Foi ao som de Gilberto Gil, com caipirinhas equilibradas na medida — preparadas com cachaça legítima, como deve ser — e petiscos que exalavam o conforto da cozinha brasileira, que a Neue Nationalgalerie recebeu, nesta quinta-feira, a abertura da aguardada exposição “Lygia Clark Retrospektive”. O clima era de festa e reverência: um tributo elegante à potência da arte brasileira em plena Berlim, com a Tropicália servindo de pano de fundo para uma noite que misturou afeto, ritmo e provocação. Havia algo de encontro íntimo naquela celebração: o tipo de abertura em que o visitante sente que não está apenas vendo uma exposição, mas vivendo uma atmosfera.
A mostra, a primeira retrospectiva dedicada a Lygia Clark em solo alemão, ocupa o salão superior do museu com cerca de 120 obras — emprestadas por instituições como o MoMA, a Pinacoteca de São Paulo, o MAM do Rio e a Coleção Cisneros. O percurso cobre quatro décadas de experimentações: das primeiras pinturas geométricas à ruptura do plano com seus relevos em madeira; dos célebres “Bichos” dobráveis à expansão sensorial de máscaras, óculos e trajes; até as experiências performativas e terapêuticas do fim da carreira. Tudo pulsa em torno da mesma pergunta: onde termina a obra e começa o corpo?
A curadoria, assinada por Irina Hiebert Grun e Maike Steinkamp, propõe uma imersão tátil, viva — em que o público é convidado a interagir com réplicas produzidas especialmente para a mostra. Não se trata apenas de ver, mas de tocar, manipular, sentir. E talvez por isso a exposição já tenha sido saudada, na noite de abertura, como um marco. “É simplesmente a melhor exposição da Lygia da história”, afirmou Thiago Gomide, da Galeria Gomide&Co. “É uma aula”, completou. Uma aula que ensina com o corpo, com o gesto, com o deslocamento dos sentidos.
“Lygia Clark Retrospektive” segue em cartaz até 12 de outubro e conta com um catálogo bilíngue — o primeiro em alemão dedicado à artista — publicado pela E. A. Seemann Verlag. Trata-se de uma oportunidade rara de acompanhar, em um dos templos da arte moderna europeia, a trajetória de uma criadora que redefiniu não apenas os limites da arte, mas também a forma como nos relacionamos com ela. Uma exposição que não se atravessa impunemente — ela entra pela pele, pelos olhos e por dentro.





