O pavilhão da África do Sul na Bienal de Veneza seguirá vazio

Elegy, da artista Gabrielle Goliath

Após veto oficial, projeto de Gabrielle Goliath ressurge fora do circuito institucional e expõe as fissuras políticas por trás da maior mostra de arte do mundo

O pavilhão da África do Sul na Bienal de Veneza seguirá vazio. Mas a obra que deveria ocupá-lo — e foi abruptamente cancelada em janeiro pelo ministro da Cultura do país — acaba de ganhar um novo endereço. A partir de 4 de maio, a videoinstalação Elegy, da artista Gabrielle Goliath, será exibida por três meses na Chiesa di Sant’Antonin, no distrito de Castello, a poucos passos do coração da mostra. A decisão do governo sul-africano de barrar o projeto por seu suposto caráter “altamente divisivo” — em referência direta à homenagem à poeta palestina Hiba Abu Nada, morta em Gaza em 2023 — acabou, ironicamente, amplificando a urgência política do trabalho.

Concebida originalmente em 2015 como um ritual de luto por mulheres vítimas de violência sexual e racial, Elegy não se apoia em palavras: a obra se desenrola em telas onde sete cantoras de formação lírica emergem de um fundo negro, sustentando uma única nota aguda pelo maior tempo possível, em uma sucessão de respirações e silêncios. Em Veneza, a peça também incorpora a memória de duas mulheres nama assassinadas por forças coloniais alemãs no início do século XX e, centralmente, a poeta palestina Hiba Abu Nada — cujo poema Concedo-te Refúgio, escrito dez dias antes de sua morte, ecoa em um ghazal que acompanha a instalação. A guerra em Gaza não é tematizada de forma explícita dentro do vídeo; mas a declaração curatorial da artista menciona “um espectro de genocídio” e fala das “milhares de mulheres, crianças e civis mortos em Gaza”. Foi o suficiente para que o ministro da Cultura, Gayton McKenzie — uma figura ligada à direita política e que já declarou publicamente não ver “nenhum genocídio” no território palestino — vetasse a participação.

Goliath, que viu sua tentativa de reverter a decisão na Justiça ser negada em plena véspera do prazo final da Bienal, afirmou que o cancelamento abriu “um precedente perigoso”. “Não foi a especificidade da linguagem que tornou o trabalho ‘divisivo e polarizador’, mas o fato de ele se voltar ao luto por vidas palestinas”, disse a artista. A exibição na igreja veneziana, realizada em parceria com o centro londrino Ibraaz, recoloca a obra em circulação num momento em que a própria Bienal atravessa um ano de transição: a curadora-geral Koyo Kouoh, primeira mulher africana a assumir o posto, faleceu em maio do ano passado, deixando sua curadoria — agora concretizada por uma equipe de colaboradores — como um gesto póstumo de abertura para outras vozes.

Enquanto a África do Sul optou por deixar sua representação oficial em silêncio, o gesto de Goliath transforma o que seria um vazio burocrático em afirmação. Elegy será vista, mesmo fora do mapa oficial da Bienal. E sua potência talvez esteja exatamente nessa capacidade de se mover entre o ritual, a memória e a recusa em adequar a dor aos protocolos da diplomacia cultural.

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