A artista norte-americana Betye Saar morreu enquanto dormia na madrugada de 26 de julho, em Los Angeles, aos 99 anos, apenas quatro dias antes de completar um século de vida. A notícia foi confirmada pela galeria Robert Projects, encerrando a trajetória de uma das figuras mais influentes da arte contemporânea dos Estados Unidos. Ao longo de sete décadas de produção, Saar consolidou uma linguagem singular baseada na assemblage, técnica que reúne objetos encontrados para construir novas narrativas, transformando materiais cotidianos em poderosas reflexões sobre memória, identidade e injustiça racial.
Sua produção tornou-se referência por confrontar diretamente os estereótipos associados à população negra e por revelar as estruturas históricas do racismo norte-americano. Móveis antigos, esculturas populares, tecidos, penas, algodão e objetos adquiridos em brechós e mercados de antiguidades passaram a compor instalações carregadas de significado político. Em vez de apenas reutilizar materiais descartados, Saar lhes atribuía novos sentidos, convertendo vestígios da cultura material em instrumentos de denúncia e resistência.
Entre suas obras mais emblemáticas está The Liberation of Aunt Jemima, criada em 1972 para a exposição Black Heroes, organizada em Berkeley como resposta ao assassinato de Martin Luther King Jr. A artista apropriou-se da figura estereotipada da personagem que durante décadas estampou embalagens de xaropes e misturas para panquecas nos Estados Unidos e a transformou em símbolo de emancipação. Armada com um rifle e uma pistola, a personagem deixa de representar a submissão imposta às mulheres negras para assumir o papel de protagonista de sua própria libertação. Décadas depois, quando a marca abandonou a imagem e o nome de Aunt Jemima em meio às mobilizações do movimento Black Lives Matter após o assassinato de George Floyd, Saar afirmou que sua obra permanecia atual, embora a luta por representação e igualdade ainda estivesse longe do fim.
A crítica ao legado da escravidão e às teorias racistas também atravessou outras fases de sua carreira. Em The Phrenologist’s Window, de 1966, Saar utilizou a estrutura de uma janela para discutir a frenologia, pseudociência que tentou justificar a suposta superioridade da população branca por meio da medição de crânios. Em trabalhos posteriores, recorreu a elementos recorrentes de sua iconografia, como gaiolas representando a escravidão, pássaros associados ao período das leis de segregação racial e matérias-primas como algodão e índigo, diretamente ligadas à economia escravista. Sua produção ganhou escala nas décadas seguintes, culminando em instalações de grande impacto visual, entre elas I’ll Bend But I Will Not Break, de 1998, atualmente exibida no Los Angeles County Museum of Art, onde uma tábua de passar roupa incorpora imagens de navios negreiros e um lençol bordado com a sigla da Ku Klux Klan evidencia as permanências da violência racial.
O universo criativo de Betye Saar também era alimentado pelo hábito permanente de colecionar objetos. Seu ateliê reunia metais, madeiras, ferrugem, esculturas, móveis e inúmeros artefatos adquiridos ao longo de décadas, muitos dos quais aguardavam anos até encontrar lugar em uma obra. Mesmo após os 90 anos, continuava frequentando antiquários e mercados de pulgas em busca de peças que despertassem sua imaginação. Essa relação paciente com os materiais sintetiza a essência de uma artista que compreendia o tempo como parte do processo criativo e que transformou fragmentos esquecidos do cotidiano em obras capazes de desafiar narrativas históricas, reafirmando seu lugar entre as vozes mais decisivas da arte contemporânea internacional.


