Mais uma temporada de leilões de Nova York se encerra com números impressionantes. Desta vez, foram mais de US$ 2,2 bilhões em vendas (R$ 11,8 bilhões)
POR LIEGE GONZALEZ JUNG
Este número traz um aumento de 77% em relação à temporada de 2024, mas longe do pico de US$ 3,3 bi de 2022, quando tantos dividendos acumulados durante o lockdown pandêmico foram investidos em arte.
Como já comentado em minha publicação anterior, as expectativas eram incertas. Boa parte dos lotes chegaram ao pregão com garantias de terceiros, ou seja, com venda garantida, e, portanto um certo sucesso já era esperado. Por outro lado, o momento do mercado nos últimos dois anos é morno. Basta olhar para a queda no fator Uau! nas últimas feiras de arte mundo afora para perceber que as galerias vêm apostando mais em obras de valor baixo e médio. Valor relativo, claro.
Obras excepcionais sempre encontram compradores, mesmo por valores altos. Esta é uma máxima do mercado de arte que nunca vi falhar nos quase vinte anos que o acompanho, e nesta temporada não foi diferente. Começando com o muito divulgado Gustav Klimt, que teve um de seus esplendorosos retratos vendidos por US$ 236 milhões, mais de R$ 1,2 bilhão de reais. Frida Kahlo também brilhou, com sua tela El Sueño arrematada por US$ 54,7 milhões. Seu recorde anterior era de US$ 34,9, pela obra Diego y Yo, arrematada pelo habitué dos recordes de preço Eduardo Constantini em 2021 e atualmente em exposição no Malba. Constantini, aliás, é prova de que pagar muito por obras excepcionais vale a pena. As paredes do Malba contêm alguns recordes de preço que vieram a valorizar ainda mais ao longo dos anos, incluindo O Abaporu, comprado em 1995 por US$ 1,95 milhão, ou pouco mais de US$ 4 milhões hoje, atualizado pela inflação norte-americana.
Outros 14 recordes de preço para artistas foram registrados, com maioria de artistas negros e mulheres, sendo três para mulheres surrealistas – Dorothea Tanning (US$ 3,2 milhões), Leonor Fini (US$ 2,5 milhões) e a nova querida do mercado Gertrude Abercrombie (US$ 1,1 milhão). Cecily Brown também bateu novo recorde, com US$ 9,8 milhões pela pintura High Society (1995-98). Mas atenção, nem tudo são flores para Cecily: seu tríptico It’s not yesterday anymore (2022) foi o único lote sem lance do leilão de arte do Século 21 da Christie’s, sendo adquirido pela casa pelo valor mínimo garantido de US$ 3 milhões. As imagens das obras contam melhor esta história. Afinal, que outro artista poderia ter pintado High Society, com seus indícios enigmáticos de figuração que fizeram a fama da artista, disfarçados na histeria da alta sociedade? Já a mais genérica pintura recente não foi capaz de atrair nem aqueles que pagam por uma assinatura.

It’s not yesterday anymore, de Cecily Bronw, comprada sob garantia por US$3 milhões. Imagem cortesia Christie’s
Em muitos destes recordes, o salto de valor em relação ao recorde anterior foi grande, mas nenhum tão grande quanto o do jovem brasileiro Antonio Obá, que teve uma pintura arrematada por US$ 1 milhão. De acordo com Artprice, seu recorde anterior é de maio de 2024, com uma tela do artista vendida na Sotheby’s por US$ 228.600. Em 2025, existem quatro registros de obras vendidas em leilão, todas pelo lance inicial ou abaixo, o que significa que cada uma recebeu apenas um lance e, portanto, atraiu um único comprador interessado, que poderia ser um legítimo colecionador ou, como se comenta no mercado, alguém desejando evitar o registro de Unsold/não vendido. A última venda ocorreu em outubro, na Christie’s, pelo lance inicial de US$ 47.756. Um mês após este resultado, não deixa de ser curioso que surjam dois interessados dispostos a disputar uma obra do artista até o valor de US$800 mil mais comissão, ainda que por uma obra maior e mais repleta de elementos típicos. Um acontecimento no mínimo peculiar, tema de muita especulação nos bastidores do mercado. Ainda mais curioso se comparamos com valores de outras estrelas ascendentes da pintura negra, algo que comentei na minha publicação anterior. Como a anonimidade dos compradores é garantida pelas casas de leilão, não há dados públicos suficientes para esclarecer. Um fato é indiscutível: bons resultados de leilão, registrados publicamente, são excelentes argumentos de venda. Afinal, não parece uma ótima oportunidade comprar por um milhão de reais na galeria uma obra de um artista que já teve outra vendida por um milhão de dólares? Com certeza, muito mais do que se o maior valor registrado em leilão fosse menos de 1/4 disto.
