O Ovo e a Galinha: “a ideia de desejo não é um privilégio humano, opera também entre os objetos”

Anna Bella Geiger, Lunar I, 1973

A partir do conto de Clarice Lispector, o curador Ulisses Carrilho reuniu obras históricas de Anna Bella Geiger, Claudia Andujar, Cildo Meireles, Ivens Machado, Leticia Parente, Rubens Gerchman e Waltercio Caldas, que dialogam com trabalhos recentes dos artistas Claudio Tobinaga, Gabriela Noujaim, Jeane Terra, Jimson Vilela, Leandra Espírito Santo, Roberta Carvalho e Ursula Tautz. A exposição abriu as comemorações do centenário de Clarisse Lispector (1920-1977).

O curador partiu da metafísica do conto “O Ovo e a Galinha” (1964), de Clarice Lispector, para “investigar uma hipótese: a ideia de desejo não é um privilégio humano, opera também entre os objetos”. “Como num duplo fantasmático, trabalhos apresentam-se aos pares. Reflexos e distorções sublinham semelhanças num regime de coincidências, concomitâncias”, comenta Ulisses Carrilho.

O ovo e a galinha fica em cartaz até 14 de março na Galeria Simone Cadinelli, no Rio de Janeiro.

o ovo e a galinha

Olho o ovo com um só olhar. Imediatamente percebo que não se pode estar vendo um ovo. Ver o ovo nunca se mantém no presente: mal vejo um ovo e já se torna ter visto o ovo há três milênios. – No próprio instante de se ver o ovo ele é a lembrança de um ovo. – Só vê o ovo quem já o tiver visto. – Ao ver o ovo é tarde demais: ovo visto, ovo perdido. – Ver o ovo é a promessa de um dia chegar a ver o ovo. Ver o ovo é impossível: o ovo é supervisível como há sons supersônicos. Ninguém é capaz de ver o ovo. O cão vê o ovo? Só as máquinas veem o ovo. O guindaste vê o ovo. – Quando eu era antiga um ovo pousou no meu ombro. – O amor pelo ovo também não se sente. O amor pelo ovo é supersensível.

(LISPECTOR, 1964, p. 55)

POR ULISSES CARRILHO

Em 1975, houve o primeiro Congresso Internacional de Bruxaria, em Bogotá, na Colômbia. Nesse congresso houve psicanalistas, antropólogos e diversos estudiosos do invisível. A autora ucraniana Clarice Lispector (1920-1977) foi convidada para a mesa “Literatura e Magia”. A escritora preparou para esta palestra o texto “O Ovo e a Galinha”, um conto.

Esta mostra parte da metafísica no texto para investigar uma hipótese: a ideia de desejo não é um privilégio humano, opera também entre os objetos. Como num duplo fantasmático, trabalhos apresentam-se aos pares. Reflexos e distorções sublinham semelhanças num regime de coincidências, concomitâncias. Atrações insuspeitas. As imagens da história da arte não operam em regime de influência, são consideradas sobretudo imagens espectrais, como assombrações: ovo visto, ovo perdido.

Na prosa de Lispector, imagem, real, sensível e, sobretudo, o sentido se fazem distantes: todos escapam. O Ovo e a Galinha empresta seu título a esta mostra menos pela sua qualidade narrativa, por como o leitor é conduzido. Mas por seus sobressaltos, suas qualidades metafóricas, seu desassossego. A maneira como a autora percebe ovo e galinha convida o leitor a questionar a separação entre um e outro, como facilmente divisíveis. Como estratégia para exibir os trabalhos, os diálogos aqui apresentados buscam iluminar aquilo que os objetos partilham, em vez de preocupação com singularidades ou ineditismos.

Vem da mesa da cozinha da autora este modo de pensar o ovo. Ao deparar-se com uma obra é preciso olhá-la com atenção superficial para não quebrá-la. É preciso tomar o cuidado de não entendê-la. “Sendo impossível realmente compreender do ovo, sei que se eu entendê-lo é porque estou errado de alguma forma. Entender é a prova do erro”.

