Mostra ocupa o Sesc Pompeia com arte de 25 mulheres do Brasil, África e diáspora

Ana Pi, NOIRBLUE - le fleuve niger, kiuá!. Foto: Ana Pi

A exposição inédita no país reúne obras que abordam memória, ancestralidade e resistência feminina

O Sesc Pompeia abre ao público a exposição O Poder de Minhas Mãos, coletiva que reúne obras de 25 mulheres artistas do Brasil, da França, do continente africano e da diáspora africana. A mostra, que fica em cartaz até 18 de janeiro de 2026, é um dos destaques da Temporada França-Brasil 2025 e apresenta um potente panorama da arte contemporânea produzida por mulheres negras ou racializadas.

A Mostra

Inédita no Brasil, a exposição foi originalmente concebida e apresentada no Musée d’Art Moderne de Paris, dentro da Temporada África 2020. No Sesc Pompeia, ela ganha nova versão, ampliada com a participação de artistas brasileiras cujos trabalhos dialogam com o continente africano e sua diáspora.

Dividida em quatro eixos curatoriais – Estórias Pessoais, Histórias e Ficções, O Pessoal é Político e Performances – a mostra reúne obras que abordam ancestralidade, identidade, espiritualidade, corpo, afeto, relações de poder, trabalho e dinâmicas de exclusão e pertencimento.

Em meio a disputas simbólicas e à urgência de novos olhares sobre o mundo, a exposição convida o público a imaginar futuros possíveis, vivenciando o papel da arte como território de escuta e transformação.

A Curadoria

Com curadoria de Odile Burluraux (Museu de Arte Moderna de Paris), Suzana Sousa (curadora independente angolana) e Aline Albuquerque (artista e curadora em Fortaleza), a mostra propõe um mergulho sensível em percursos singulares de mulheres artistas e suas práticas de autorrepresentação, resistência, memória e invenção de mundos.

“No Sesc, a exposição é atualizada com a presença de Aline Albuquerque, reforçando a curadoria e a participação de artistas brasileiras cujos trabalhos dialogam com o continente africano e sua diáspora. (…) A exibição compreende um panorama de produções que evidenciam narrativas sobre ser mulher na atualidade, afirmando o valor histórico e político de vivências por vezes invisibilizadas”, explica Luiz Galina, diretor do Sesc São Paulo.

A mostra também conta com textos de apresentação da escritora e filósofa Djamila Ribeiro, que afirma:

“Ao conjugar beleza e denúncia, ancestralidade e invenção, a produção artística negra tensiona as fronteiras entre arte e vida, política e poética. (…) Ela não ilustra a resistência – ela é, por si, resistência em forma sensível”.
Alexia Sagrada

Alexia Sagrada

As Artistas

A exposição reúne trabalhos de Aléxia Ferreira, Aline Motta, Ana Pi, Ana Silva, Buhlebezwe Siwani, Castiel Vitorino Brasileiro, Dhiovana Barroso, Eliana Amorim, Fabiana Ex-Souza, Gabrielle Goliath, Gê Viana, Grace Ndiritu, Jasi Pereira, Kapwani Kiwanga, Lebohang Kganye, Lerato Shadi, Lidia Lisbôa, Lucimélia Romão, Pedra Silva, Reinata Sadimba, Senzeni Marasela, soupixo, Stacey Gillian Abe, Terroristas del Amor e Wura-Natasha Ogunji.

Confira uma minibio de todas as artistas:

Aléxia Ferreira (Fortaleza, Brasil)
Parte da memória e do cotidiano em colagens e oficinas coletivas. Em Sagrada, evoca cuidado e abundância, com casas que simbolizam acolhimento diante das fragilidades sociais.

Aline Motta (São Paulo, Brasil)
Trabalha com fotografia, vídeo e arquivos pessoais para resgatar memórias apagadas pela história colonial. Em Se o mar tivesse varandas, a água é mediadora de ancestralidade, identidade e cura.

Ana Pi (Paris, França)
Coreógrafa e artista visual, investiga gesto, circulação e memória. Em NoirBLUE, conecta raízes africanas à dança contemporânea, criando uma “dança azul” como resposta ao racismo estrutural.

Ana Silva (Lisboa, Portugal / Luanda, Angola)
Explora herança e memória com tecidos e fios coloridos. Em Guardiãs, celebra a força e a resiliência femininas em ligação simbólica com a natureza.

Buhlebezwe Siwani (África do Sul / Países Baixos)
Artista e sangoma, aborda espiritualidade e feminilidade em performances e vídeos. Em Umntuntu, explora a mitologia xhosa e as tensões entre tradições ancestrais e o cristianismo.

Castiel Vitorino Brasileiro (Brasil)
Pesquisa cura e reterritorialização. Em A Linguagem dos Anjos, cria um alfabeto arcano em 74 pinturas abstratas, recusando estereótipos e afirmando liberdade estética e política.

Dhiovana Barroso (Fortaleza, Brasil)
Explora pintura, muralismo e instalação para abordar ancestralidade e diáspora negra. Em Kalunga-pequena, usa cerâmica e búzios para refletir sobre memória e transmissão cultural.

