No Sesc Pinheiros, Delírio Tropical reúne 130 artistas para construir um panorama dos muitos Brasis contemporâneos

Kuenan Mayu, Pu tchi da serie Me tacu

Exposição apresenta cerca de 280 obras e atravessa fotografia, pintura, vídeo, escultura, instalações e imagens da cultura cotidiana para investigar como territórios, identidades e imaginários ajudam a construir diferentes ideias de Brasil

Que imagens usamos para imaginar o Brasil? E quanto daquilo que entendemos como identidade nacional foi construído pelas fotografias, pinturas, filmes, revistas, capas de discos e outras imagens que atravessaram nossa história? Essas questões percorrem Delírio Tropical – Recanto, exposição que ocupa o Sesc Pinheiros com um amplo panorama da produção visual brasileira contemporânea.

Com curadoria de Orlando Maneschy e curadoria adjunta de Keyla Sobral, a mostra reúne cerca de 130 artistas de todas as regiões do país e aproximadamente 280 obras, articulando pintura, fotografia, vídeo, escultura, instalação, objetos e diferentes manifestações da cultura visual. Em vez de procurar uma representação definitiva do Brasil, o projeto coloca em circulação perspectivas distintas sobre seus territórios, identidades e modos de existência.

Entre artistas de diferentes gerações e trajetórias estão Anna Maria Maiolino, Ayrson Heráclito, Cildo Meireles, Claudia Andujar, Dalton Paula, Denilson Baniwa, Hal Wildson, Índigo Braga, Rosângela Rennó e Karim Aïnouz. O encontro entre esses nomes é parte de uma exposição que aproxima diferentes tempos e contextos para observar tanto as permanências quanto as transformações das imagens que construíram — e continuam construindo — o imaginário brasileiro.

Hal Wildson, Re-Utopya, Estrada para Pindorama

Quantas imagens cabem em um país?

Delírio Tropical – Recanto parte da compreensão da imagem como elemento decisivo na maneira como uma sociedade se reconhece e produz suas próprias narrativas.

Nesse percurso, o conceito de imagem ultrapassa as linguagens tradicionalmente associadas às artes visuais. Fotografias e pinturas convivem com vídeos, cartazes, lambes, revistas, objetos e esculturas, aproximando obras de arte de imagens que circulam cotidianamente e também participam da construção de uma ideia de país.

Capas de discos, GIFs, impressos e registros documentais aparecem ao lado da produção artística para evidenciar como diferentes formas de representação interferem na maneira pela qual percebemos o Brasil. Imagens históricas encontram trabalhos contemporâneos e fazem emergir questões que atravessam passado e presente.

Não se trata, entretanto, de construir um inventário capaz de explicar o país. A própria curadoria reconhece lacunas e ausências e evita apresentar o conjunto como representação totalizante. O Brasil que emerge da exposição permanece aberto, fragmentado e sujeito a diferentes interpretações.

Exposição Delírio Tropical Recanto, Sesc Pinheiros. Foto: Nilton Fukuda.

Um Brasil visto a partir dos territórios

A diversidade geográfica ocupa posição central na seleção. Artistas de diferentes regiões observam o país a partir de experiências ligadas aos próprios territórios, colocando em circulação perspectivas culturais e modos de existência que não necessariamente convergem para uma mesma narrativa.

Essa multiplicidade também permite confrontar imagens cristalizadas do Brasil. Para Orlando Maneschy, a exposição procura justamente reunir artistas que utilizam a imagem na construção de discursos a partir de seus territórios e, com isso, romper com olhares estereotipados sobre o país.

O resultado não é um Brasil pacificado. Disputas simbólicas, violências e resistências convivem com afetos, desejos e experiências cotidianas. Diferentes corpos e identidades deixam de ocupar apenas a posição de representação e passam a aparecer como presença ativa na construção dessas narrativas.

Exposição Delírio Tropical Recanto, Sesc Pinheiros. Foto: Nilton Fukuda.

Da fotografia à pintura, do documento ao cotidiano

A amplitude de linguagens é uma das características mais evidentes da exposição. Ao colocar fotografia, vídeo, pintura, escultura e instalação ao lado de cartazes, publicações e documentos, Delírio Tropical – Recanto questiona também os caminhos pelos quais uma imagem adquire significado.

A circulação torna-se tão importante quanto aquilo que está representado. Uma imagem vista em um museu, reproduzida em uma revista, impressa em um cartaz ou encontrada em uma capa de disco participa de contextos diferentes, mas todas podem contribuir para formar referências compartilhadas sobre território, identidade, memória e poder.

As próprias imagens da montagem revelam essa lógica de aproximações. Nas páginas 1 a 4 do material da exposição, fotografias de Adauto Perin mostram pinturas, fotografias, vídeos, esculturas, objetos e elementos gráficos ocupando simultaneamente o espaço, em uma expografia que evita separar rigidamente as linguagens e favorece encontros visuais entre trabalhos de diferentes naturezas.

Exposição Delírio Tropical Recanto, Sesc Pinheiros. Foto: Nilton Fukuda.

Uma exposição construída como percurso

A expografia acompanha essa multiplicidade. O visitante inicia o percurso em um ambiente descrito como quase ritualístico, pensado como uma ruptura com visões cristalizadas, e segue por conjuntos que abordam identidade, memória, mídia, território e poder.

Obras produzidas em diferentes épocas e contextos aparecem lado a lado, criando relações que não dependem necessariamente de proximidade histórica ou formal. É justamente dessas aproximações que surgem outras possibilidades de leitura sobre o país.

Essa estrutura reforça uma das ideias centrais da exposição: compreender o Brasil como construção contínua, e não como imagem pronta. Cada trabalho acrescenta uma perspectiva, mas nenhum deles — nem mesmo o conjunto — pretende encerrar a questão.

Eder Oliveira, Quintino. Foto: Octavio Cardoso.

Do Ceará a São Paulo

Antes de chegar ao Sesc Pinheiros, Delírio Tropical – Recanto foi apresentada originalmente na Pinacoteca do Ceará, como parte do Fotofestival Solar. A exposição chega a São Paulo em itinerância, com uma expografia adaptada às características do espaço e uma obra inédita de Keyla Sobral incorporada à montagem.

A mudança de território também amplia uma questão que está no centro da própria exposição. Uma mostra dedicada a pensar diferentes imagens do Brasil passa a produzir novas relações conforme circula pelo país e encontra outros públicos, contextos e repertórios.

No Sesc Pinheiros, esse conjunto de aproximadamente 280 obras constrói menos uma resposta sobre aquilo que o Brasil é do que um campo de possibilidades sobre como ele pode ser visto. Entre imagens históricas e contemporâneas, artistas de diferentes gerações e trabalhos produzidos em múltiplas regiões, Delírio Tropical – Recanto assume as contradições, ausências e diferenças como parte de um país que permanece em construção.

A exposição Delírio Tropical – Recanto, com curadoria de Orlando Maneschy e curadoria adjunta de Keyla Sobral, permanece em cartaz até 12 de outubro de 2026, no Sesc Pinheiros, em São Paulo. A visitação acontece de terça a sábado, das 10h30 às 21h, e aos domingos e feriados, das 10h30 às 18h, no Espaço Expositivo, 2º andar, na Rua Paes Leme, 195, Pinheiros, São Paulo (SP). A entrada é gratuita.

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