No dia 6 de dezembro, a exposição Um século de agora (LEIA MAIS SOBRE A MOSTRA EM NOSSA AGENDA) foi completada por mais uma obra, o manto Assojaba Tupinambá. Entre cânticos, a indumentária tradicional daquele povo foi colocada em seu lugar na mostra pelas mãos de Glicéria Jesus da Silva, também conhecida como Célia Tupinambá. Foi ela quem, em 2021, teceu a peça com cordão encerado com cera de abelha jataí e variedade de penas de pássaros do bioma mata atlântica, pássaro da região amazônica como araras, azuis e vermelhas.
De acordo com Glicéria, o manto é cura, assim como a cerâmica, as flautas e o canto do seu povo Tupinambá da Serra do Padeiro. Ela conta que tudo faz parte de um processo de pertencimento que se fortalece. Elaborado em 2021, mais do que uma peça finalizada, ele é uma instalação que demonstra o processo do seu feitio.
“O manto se faz, ele é uma personalidade. Entendi o que estava guardado pelas anciãs da nossa comunidade, os artefatos de uma arte milenar trazida pelo cosmo, como um ritual que está se concretizando, se formando”, conta Glicéria. “Resolvi mostrar isso para que as pessoas conheçam a complexidade do manto para além do capuz, da malha e das camadas de penas que o compõe, com uma estrutura que representa a transformação e resistência do nosso povo em todas as etapas que vivemos”, explica.
A artista defende o resgate, a volta ao início de uma identidade cada vez mais ameaçada. Representante de seu povo junto à Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres), ela só teve o primeiro contato com o manto em 2006, por fotografias. Isso porque a indumentária emplumada tradicional dos Tupinambás, encontrada pelos colonizadores no século XVI, foi levada para museus da Europa e ficou inacessível à maioria dos brasileiros. Decidida a revitalizar esse símbolo de memória e resistência, Glicéria resolveu confeccionar uma réplica, que hoje faz parte da coleção Os primeiros brasileiros, do Museu Nacional (RJ). A peça não foi atingida pelo incêndio que destruiu grande parte do acervo da instituição em 2018 porque, naquele momento, estava no Memorial dos Povos Indígenas, em Brasília.


