Livro de Nise da Silveira ganha nova edição

Emygdio de Barros, 1971

O Museu de Imagens do Inconsciente, a Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente e a Editora Vozes lançam, no dia 16 de maio de 2024, às 18h30, no Centro Cultural Justiça Federal, a nova edição do livro “O mundo das imagens”, de Nise da Silveira.

Com 208 páginas, formato de 28 x 20 cm, e texto de Nise da Silveira e Luiz Carlos Mello – diretor do Museu de Imagens do Inconsciente, responsável pela pesquisa, coordenação geral do projeto e autor de um dos capítulos – “O mundo das imagens” marca a comemoração dos 50 anos de fundação da Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente, criada em 1974 para apoiar e desenvolver as atividades do Museu.

Publicado inicialmente em 1992, com o incentivo da Fundação Vitae, “O Mundo das Imagens” foi o segundo livro escrito pela Dra. Nise da Silveira (1905-1999). “Trata-se de uma continuação do primeiro livro, ‘Imagens do Inconsciente’, lançado em 1981, abordando as tentativas de mudança da psiquiatria atual, as histórias de vida dos frequentadores dos ateliês, associando as sutis relações entre mundo externo e mundo interno, e os temas arquetípicos tão comuns nas vivências esquizofrênicas”, explica Luiz Carlos Mello.

Em 2022, dentro das comemorações dos 70 anos de existência do Museu de Imagens do Inconsciente, criado pela Dra. Nise, foi lançada a nova edição revista do livro “Imagens do Inconsciente” (Editora Vozes em parceria com a Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente), considerado um marco na psiquiatria. Essas duas “primorosas edições, com todas as fotografias em cor, traz à luz a concretização do antigo sonho de Nise e da equipe do Museu de Imagens do Inconsciente, graças à Editora Vozes, à Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente e a Mauro Domingues, que com seu dedicado trabalho voluntário coordenou o processo de digitalização das obras que ilustram os dois livros”, destaca Luiz Carlos de Mello.

“Foram 26 anos nos quais tive o privilégio de conviver com essa personalidade única, caracterizada pela ética, pelo rigor no trabalho e entusiasmo na criação de novos paradigmas. Como colaborador, participei da preparação dos dois livros com pesquisa de textos e principalmente de imagens que fazem parte dessas publicações”, conta.
O diretor do Museu de Imagens do Inconsciente diz que em 1993 sugeriu à Dra. Nise que “fizéssemos uma revisão modificando textos e acrescentando imagens que integram as edições posteriores”.

SONHO EXTRAORDINÁRIO: UMA TIGRESA PARINDO DOIS FILHOTES

Carlos Pertuis, 1951

Ele lembra que Dra. Nise teve “um sonho extraordinário: uma tigresa parindo dois filhotes em uma caverna”. “Depois de me contar o sonho, ela disse, decidida: ‘É hora de fazer o livro’. Até então, demonstrava hesitação em realizá-los, apesar do incentivo das pessoas à sua volta”. “Este sonho da tigresa parindo é uma imagem visceral do seu processo criativo, expressa aqui por meio de sua identificação com os felinos. A tigresa dá à luz dois filhotes, e dos estudos de Nise sobre a compreensão do processo psicótico através das imagens nasceram esses dois livros, alicerces de seu trabalho científico: “Imagens do Inconsciente” e “O Mundo das Imagens”.

Luiz Carlos Mello diz que no capítulo “O Mundo das Imagens”, que dá nome ao livro, Dra. Nise “apresenta sete diferentes métodos de leituras, finalizando com aquele por ela praticado no Museu de Imagens do Inconsciente”. “A partir da espantosa produção que acontecia nos ateliês, Nise foi tecendo, com sua arguta inteligência, os fios de sentido que ligavam as vivências pessoais aos níveis mais profundos e universais da psique. Nesses relatos, em vez dos amontoados de sintomas encontrados habitualmente nos prontuários psiquiátricos, foram sendo descortinadas densas histórias humanas nas quais se encontra um sentido pleno de vida e emoções”, afirma.

“Os temas arquetípicos que Jung desvendou no inconsciente do indivíduo europeu são os mesmos encontrados na pesquisa de Nise dentro de um hospital público brasileiro: simbolismo do gato, metamorfoses e transformações, símbolos alquímicos e a irrupção do principio feminino numa sociedade patriarcal evidenciando uma transição na cultura de nossa época. As imagens, permitindo a exploração do mundo intrapsíquico, se constituíram em um dos eixos principais na obra de Nise”.

Carl Jung (1875-1961), baseado em sua experiência no Hospital Psiquiátrico Burghölzli, constatou que faltava à psiquiatria uma verdadeira psicopatologia, uma ciência que mostrasse aquilo que acontecia dentro do indivíduo durante a psicose. “O trabalho de Nise foi uma contribuição valiosa para esta nova ciência, sempre centrado no estudo e na compreensão das imagens criadas nos ateliês do MII, relacionando-as com as histórias de vida de seus autores”, observa o diretor do Museu.

