Pintada em 1907, obra passou décadas em um museu de Munique antes de ser devolvida aos herdeiros de uma família perseguida pelos nazistas
Uma das primeiras grandes pinturas de Wassily Kandinsky volta agora ao mercado depois de atravessar quase um século marcado por guerra, confisco e uma longa disputa pela restituição. Das bunte Leben, de 1907, será oferecida pela Christie’s em Londres em 14 de outubro, durante a semana da Frieze, com estimativa superior a US$ 30 milhões (aproximadamente R$ 150 milhões). A obra pertenceu à família Lewenstein, foi tomada pelos nazistas durante a ocupação dos Países Baixos e permaneceu por mais de cinco décadas em um museu alemão antes de retornar aos herdeiros em 2023.
A história começa em 1927, quando o empresário holandês Emanuel Albert Lewenstein e sua mulher, Hedwig Lewenstein-Weyermann, compraram a tela. Poucos anos depois, diante da ameaça nazista, os filhos do casal deixaram a obra sob a guarda do Stedelijk Museum, em Amsterdã, antes de fugir do país. Em 1940, os bens da família foram confiscados e dispersos. A pintura acabou vendida em leilão ao colecionador Salomon B. Slijper. Décadas mais tarde, foi adquirida pelo Bavarian State Bank e, em 1973, emprestada ao Lenbachhaus, em Munique, onde ficou exposta até a restituição.
Robert e Wilhelmine Lewenstein passaram décadas tentando reconstruir o paradeiro da coleção dos pais. Em 2017, com auxílio da Mondex Corporation, especializada na recuperação de obras saqueadas durante a Segunda Guerra Mundial, os irmãos entraram com uma ação em Nova York. A disputa atravessou anos. Em 2023, uma comissão independente alemã recomendou a devolução da pintura aos herdeiros, encerrando uma batalha judicial que havia começado seis anos antes. A restituição colocou novamente a tela no circuito internacional de arte.
Com pouco mais de 1,2 metro de altura e 1,5 metro de largura, Das bunte Leben era, quando foi pintada, a maior tela realizada por Kandinsky. A composição reúne peregrinos, camponeses, santos, nobres, mães e crianças em uma paisagem povoada por referências à tradição russa, ao folclore e à religião. A pintura foi apresentada no Salon d’Automne, em Paris, no mesmo ano de sua criação, e dialoga com uma geração de artistas que buscava representar a experiência da vida por meio de cor, movimento e composição, como Henri Matisse em Bonheur de vivre e André Derain em La Danse.
Para Keith Gill, vice-presidente do departamento de arte dos séculos 20 e 21 da Christie’s, a obra registra uma mudança decisiva na trajetória do artista. “Kandinsky já não está simplesmente retratando o mundo ao seu redor, mas começando a imaginar como a pintura poderia comunicar algo além do visível”, afirmou. Marc Porter, presidente da Christie’s para as Américas, também vê na tela um momento de convergência entre diferentes influências antes da passagem de Kandinsky à abstração. O interesse comercial acompanha essa leitura histórica. Em 2023, Murnau mit Kirche II, de 1910, também restituída após ter sido roubada pelos nazistas e posteriormente exibida em um museu, alcançou £37,2 milhões (aproximadamente R$ 270 milhões) em um leilão da Sotheby’s em Londres, estabelecendo o recorde do artista. Agora, Das bunte Leben chega à mesma cidade com uma estimativa que a coloca novamente entre as obras mais disputadas de Kandinsky no mercado.