Eliana Amorim (Ceará, Brasil)
Trabalha entre arte, magia e saberes tradicionais de cura. Usa pigmentos naturais da Chapada do Araripe, revalorizando práticas ancestrais e a interdependência entre humano e natureza.

Fabiana Ex-Souza (Paris, França)
Artista transdisciplinar, conecta performance e materiais naturais. Em Talismãs da terra que levo comigo, cria patuás que evocam proteção, memória e resistência cultural.

Gabrielle Goliath (Joanesburgo, África do Sul)
Denuncia violências contra mulheres por meio da arte. Em Roulette, confronta o visitante com a alarmante estatística de feminicídios na África do Sul.

Gê Viana (São Luís, Brasil)
De origem indígena, trabalha colagem, performance e pesquisa comunitária. Em Paridade, reelabora identidades negras e indígenas, questionando invisibilidades históricas.

Grace Ndiritu (Londres, Inglaterra / Quênia)
Artista multidisciplinar, combina pintura, performance e práticas xamânicas. Em Healing the Museum, propõe curar espaços culturais em crise.

Jasi Pereira (Salvador, Brasil)
Transita entre cerâmica, escultura e performance. Em Reunião de Comunidade, modela argila em formas coletivas, evocando assembleias tradicionais e ligação com a terra.

Kapwani Kiwanga (Paris, França)
Franco-canadense de origem tanzaniana, questiona narrativas históricas em vídeos e instalações. Em Praxis of a Dialectical Dialect, aborda comunicação e poder através de cangas africanas.

Lebohang Kganye (Joanesburgo, África do Sul)
Fotógrafa, revisita histórias familiares para refletir sobre memória e Apartheid. Em Ke Lefa Laka, aparece ao lado da mãe em imagens manipuladas digitalmente.

Lerato Shadi (Berlim, Alemanha)
Trabalha com vídeo e performance, denunciando apagamentos culturais. Em Sugar and Salt, recria laços intergeracionais em interação íntima com sua mãe.

Lidia Lisbôa (São Paulo, Brasil)
Explora corpo e maternidade em crochês e esculturas. Em Tetas que Deram de Mamar ao Mundo, reflete sobre amamentação compartilhada e coletividade feminina.

Lucimélia Romão (Salvador, Brasil)
Artista visual e performer, denuncia violências contra mulheres. Em Mulheres do Lar – Mortes Anunciadas, encena o feminicídio como experiência coletiva de resistência.

Pedra Silva (Fortaleza, Brasil)
Mulher trans, sua prática une performance, espiritualidade e cura afro-pindorâmica. Em Farmácia Viva Grátis, troca ervas medicinais por palavras em ritual urbano.

Reinata Sadimba (Maputo, Moçambique)
Escultora pioneira, mistura referências makonde em cerâmicas híbridas. Suas figuras antropomórficas exploram misticismo e corpo feminino.

Senzeni Marasela (Soweto, África do Sul)
Explora a experiência das mulheres negras no Apartheid com bordado, gravura e performance. Em Waiting for Gebane, revive memórias de separação e exílio.

Soupixo (Crato, Brasil)
Borda narrativas entre corpo, gênero e raça em fotomontagens poéticas. Sua obra explora sonhos e memórias invisibilizadas de mulheres negras.

Stacey Gillian Abe (Uganda / Inglaterra)
Aborda identidade e gênero em esculturas e fotografias. Em Enya Sa, representa vulvas em terracota, rompendo tabus culturais e questionando papéis sociais femininos.

Terroristas del Amor (Ceará, Brasil)
Coletivo de Dhiovana Barroso e Marissa Noana, cria obras autobiográficas em técnicas têxteis. Suas peças evocam raízes e afetos herdados das avós.

Wura-Natasha Ogunji (Lagos, Nigéria)
Une antropologia e performance para investigar corpo e espaço público. Em Will I Still Carry Water When I Am a Dead Woman?, denuncia a opressão às mulheres nigerianas.

Gê Viana, Paridade Neide Tupinamba

Temporada França-Brasil 2025

Fruto de acordo entre os presidentes Emmanuel Macron e Luís Inácio Lula da Silva, a Temporada França-Brasil 2025 terá como eixos temáticos o clima e a transição ecológica, a diversidade e o diálogo com a África e a democracia e o desenvolvimento sustentável. A programação contempla artes visuais, música, literatura, cinema, patrimônio, teatro, dança, ciências e economia criativa com foco na juventude, nos direitos humanos e nas trocas profissionais. Iniciada em abril, quando a França passou a sediar eventos e ações de projeção da cultura brasileira, a Temporada França-Brasil se estenderá de agosto a dezembro, em parceria com organizações da sociedade civil e de agentes culturais de ambas as nações. O Sesc São Paulo integra a Temporada com mais de 20 ações em parceria.

COMO VISITAR A MOSTRA

O Poder de Minhas Mãos, fica em cartaz no Sesc Pompeia, na Rua Clélia, 93, Água Branca, São Paulo (SP). De 23 de agosto de 2025 a 18 de janeiro de 2026, de terça a sexta, 10h às 21h; sábados, domingos e feriados, 10h às 18h, com entrada gratuita.

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