Apesar dos resultados impressionantes, em geral houve pouca disputa por impressionistas e pós-impressionistas, bem como por obras medianas de grandes nomes, com lotes de artistas como Giacometti e Magritte sendo vendidos abaixo da estimativa. Talvez antecipando estes resultados, dois trabalhos de artistas brasileiros foram retirados de venda: uma escultura de Maria Martins e uma tela de Cândido Portinari.
Mark Rothko esteve nos dois lados do espectro na Christie’s: um de seus óleos foi muito disputado até ser arrematado por US$ 62 milhões, enquanto um papel, estimado em US$ 3 a 5 milhões, foi vendido por US$ 2,8 milhões mais comissão, resultados que representam bem o consenso sobre a situação atual do mercado de arte. Os queridinhos de anos passados Joan Mitchell e Christopher Wool passaram longe de recordes anteriores, mas performaram dentro das expectativas: Mitchell, que tem exposição em cartaz na David Zwirner, teve oito obras ofertadas, incluindo duas grandes telas arrematadas por US$ 17,7 e US$ 14,3 e apenas um papel não vendido. A obra Riot de Wool foi o lote mais caro do leilão do Século 21 da Christie’s, saindo por US$19,8 milhões.
Enquanto a presença brasileira foi mínima nesta temporada, do outro lado do Atlântico dois artistas atraíram atenção: Frans Krajcberg, com um relevo em tela estimado em € 3.000 a € 5.000 vendido por € 8.500 mais comissão, em leilão da casa Ader em Paris, e Vicente do Rego Monteiro, com o óleo O carroceiro (50x70cm, 1925) vendido por € 180.000 mais comissão, muito além da estimativa alta de € 80.000 do leiloeiro Magnin Wedry, também em Paris.
Entender o mercado de arte requer entender suas engrenagens, mas também entender a economia mundial. Um dado curioso que pode ajudar é o número de iates de mais de 250 pés, que passou de menos de dez em 1990 para 170 em 2025. Com cada vez mais bilionários e menos classes médias, é esperado que tenhamos recordes cada vez mais impressionantes e cada vez menos demanda para obras menores precificadas de acordo com o nome do artista e não com a qualidade. Afinal, US$ 3 milhões de dólares é pouco para um Rothko, mas é muito para uma obra em papel de produção relativamente numerosa. Já US$ 236 milhões é muito para um Klimt? Talvez, mas bastam duas pessoas de bolsos fundos desejarem uma obra para seu valor em leilão disparar. Além disto, sabe-se lá quando um outro Klimt desta qualidade surgirá, e assim a ansiedade também pode causar inflação. Enquanto houver gente suficiente no mundo com milhões sobrando, podemos esperar muitos recordes deste tipo. E, se os movimentos de capital seguirem as trajetórias atuais, talvez vejamos um ajuste na precificação das obras de blue chips, com mais distância de valor entre as melhores e as medianas.
Se não indicado de outra forma, todos os valores incluem comissão.
Liege Gonzalez Jung é diretora e editora-chefe da Revista Dasartes desde 2008.