 

OBRAS/ARTISTAS

Logo à entrada, no espaço térreo da galeria, duas pinturas se complementam e se refletem, em uma explosão de cores: a grande instalação pictórica “Banzai” (2019), de Claudio Tobinaga (1982), feita no local, em que os elementos geométricos da tela original de 2m x 1,5m se expandem para a parede e para o chão da galeria. Colocada em frente, está a icônica “Sentinela” (1980), de Rubens Gerchman (1942-2008), em tinta metalizada sobre ferro. As duas pinturas têm em comum, além das cores vibrantes, geometria e superposições, as referências militares. Claudio Tobinaga mescla paisagem urbana e ancestralidade nipônica, navios da Segunda Guerra, e figuras abrasileiradas de mangás, “como o bairro japonês da Liberdade, em São Paulo”, diz Ulisses Carrilho.

Obra de Claudio Tobinaga e Rubens Gerchman ao fundo. Foto de Alexandre Brum/brumfotos.com

As serigrafias “Corpos, presente 2016” (2019), “Vale Sagrado” (2019) e “Corpos Tensionados 01” (2019), de Gabriela Noujaim (1983), que entre outros aspectos discutem sua ancestralidade indígena, apagamentos de memória e questões em torno da mulher, incluindo a violência, conversam com a gravura “Série Lunar I” (anos 1970), de Anna Bella Geiger (1933), que integra sua célebre pesquisa com imagens da NASA. Na exposição, esta gravura também reverbera a frase de Clarice Lispector: “A lua é habitada por ovos”. O estar dentro e fora – no espaço sideral – também é discutido na escultura “Superfície Circular” (2019), de Gabriela Noujaim, em que o gargalo se volta para dentro da garrafa de vidro. No início da escada que leva ao segundo andar da galeria estará um dos vídeos seminais de Anna Bella Geiger, “Passagens II” (1974), em que a artista sobe uma escada, infindavelmente. No alto da escada da galeria será projetado o vídeo “Obstáculos e medidas” (1975), 2’05”, de Ivens Machado (1942-2015), em que o artista desenha uma escada.

Gabriela Noujaim, Superfície circular, 2019

 

Ivens Machado, Sem título, 2005

Jeane Terra, que tem uma pesquisa voltada para a memória, e abrange escombros retirados de determinados locais, criou a escultura “O Voyeur do Cais” (2019) a partir de um pedaço de uma parede recolhido durante a desapropriação do Morro da Previdência, no processo de reurbanização da região portuária do Rio de Janeiro. No escombro, a artista escavou o mapa de onde foi retirado, e recobriu em ouro o que permaneceu intacto no Morro da Previdência. O trabalho discute a ocupação urbana e a história que vai sendo apagada, e se aproxima da escultura “Sem título” (2005), em rede, cordas, gesso e aros de ferro, de Ivens Machado, de sua série de trabalhos com materiais extraídos da construção civil. Na pintura “O Salto” (2017), que integra a coleção do Museu de Arte do Rio (MAR), Jeane Terra incorpora a histórica performance “Leap into the Void” (“Salto no vazio”,1960), de Yves Klein (1928-1962). A obra foi a primeira da artista em que usa a “pintura seca”, com a “pele de tinta” que desenvolveu, feita em vários tons, que depois é recortada em pequenos quadrados e aplicada sobre uma tela demarcada como um bastidor de bordado em ponto em cruz, que para a artista “é um pixel analógico”. O gestual da pintura está presente na construção da pele de tinta, e é desconstruído, ao ser recortado em quadrados.

