O Sertão: somos muitos, na Galeria Marco Zero, apresenta mais de 120 obras e reafirma a potência contemporânea de uma poética enraizada na Caatinga
A Galeria Marco Zero abre sua programação de 2026 com um acontecimento aguardado: a primeira exposição individual de Juraci Dórea em Pernambuco. Com curadoria de Galciani Neves, O Sertão: somos muitos inaugurada em 21 de janeiro e reúne mais de 120 obras — entre produções inéditas e trabalhos emblemáticos das décadas de 1970 e 1980 — oferecendo um amplo panorama da trajetória de um dos nomes centrais da arte contemporânea baiana.
Nascido em Feira de Santana, onde vive e trabalha, Dórea construiu ao longo de mais de seis décadas uma obra profundamente conectada ao Sertão. Sua produção articula cultura popular e arte contemporânea ao tensionar temas como memória, território e identidade. O Sertão, em sua obra, não é apenas paisagem: é experiência vivida, campo simbólico e espaço político.
O Sertão como linguagem e matéria

Escultura da Pedra Vermelha, Projeto Terra, 1989. Foto: Adriano Franco.
Formado em arquitetura, Juraci Dórea sempre transitou por múltiplas linguagens — escultura, pintura, desenho, fotografia, cinema e poesia. Sua poética emerge do universo sertanejo: homens e mulheres do campo, boiadeiros, feirantes, agricultores, além da fauna, da flora e dos mitos da Caatinga.
Mais do que representar esse contexto, o artista trabalha com suas próprias materialidades — couro, madeira, cerâmica — transformando elementos do cotidiano em estruturas visuais que expandem o imaginário nordestino. Obras como Ainda Canudos evocam camadas históricas e simbólicas, revisitando narrativas que moldaram a identidade da região e questionando visões fixas sobre o que é o Sertão.
Projeto Terra: arte pensada a partir e para o território
Um dos núcleos centrais da mostra é dedicado ao Projeto Terra, iniciado em 1982 e ainda em desenvolvimento. Nesse projeto, Dórea instala esculturas, murais e pinturas diretamente em territórios do Sertão baiano, criando obras que dialogam com a paisagem e com seus habitantes.
A exposição apresenta registros fotográficos dessas intervenções, além de trabalhos da série Arte para ninguém, reafirmando o gesto radical de produzir arte fora dos circuitos convencionais. Aqui, o território não é cenário, mas interlocutor ativo — uma dimensão viva da obra.
Um panorama de cinco décadas

Ainda Canudos, 2025. Foto: Adriano Franco.
Ao reunir trabalhos históricos e recentes, O Sertão: somos muitos não se limita a uma retrospectiva, mas propõe uma imersão consistente na trajetória de Dórea. A diversidade de suportes e procedimentos revela um artista que escolheu permanecer no Sertão não como tema exótico, mas como fundamento de pensamento e criação.
Ao apresentar essa produção pela primeira vez em Recife, a Galeria Marco Zero evidencia a amplitude e a relevância de uma obra que atravessa gerações e consolida Juraci Dórea como um dos principais artistas contemporâneos da Bahia — e do Brasil.
O Sertão: somos muitos de Juraci Dórea está em cartaz na Galeria Marco Zero, na Av. Domingos Ferreira, 3393, Boa Viagem, em Recife, até 5 de março de 2026. De segunda a sexta, das 10h às 19h e aos Sábados, das 10h às 17h, com entrada gratuita.









