Lygia Clark em um mergulho cênico e estético

FOTO: Carolyna Aguiar

Maria Clara Mattos, Bel Kutner e Carolyna Aguiar mergulham no universo de Lygia Clark e apresentam LYGIA, com dramaturgia desenvolvida por Maria Clara, a partir dos diários da artista, hoje reconhecida uma mulher à frente de seu tempo. A obra de Lygia Clark é extremamente complexa, carregada de significados subterrâneos nem sempre explícitos. Mesmo assim, sua estética é direta, quase simples. Bel Kutner e Maria Clara Mattos têm esse subtexto como meta de encenação. Sim, encenação, é como preferem tratar o espetáculo Lygia. Sem o comprometimento do palco, sem a rigidez do teatro, sem o silêncio e a pura apreciação de uma exposição. A ideia é mergulhar no universo interno desta artista, buscando usar as linhas retas, as curvas e os objetos terapêuticos criados por ela numa interação com o público. Ou seja, Lygia Clark na língua que ela buscou para suas manifestações artísticas: o corpo, a obra de arte e sua interação com o público. Mais do que um espetáculo, esta encenação é uma experiência estética, exatamente o que a artista emprestou à própria obra: vida. Para Maria Clara, “o monólogo Lygia é um convite ao vasto mundo interior desta mulher. Seus sonhos, suas dores, suas alegrias. Não da artista plástica, não a terapeuta, mas da Lygia, pura e simplesmente. Alguém que fez dos próprios abismos o caminho de contato com o outro, alguém que acreditava que o potencial artístico humano estava no desvendamento dos próprios fantasmas”.

A encenação será apresentada na Bolsa de Arte (Rua Rio Preto, 63, São Paulo), de 7 de abril a 28 de maio (quintas e sextas, às 20h; sábados às 18h). Simultaneamente à temporada de LYGIA, acontecerá no mesmo espaço uma exposição homônima com caráter panorâmico, que “se mistura ao monólogo, não como forma de materializar aquilo que é narrado ou descrito por Carolyna, mas como uma dobra. Ambos se unem e se entrelaçam como forma de criar feixes e dinâmicas a partir da obra de Lygia. A potência, visceralidade e sensibilidade de Carolyna ecoam na exposição que, por sua vez, mantém ativa a memória e o legado de Lygia”, diz Felipe Scovino, curador da exposição (LEIA MAIS SOBRE A MOSTRA CLICANDO AQUI).

Para Carolyna Aguiar é de extrema importância termos Lygia no cenário artístico atual, “sua desconstrução do pensamento obra de arte como mito, sua aproximação entre a vida e arte, sua constante provocação que tira o público da contemplação passiva. É trazer de novo a discussão entre as fronteiras da arte. ”

Lygia Clark, Respire comigo | FOTO: Cortesia Associação Cultural Lygia Clark

A DRAMATURGIA

por Maria Clara Mattos

Lygia Clark sempre buscou a interação entre o artista e o público. Da quebra da moldura à saída da parede à Estruturação do Self, o que esta mulher à frente do seu tempo propôs – literalmente – foi a comunhão entre a arte e a vida. O monólogo Lygia. é um convite ao vasto mundo interior desta mulher. Seus sonhos, suas dores, suas alegrias. Não da artista plástica, não da terapeuta, mas da Lygia, pura e simplesmente. Alguém que fez dos próprios abismos o caminho de contato com o outro, alguém que acreditava que o potencial artístico humano estava no desvendamento dos próprios fantasmas. De Caetano Veloso a Ivanilda Santos Leme, profissional do sexo e presidente da ONG Fio da Alma; de artistas consagrados a pessoas comuns, o que Lygia queria era o contato entre os corpos, encontros artísticos e curativos. Buscava, com seu estudo, provar que a arte era um sentimento, não um objeto de apreciação. Por tudo isso, em algum momento, o universo das artes plásticas deixou de ser capaz de classificar sua obra, apresentá-la e muito menos vendê-la. Sem o reconhecimento do universo terapêutico, que também não encontrou meios de enquadrar seu trabalho, Lygia começou só e terminou só. Talvez sem imaginar a importância que teria tantos anos depois de sua morte, talvez sem ter certeza de que faria parte da história artística do país, jamais desistiu de sua pesquisa artística e influenciou muita gente mundo afora. Através de seus escritos e diários, nossa intenção é experimentar ser essa artista que usou a própria angústia como material de pesquisa. Angústia, material tão comum aos seres humanos quanto os sacos de laranja e de cebola, as pedras e os sacos plásticos, as luvas e as tesouras, o barbante e a baba, matérias-primas da vida banal como caminho de tradução da alma artística de cada um de nós. Pela arte de criar. Lygia foi experimentação estética do começo ao fim. Ao ser encontrada morta, sentada na poltrona, vestida e penteada diante de uma televisão desligada, como fazia todos os dias, uma pergunta se impôs naturalmente: até na morte ela foi obra de arte? Cremos que sim. Evoé!