Jeane Terra, O Salto, 2017

A questão da fita de Moebius também está na obra “Infiltração II (2015), em papel e tecido, de Jimson Vilela (1987), um livro que cria uma grande curva e se acaba em si mesmo, que se relaciona com o objeto “Como imprimir sombras” (2012), de Waltercio Caldas (1946), um livro de acrílico transparente onde a frase-título está gravada e produz uma sombra. Nos dois livros, não há texto escrito, como um “apagamento”. “Espécie de ovo a ser quebrado”, observa Ulisses Carrilho. De Jimson Vilela também está a obra “Falsa Aparência” (2013), impressão jato de tinta sobre papel algodão.

Waltercio Caldas, Decanter, 2019

A instalação “Série Gestos” (“OK”), 2019, de Leandra Espírito Santo (1983), composta por dez peças moldadas em resina transparente a partir das mãos da artista fazendo o gesto afirmativo, será disposta na parede, ocupando três metros de extensão. Ela dialoga com a escultura “Decanter” (2019), de Waltercio Caldas, em que a palavra “figura” está inscrita em um objeto de vidro contendo água. No vídeo “Making off” (2018) – https://vimeo.com/310986930 – Leandra Espírito Santo fez diversas máscaras a partir de moldes do próprio rosto, cada uma com uma expressão diferente. “A ideia é tratar o próprio rosto e suas expressões como máscaras. O vídeo vai mostrando um momento em que vou trocando essas máscaras e me preparando para colocar outras”, diz a artista. O trabalho faz par com o vídeo histórico “Preparação I” (1975), de Letícia Parente (1930-1991), em que a artista desenha seus olhos, boca e nariz em um papel colocado sobre seu rosto. “São dois vídeos de afirmação da subjetiva feminina, a mulher lidando com seu duplo, a imagem como fantasma”, comenta o curador. O link do vídeo é https://vimeo.com/119148500.

Roberta Carvalho – ILHA, 2019 – fotografia em realidade aumentada

Os povos da Amazônia e as questões identitárias são os elementos comuns aos trabalhos da artista Roberta Carvalho (1980) e de Claudia Andujar (1931).  Na obra “Ilha” (2019), de Roberta Carvalho, em pigmento mineral sobre papel de algodão, o público poderá ver, com auxílio do celular, a intervenção feita pela artista em Realidade Aumentada. De Claudia Andujar estarão duas fotografias:  “Floresta Amazônica, Pará” (série “Sonho Yanomami”), de 1971, e “Desabamento do céu / fim do mundo” (série “Sonhos Yanomami”), de 1976.

VITRINE DA GALERIA, 24 HORAS POR DIA

Na vitrine da galeria, poderá ser vista dia e noite a videoinstalação “Sobre saudades (“Sem lembranças”) para televisores” ou “Saudações a Nam June Paik” (2014-2016), de Ursula Tautz (1968), que reúne vários monitores antigos de televisão. A artista, que tem uma pesquisa sobre sinos, fez a instalação sonora “Chegamos na hora certa” (2019), em que trocou o som da campainha da galeria, de modo a que o visitante ouvirá sons de sinos, ao invés do toque tradicional. A obra se aproxima do trabalho “Mebs/Caraxia” (1970/1971), de Cildo Meirelles (1948), um disco compacto em vinil. A capa do disco será exibida no térreo da galeria, e no segundo andar será ouvido seu áudio, que remete ao espaço sideral. Também no segundo andar estará de Ursula Tautz o vídeo “22.9053° S, 43.2340° W; 22.981043º S, 43.194080º W; 22.58551º S, 43.12408º W” (2016), em que se vê um fantasmagórico cobertor dourado esvoaçando no espaço, e “nos qui nos Credimus uiuos esse?” (2008), a maquete de uma intervenção não realizada em que uma peça de madeira branca de 25 metros de extensão atravessaria o portão de Brandemburgo, em Berlim, coberta por uma monotipia em carvão com imagens de corpos. O curador observa que também Cildo Meireles em sua obra “Arte Física: Cordões/30 Km De Linha Estendidos” (1969) imaginou uma intervenção geográfica nunca realizada.

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