Conflito entre conservação e arquitetura expõe falhas de planejamento na nova ala do New-York Historical, inaugurada com uma ambiciosa exposição sobre a democracia americana
Poucas semanas depois de apresentar ao público sua nova expansão de US$ 175 milhões, o New-York Historical se viu diante de um problema que deveria ter sido resolvido muito antes da abertura. A ala Tang Wing for American Democracy, inaugurada em 18 de junho, foi concebida para ampliar a presença do museu na vida cultural de Nova York, mas a exposição inaugural, “Democracy Matters”, precisou sofrer alterações após a constatação de que a luz natural que invade sua principal galeria poderia comprometer a conservação de parte das obras. Ao todo, 17 objetos foram substituídos por reproduções ou fac-símiles, enquanto outros três deixaram de ser exibidos.
A questão nasceu de uma escolha arquitetônica que está no centro da própria concepção do novo edifício. Projetado por Robert A.M. Stern em seu último projeto de museu, o espaço principal foi desenhado com grandes janelas, criando uma galeria ampla e luminosa, aberta visualmente para a cidade. O problema é que alguns dos objetos selecionados para a exposição são particularmente sensíveis à exposição prolongada à luz. A solução inicialmente adotada pelo museu foi cobrir as janelas com persianas blackout, medida capaz de proteger as peças, mas que, segundo a diretora Louise Mirrer, comprometia a experiência arquitetônica concebida por Stern. As cortinas acabaram sendo abertas novamente, e a instituição optou por modificar a exposição.
Entre as substituições, algumas são quase imperceptíveis. Os cartazes de Norman Rockwell produzidos em 1943 para a campanha “Buy War Bonds”, por exemplo, foram substituídos por reproduções visualmente próximas dos originais. Em outros casos, porém, a perda da materialidade da obra tornou-se muito mais evidente. O assemblage “Extreme Times Call for Extreme Heroines”, de Betye Saar, que reúne objetos tridimensionais como um relógio, uma tábua de lavar e uma figura, deu lugar inicialmente a uma fotografia digital. Depois que a troca chamou a atenção do New York Times, o próprio museu decidiu retirar a imagem, reconhecendo que ela não representava adequadamente a natureza da obra. Também desapareceram da exposição o vestido com inscrições manuscritas usado pela ex-deputada Carolyn Maloney no Met Gala de 2021, em defesa da aprovação da Equal Rights Amendment, e um manequim coberto por uma peça de crochê em camuflagem rosa criada pela artista Olek para lembrar a Marcha das Mulheres de 2017.
As mudanças provocaram desconforto entre antigos integrantes da equipe do museu, sobretudo porque o conflito entre a iluminação e a conservação das peças, segundo eles, já fazia parte das discussões durante o planejamento da exposição. Gerhard Schlanzky, que trabalhou no New-York Historical por 19 anos e deixou recentemente os cargos de diretor criativo e diretor de exposições, afirmou que a expectativa durante a preparação era de que as janelas fossem cobertas quando houvesse obras sensíveis à luz. Na sua avaliação, a decisão de manter o espaço aberto à luminosidade natural alterou uma premissa que havia orientado a própria seleção das peças. Wendy Nalani E. Ikemoto, curadora de “Democracy Matters” que também deixou o museu no mês passado, afirmou não ter participado nem sido informada antecipadamente sobre a decisão de abrir as persianas e substituir os trabalhos, acrescentando possuir documentação indicando que a mudança ocorreu depois de sua saída.
Para Mirrer, a falha esteve em não ter dado atenção suficiente ao problema da iluminação durante a preparação do projeto. A diretora afirmou que estava concentrada na captação dos recursos necessários para a expansão de US$ 175 milhões e na realização da visão de Stern, concebida como um espaço amplo, monumental e permeável à presença da cidade. O episódio, no entanto, revela uma tensão recorrente em museus contemporâneos, nos quais arquitetura, conservação e narrativa curatorial precisam funcionar simultaneamente, sem que uma dimensão inviabilize a outra. No caso do Tang Wing, a arquitetura venceu a disputa imediata, mas ao preço de alterar a experiência de uma exposição que pretendia justamente aproximar o público de objetos históricos e artísticos.
O resultado deixa uma questão particularmente incômoda para uma instituição dedicada à preservação da história americana: até que ponto uma reprodução pode substituir a presença física de um objeto em um museu? Para Schlanzky, a resposta é pouco confortável. O visitante não atravessa a cidade para encontrar apenas imagens daquilo que poderia ver em uma tela. A controvérsia do New-York Historical, portanto, ultrapassa o problema técnico da luz. Ela expõe uma contradição fundamental de projetos culturais de grande escala, nos quais a arquitetura pode ser tão determinante para a experiência quanto as próprias obras que o edifício foi construído para abrigar. A nova ala foi concebida para convidar Nova York para dentro, mas agora o museu precisa descobrir como deixar a luz entrar sem afastar justamente aquilo que o público veio ver.

