O boletim da juventude – relato de uma observação

Foto: Pedro Victor Brandão

“Se eu tirar uma foto sua, você não é mais a mesma pessoa.”

Fala da personagem Claire, de Isabelle Huppert em A câmara de Claire (Hong Sang-soo, 2017)

Recebi o convite para a performance cênica de Daniel Jablonski na quarta-feira, dia 27 de junho de 2018. Minha amiga, esposa e parceira de trabalho dele, Camila Goulart, foi quem me chamou. Me animei com a coincidência de que Daniel havia convidado outro amigo para colaborar com o projeto, Gustavo Colombini, cujo trabalho como dramaturgo acompanho entusiasmada há alguns anos.

A proposta era simples: reencenar no Ateliê 397, espaço cultural independente em São Paulo, uma conversa travada entre cinco jovens amigos quase dez anos antes, numa madrugada de 2009. A performance aconteceria num espaço marcado ainda pela presença da reprodução da planta-baixa, apresentada em escala real, do diminuto ateliê de artista no Rio de Janeiro onde ocorreu o encontro original. Este também havia sido proposto – e gravado – à época por Daniel, o que resultou na publicação, em 2014, do livro-obra O boletim da juventude, basicamente a transcrição das falas com tradução dos trechos que ocorreram em inglês. O livro conta ainda com algumas fotos dos participantes tiradas durante a conversa e um prefácio contando das expectativas de cada um para o futuro, que tomei a liberdade de não ler para não influenciar este relato.

Faz tempo que venho pensando sobre essa coisa das conversas: sobre o que era preciso para que elas passassem da vida à literatura e, mais ainda, ao cinema, essa vida-literatura amplificada, onde qualquer excesso pode soar piegas. Como se o arrebatamento comprometesse o sujeito moderno cindido, recompondo-lhe os cacos em um mosaico de mau gosto.

Pensava em Paulo César Saraceni, meu objeto de estudo no doutorado, e em seus diálogos inverossímeis, que tantas vezes foram apontados como o ponto fraco de seus filmes. Apesar de duras, essas conversas, aparecem em suspensão. Me refiro sobretudo às conversas entre amantes, já que as conversas entre amigos são mais calorosas e erráticas. As conversas entre amantes – de uma autoconsciência atroz dos limites dentro daquilo que romanticamente julgamos se tratar da relação mais íntima – são frias, esburacadas, tão arredias quanto suplicantes. Evidenciam o desejo de sermos salvos e a solenidade com que tratamos disso – sem tratar – com aqueles que amamos.

Foi com esse monte de coisas na cabeça que fui assistir à performance cênica conduzida por Gustavo no dia seguinte, quinta-feira, 28 de julho. Ao chegar no Ateliê 397, percebi que de fato havia uma planta baixa desenhada no chão, com cadeiras dispostas dentro e fora desse perímetro, além de comes e bebes, várias luminárias com luz indireta e uma pilha de O boletim da juventude. A plateia podia escolher entre assistir à cena livremente ou pegar um dos livros para acompanhar. A leitura começou às 19h34 e terminou às 22h15.

Apesar de ser uma transcrição de uma conversa real que se passou entre amigos, no início O boletim da juventude tem essa solenidade de conversa entre amantes. Ou melhor: de conversa de potenciais amantes, a famosa entrevista, quase de emprego, de um primeiro encontro. Aos poucos, a longa duração e a crescente presença do álcool vão fazendo com que os integrantes deixem escapar alfinetadas e discordâncias explícitas e se sintam no direito de monologar sobre desejos ainda obscuros para si na condução da própria vida. E o que era conversa de primeiro encontro, aos poucos se torna conversa de velhos amigos ou ex-amantes, que não deixam de ser velhos amigos.

De modo que, para ser justo com a conversa de 2009 – já que fidelidade não é o que importa neste trabalho –, era preciso que os integrantes da nova conversa também fossem amigos de longa data. A tarefa de reunir as pessoas ficou a cargo de Gustavo, que chamou seus companheiros artistas e pesquisadores do Geple (Grupo de Estudos Prático em Linguagem Experimental): Barbara Mastrobuono, Leonardo Araújo e Vinicius Garcia Pires. E trocou os dois integrantes que não puderam comparecer, João Turchi e Paloma Durante, pelos também amigos: o dramaturgo André Felipe e a artista Flora Leite. Coube a cada um dos escolhidos ser a pessoa 1, 2, 3, 4 ou 5, que cederia ao personagem seu nome próprio. A concordância de gênero foi posta de lado. Gustavo entregou-lhes uma versão do texto sem os trechos em inglês e com algumas palavras trocadas, acredito que em função da sonoridade (quem escolheu acompanhar com O boletim da juventude em mãos pôde observar essas diferenças sutis) e esteve em cena para orientar a leitura, comentando passagens e propondo questões.

A velha conversa passava a ser uma conversa desse novo grupo. Mas o que na primeira muitas vezes era uma mescla de petulância juvenil e espontaneidade, agora se transformava em estranhamento linguístico – “Por que eles tão falando inglês?” –, em um problema de identificação – “Esses caras não falam palavrão, nunca poderiam ser meus amigos!” – e em inquietações de ordem crítica: “Isto é dramaturgia?”, “É arte?”, “É uma conversa que de fato aconteceu?”, “Ou ela foi editada dessa forma depois da transcrição?”

