Em Pedra de Rumo, artista articula escultura, desenho e cartografia em mais de 60 obras inéditas que investigam orientação, deslocamento e espiritualidade
Após quatro anos sem uma individual, Nelson Felix retorna ao circuito expositivo com uma mostra que reafirma e expande sua pesquisa histórica sobre espaço, tempo e matéria. Em cartaz na Almeida & Dale, Pedra de Rumo reúne mais de 60 trabalhos inéditos e propõe uma leitura sensível — e ao mesmo tempo rigorosa — sobre orientação e destino.

Vista da exposição Pedra de rumo de Nelson Félix na Galeria Almeida & Dale. Foto: Júlia Thompson
Cartografia como linguagem poética
Com texto crítico de Keyna Eleison, a exposição nasce de uma investigação recente do artista em torno de uma cartografia expandida. Mais do que representar territórios, Felix tensiona a ideia de mapa como construção simbólica e afetiva.
O título da mostra carrega essa ambiguidade: “pedra de rumo” é, ao mesmo tempo, um termo técnico da topografia e um elemento carregado de espiritualidade em diversas culturas, especialmente nas religiões de matriz africana. Aqui, o conceito se desdobra como orientação física e também como eixo existencial.
Matéria, música e atravessamentos
A exposição se organiza em diferentes núcleos que exploram materiais e linguagens diversas. Esculturas em mármore, bronze e elementos vegetais convivem com trabalhos em chumbo — material recorrente na trajetória do artista — que aparecem como suporte para pintura, desenho e colagem.
Em algumas obras, há ainda um diálogo direto com a musicalidade e a poesia de Dorival Caymmi, trazendo uma dimensão rítmica e sensorial à produção.
Outro conjunto, intitulado 1/2 eu, incorpora ferro fundido a imagens gráficas, criando peças híbridas que transitam entre escultura, desenho e fotografia. O resultado é um campo expandido onde as linguagens se contaminam e se reconfiguram continuamente.

Nelson Felix, Pedra de Rumo (#22), 2025. Foto: Julia Thompson
Uma obra contínua
Desde os anos 1980, Nelson Felix desenvolve sua produção como um único corpo em constante transformação. Cada trabalho se conecta ao anterior e ao seguinte, formando uma espécie de obra contínua, sem começo ou fim definidos.
Pedra de Rumo se insere nesse fluxo: mais do que uma exposição isolada, ela funciona como um ponto de inflexão dentro de uma pesquisa maior, que atravessa décadas e territórios.
Geometria, erro e deslocamento
Um dos aspectos mais instigantes da mostra é a relação entre arquitetura e orientação espacial. A partir de um estudo cartográfico, Felix identificou um alinhamento entre os espaços da galeria e do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, onde realizará sua próxima individual.
Segundo o artista, os dois locais formam uma espécie de cruz quase perfeita — com uma pequena margem de erro. É justamente esse desvio que orienta a disposição das obras, criando um jogo entre precisão e imperfeição.
Aqui, o erro não é falha, mas método: ele reorganiza o espaço e propõe novas formas de percepção.

Nelson Felix, Caymmi I, 2025. Foto: Julia Thompson
Entre a galeria e o museu
A exposição na Almeida & Dale funciona como prelúdio para Beijo de Língua, mostra que será inaugurada no MAC USP. Juntas, as duas exposições estabelecem um diálogo espacial e conceitual, ampliando a escala da pesquisa do artista.
Esse gesto reforça uma das marcas centrais da obra de Felix: a capacidade de articular diferentes lugares, tempos e materiais em uma mesma estrutura poética.
Pedra de Rumo de Nelson Felix está em cartaz na Galeria Almeida & Dale, na rua Fradique Coutinho, 1360, em São Paulo, de 21 de março a 2 de maio de 2026. De segunda a sexta, das 10h às 19h e aos sábados, das 11h às 16h, com entrada gratuita.