FOTO: Divulgação

Compartilhar:
Notícias - 23/01/2026

Galeria Bolsa de Arte inaugura nova etapa e reposiciona o eixo Sul no circuito nacional

Parceria com Almeida & Dale impulsiona programa artístico renovado, reforma institucional e estratégia de longo prazo a partir de Porto …

Notícias - 19/12/2025

Guia de exposições 2026 — o que já está confirmado

As principais galerias e instituições culturais já revelam, em primeira mão a Dasartes, parte da programação de exposições de 2026. …

Notícias - 12/12/2025

Céu-Eclipse no MUPA: quando o céu se torna território de disputa, memória e imaginação

Mostra reúne artistas brasileiros e estrangeiros para investigar o clima, o mito e as forças que moldam um planeta em …

Notícias - 12/12/2025

Alessandra Rehder recria a floresta como experiência sensorial no Museu Lasar Segall

Exposição reinventa o olhar sobre a natureza com obras que atravessam fotografia, instalação e memória ambiental
O Museu Lasar Segall recebe …

Notícias - 12/12/2025

Mais um roubo de arte: 600 artefatos ligados ao Império Britânico desaparecem de museu

A polícia do Reino Unido intensificou a busca por quatro homens suspeitos de um assalto de alto valor no Bristol …

Notícias - 12/12/2025

Morre a artista conceitual Ceal Floyer aos 57 anos — uma voz sutil e radical da arte contemporânea

A artista Ceal Floyer morreu em 11 de dezembro de 2025, aos 57 anos, após uma longa batalha contra uma …

Notícias - 10/12/2025

Conheça a progamação 2026 de exposições da PINACOTECA DE SÃO PAULO

São 16 mostras divididas entre os três edifícios do museu, com destaque para a primeira individual do camaronês Pascale Marthine …

Notícias - 10/12/2025

Morre Frank Gehry, ícone da arquitetura: relembre cinco obras que marcaram sua revolução nas cidades

O arquiteto canadense-americano Frank Gehry morreu aos 96 anos, deixando um legado que transformou a arquitetura contemporânea. Celebrado por suas …

Notícias - 10/12/2025

Artefatos de seis mil anos emergem sob o Parlamento britânico

Escavações recentes no palácio do Palace of Westminster — sede do Parlamento do Reino Unido — revelaram artefatos com cerca …

Notícias - 10/12/2025

Morre Martin Parr, voz inconfundível da fotografia documental contemporânea

O fotógrafo britânico Martin Parr faleceu aos 73 anos em sua casa, em Bristol, confirmou sua fundação neste domingo (7 …

Notícias - 10/12/2025

Ícone pop de Yale é removido após vandalismo e vai ganhar novo lar em museu

A emblemática escultura Lipstick (Ascending) on Caterpillar Tracks de Claes Oldenburg, instalada há meio século no campus da Yale University, …

Notícias - 10/12/2025

Vazamento atinge nova vez o Louvre: entre 300 e 400 obras de pesquisa são danificadas

Um vazamento ocorrido no final de novembro causou danos a entre 300 e 400 volumes da biblioteca do departamento de …