“Em 1954, Nise enviou uma carta a Jung indagando sobre a significação das mandalas feitas espontaneamente nos ateliês do Museu de Imagens do Inconsciente. A partir daí, estabeleceu-se uma correspondência entre os dois. O envio de novas fotografias de pinturas, em que outros temas surgiam, trazia igualmente surpreendente sintonia com os estudos junguianos sobre os arquétipos”, conta. “Jung, entusiasmado com o trabalho realizado no Brasil, que confirmava sua concepção sobre o inconsciente coletivo, convidou Nise para freqüentar o Instituto C. G. Jung, e organizar uma exposição, com obras do MII, por ocasião do II Congresso Internacional de Psiquiatria em Zurique, em 1957. No final da carta ele escreve: ‘Eu ficaria contente se, por meio da visita da doutora Nise da Silveira, o contato entre os psiquiatras do Brasil e da Suíça se aprofundasse. Certamente esse encontro será importante para o futuro tanto da psicologia quanto da psiquiatria’.”

Luiz Carlos Mello salienta que a Dra. Nise da Silveira “tinha muitas afinidades com o psiquiatra inglês Ronald Laing, um dos fundadores da antipsiquiatria”. “Ambos estudaram piano e contestaram a psiquiatria tradicional. Em 1978, tiveram a oportunidade de se conhecer no Museu de Imagens do Inconsciente. Logo que chegou, Laing pediu-me para ver imagens relacionadas com o simbolismo da morte e do renascimento. Ele logo percebeu que ali se revelavam as profundas vivências que o indivíduo atravessa durante a psicose, assunto no qual ele era especialista.

Ao final da visita escreveu este depoimento: ‘Confio na continuidade e expansão deste trabalho. Trata-se de uma coleção que já tem fama internacional. […], pois representa uma contribuição de grande importância para o estudo científico do processo psicótico’”.

MUSEU DE IMAGENS DO INCONSCIENTE

Isaac Liberato, 1956

Instalado em um antigo complexo hospitalar psiquiátrico, no bairro do Engenho de Dentro, Zona Norte do Rio de Janeiro, o Museu de Imagens do Inconsciente ganhou em 2024 um apoio relevante: o Banco Itaú destinou R$ 800 mil para o seu Plano Anual. Esses recursos possibilitam o tratamento técnico de vários acervos: o de mais de 400 mil obras, das quais 128 mil tombadas pelo Iphan – o maior tombamento do patrimônio brasileiro –, a biblioteca com mais de quatro mil volumes, e o arquivo pessoal da Dra. Nise da Silveira, com mais de três mil itens – cartas, fotos, recortes de periódicos, manuscritos, vídeos e filmes – considerado pela Unesco patrimônio mundial, e ainda os arquivos funcionais do Museu e de sua Sociedade Amigos, que registram boa parte da trajetória da instituição. As verbas do Plano Anual do Museu permitem também as ações voltadas para o público, entre elas as três exposições em cartaz: “Ocupação Nise da Silveira”, doada pelo Itaú Cultural; “Do Asilo ao Museu – 70 anos de história”, e “Residências Artísticas”. O Museu de Imagens do Inconsciente abrange quatro edifícios, e funciona de terça a sábado, das 10h às 16h, com entrada gratuita. É um equipamento do Instituto Municipal Nise da Silveira/Secretaria Municipal de Saúde/Prefeitura do Rio.

SOCIEDADE AMIGOS DO MUSEU DE IMAGENS DO INCONSCIENTE

Ao longo dos anos, a Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente desenvolveu numerosos projetos e parcerias com entidades públicas e privadas que resultaram em publicações, exposições, cursos, além de implementação de infraestrutura para o Museu. Atualmente presidida pela historiadora da arte Christina Penna, a SAMII já teve entre seus diretores personalidades como Eduardo Portela, Ivo Pitanguy, Rubens Correa, Aloisio Magalhães, Anna Letycia, Perfeito Fortuna e Ferreira Gullar.

Desde 2011, a Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente vem desenvolvendo projetos de modo a que toda a área em que o MII está inserido seja transformada no Parque Nise da Silveira. Em julho de 2012, o mesmo decreto que criou o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, órgão da Prefeitura, estabeleceu a criação do Parque Nise da Silveira. Com perto de 80 mil metros quadrados, o Parque Nise da Silveira está ganhando forma. Já foi criado o Bosque D. Ivone Lara, com perto de 6 mil metros quadrados, batizado em homenagem à grande compositora e cantora nascida em 1921 e falecida em 2018, que foi enfermeira e teve atuação destacada na atenção à saúde mental. Nos últimos anos, as melhorias no Museu de Imagens do Inconsciente compreendem a ampliação das áreas totais de 948m2 para 2.337 m2, do espaço expositivo de 253,4m2 para 584,9m2, e da administração, de 55,9m2 para 83,1m2.

O MII foi selecionado três anos seguidos para receber Emendas Parlamentares do Congresso Nacional, cujos recursos foram destinados ao inventário de 50 mil obras do lote das 128 mil tombadas pelo IPHAN – de um universo total de 400 mil obras do acervo – e a construção de um site bilíngüe, com 400 obras e textos informativos, em fase de finalização. Atualmente está em curso a digitalização de três dos quinze documentários realizados pela equipe do MII sob a supervisão da própria Dra. Nise, e dirigidos por Luiz Carlos Mello: “Emygdio: um caminho para o infinito” (45′), “Os Cavalos De Octávio Ignácio (30′) e “No Reino das Mães” (75′).

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