Sem consenso, essas perguntas foram em parte respondidas com a atuação e com os comentários laterais ao texto que cada participante da performance fez. Alguns, como Leonardo Araújo, foram radicais no partido da interpretação naturalista e acrescentaram às falas palavras e trechos inteiros, às vezes até contradizendo o texto original, tudo para aproximar a dicção do personagem de sua própria. Outros, como André Felipe, deliciosamente brechtianos, viveram e ao mesmo tempo tiveram o distanciamento crítico necessário para se analisar em cena.

De todo modo, a decisão de transpor a conversa para outras bocas deixou evidente algumas diferenças entre o grupo de 2009 e o de 2018. Diferenças regionais, o primeiro grupo vivia parte no Rio, parte em Paris; o segundo, em São Paulo; diferenças geracionais, em 2009, os integrantes da conversa estavam na faixa dos vinte, os de hoje estão na faixa dos trinta; e, sobretudo, diferenças de classe. Os integrantes do primeiro grupo parecem ser jovens privilegiados, que cresceram em contato direto com o cânone das artes e das ciências humanas europeias, mas muito afastados dos dilemas que desorientam a maior parte dos jovens brasileiros. Dilemas estes partilhados pela maioria dos integrantes do segundo grupo que, de classe média e mais velhos, procura conciliar subsistência e vocação.

Na primeira conversa, o que estava em jogo não era só a carreira que cada um queria para si, mas a recepção que essa carreira teria. Antes mesmo de fazer qualquer trabalho, já aparecia a preocupação de como queriam ser vistos por esse trabalho. E isso percorre todo o texto: do início em que se fala sobre a possibilidade de entrevistar alguém comum, destituído de interesse – no caso, o próprio Daniel – até a ideia de se fingir de gênio “só para ver o que acontece”.

Na segunda conversa, o que ocorre é uma reconstituição autoconsciente, uma espécie de psicodrama de fatos não traumáticos, o que fez com que, além dos comentários livres dos integrantes da apresentação, a plateia tenha se sentido à vontade para participar, comentar. Aos poucos a discussão ganhou ares de grupo de estudo, mas, claro, muito vivaz, inclusive porque a essa altura as pessoas já estavam um pouco bêbadas.

Ao todo o trabalho pode ser dividido em quatro momentos: 1. Ontem I: a conversa de 2009 gravada; 2. Ontem II: a publicação do livro O boletim da juventude, em 2014; 3. Entre ontem I-II e hoje: a decisão de, por meio do livro de 2014, voltar à conversa de 2009 para criar 4. hoje: a performance cênica de 2018.

Do primeiro ao quarto momento, muitas coisas se repetem. Aqui, me interessa observar o que se mantém dos momentos de 2 a 4, já que eles têm o mesmo propósito de voltar à memória de 2009. O nome da apresentação é igual ao livro: O boletim da juventude. Juventude, a julgar pela própria, cada um acha que sabe do que se trata. Já boletim, pode ter vários sentidos. Conforme o dicionário analógico, pode ser vinculado à notícia, correspondência, publicidade. Pelo dicionário padrão, é algo que torna público, de forma oficiosa, um fato, seja as notas que um aluno teve em um semestre, boletim escolar, seja um crime, boletim de ocorrência. E, realmente, o gesto de tornar o privado público, o cotidiano arte, é semelhante no livro e na performance. Em ambos, permanecem a metalinguagem e o autocentramento de grupo que indica privilégio de classe, mas também a necessidade neurótico-obsessiva do artista expor os próprios limites e um desejo de parar o tempo para refletir sobre ele.

Mas, como já dizia Heráclito, nada do que se repete se repete igual, algumas coisas mudam de 2014 a 2018. Se, em 2014, foi o próprio Daniel quem transcreveu, editou e publicou a conversa em livro, em 2018, ele demonstra uma vontade de ter menos controle no processo ao se colocar deliberadamente na posição de mediador e convidar outras pessoas para assumir seu lugar: Gustavo para conduzir a apresentação, os cinco atores ou não atores para a leitura, e eu mesma para escrever este relato. Os novos elementos não conseguem tratar a memória com a mesma solenidade com que o artista a vinha tratando. Uma vez pública, a imagem que o artista tem da própria juventude não pode coincidir com a que os outros têm dele e de seu passado. Cada um tem a imagem do presente e do passado de si e do outro que sua trajetória lhe permite ter. Daí os ressentimentos de classe, que eventualmente geram falas mordazes lá e cá.

Tanto no livro de 2014 quanto na apresentação de 2018, a conversa de 2009 é parte que vale pelo todo da juventude, como um conjunto de fotografias do álbum de família encarna a nossa infância, ou grande parte da memória visual que temos dela. É difícil separar o que é a arte e o que é a vida de Daniel. E nosso interesse, ainda que devidamente disfarçado, é sempre maior pela vida. Seguindo o texto da conversa, queremos saber de seus casos amorosos, do passado de seus avós e de seu pai, que condensa tragédias da história europeia e brasileira no século 20, da sua trajetória acadêmica na filosofia, por que foi e por que voltou da França, com quem morou, que livros são estes que acumulou pelo caminho.

Mas O boletim da juventude não é uma performance de ou sobre Daniel. Assim como uma foto que nos permite ver uma praia não é de ou sobre essa praia, mas um momento da praia congelado pela câmera e deslocado para uma superfície plana, a performance é uma crítica da representação, sendo o máximo da representação: um teatro que encarna um debate sobre o que é teatro. Como disse a personagem de Isabelle Huppert no filme A câmera de Claire de Hang Sang-soo: “Eu fotografo porque a única maneira de mudar as coisas é olhando para elas, lentamente”. Com essa performance, Daniel paga o preço de ser fetichista para se dar não uma, mas duas vezes – e na segunda conta com a ajuda de um coro grego – essa chance.

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