valor.
Trata-se de La Clairière (Composition avec neuf figures), de Giacometti: concebida em 1950, fundida em 1960, avaliada entre US$ 18 mi e US$ 25 mi. A obra nasceu do acaso. O escultor suíço trabalhava em figuras isoladas quando, ao limpar a mesa, espalhou algumas pelo chão. A cena o paralisou. “Estas são as primeiras esculturas como eu queria”, escreveu ao marchand Pierre Matisse. Outros exemplares da mesma edição estão no Kunstmuseum Winterthur (Suíça) e na Fondation Maeght (França). Ao lado, Buste d’homme (New York I), do mesmo artista, entra na faixa de US$ 2 mi a US$ 3 mi.
E tem mais: um Rothko luminoso sobre papel, montado em tela, com suas características faixas retangulares difusas. Untitled (c. 1959) foi comprado pelos Wingate ainda em 1976, na Sotheby’s Parke Bernet em Londres, e viajou por instituições como o Guggenheim e o SFMOMA. O palpite para ele: US$ 5 mi a US$ 7 mi.
David Wingate, israelense de nascimento e presidente da Hi-Shear Industries (aeroespacial), nunca quis guardar tesouro em cofre. “Tudo o que comprávamos era para ser apreciado”, dizia. Shoshanna, escultora e nova-iorquina, morreu aos 104 anos em janeiro passado. O filho do casal, Ealan Wingate, entrou para a história como o primeiro diretor da lendária galeria de Ileana Sonnabend (SoHo, 1971) e, depois, durante 35 anos, como diretor da Gagosian. Foi Ealan quem empurrou os pais para o Pop. No início, David resistia. Achava Andy Warhol “bobo, sem graça”. Até que, certo dia em 1965, surgiu no escritório com um cesto de lixo em forma de lata de sopa Campbell’s. “Foi o jeito dele de dizer que estava pronto para a Pop Art”, lembra o filho.
Em Old Westbury, Nova York, as esculturas de Giacometti e Picasso dividiam janelões com vista para um bosque. Os Tiffany conviviam com Morris Louis e Kenneth Noland. “A coleção era uma espécie de comunidade de coisas belas”, resume Ealan. “Papai trazia as novas aquisições para casa, escolhia o lugar, pendurava, visitava. O velho e o novo na mesma parede: Abraham Rattner ao lado de Ed Ruscha.”
O leilão acontece em maio. Mas a pergunta que fica – e que os Wingate, à sua maneira, já responderam – é outra: quantos colecionadores de verdade ainda compram para pendurar, e não para empilhar em zona franca?


