Guardado por décadas sem uma atribuição definitiva e levado à equipe do programa britânico Fake or Fortune? envolto em um saco de dormir, um retrato do século XVIII acaba de ganhar um novo lugar na história da arte. Após uma extensa investigação conduzida por especialistas, a pintura foi autenticada como uma obra de Katherine Read, uma das retratistas mais prestigiadas de sua época, e passou a ser avaliada em mais de 100 mil libras esterlinas. A confirmação devolve visibilidade a uma artista cuja produção foi, durante muito tempo, obscurecida pela historiografia e frequentemente confundida com a de pintores homens.
A proprietária da obra, a aposentada Mary-Louise Wedderburn, herdou o quadro de um tio há cerca de vinte anos e sempre acreditou que ele pudesse ter sido executado por Read, que integra sua árvore genealógica. O retrato representa uma mulher indiana em pose solene, adornada com colar de pérolas, um expressivo pingente de esmeralda e um tradicional adorno nasal. A identidade da retratada permanece desconhecida, mas os estudos indicam que ela provavelmente pertenceu à família dos nababos de Arcot, governantes da região de Madras, atual Chennai, hipótese que amplia significativamente a relevância histórica da obra.
A autenticação exigiu uma investigação que reuniu documentos de família, cartas, testamentos, pesquisas de arquivo e análises técnicas realizadas por especialistas. Comparações com outras pinturas atribuídas à artista, especialmente um retrato de sua sobrinha Helena Beatson, revelaram semelhanças consistentes na composição, na paleta de pigmentos, no tratamento das formas e na pincelada. Para o historiador da arte Charles Greig, responsável pela avaliação, o conjunto de evidências elimina dúvidas sobre a autoria e transforma a pintura em uma das descobertas mais relevantes relacionadas à produção de Katherine Read.
O interesse despertado pelo quadro vai além da redescoberta de uma artista esquecida. Segundo os pesquisadores, trata-se provavelmente do registro mais antigo conhecido de uma mulher indiana retratada por uma pintora europeia. Diferentemente de muitas representações produzidas durante o período colonial, que retratavam esposas ou companheiras de europeus estabelecidos no subcontinente, a personagem deste retrato parece integrar diretamente a elite política local, aspecto considerado extremamente raro para a iconografia do século XVIII e capaz de ampliar o entendimento sobre as relações culturais entre Europa e Índia naquele período.
Reconhecida em vida como uma retratista de enorme prestígio, Katherine Read estudou em diferentes centros artísticos europeus, circulou entre as elites e chegou a receber remunerações superiores às de contemporâneos hoje muito mais celebrados, como Thomas Gainsborough. Ainda assim, sua trajetória acabou relegada ao esquecimento à medida que o gosto artístico mudou e parte de sua produção foi atribuída a pintores homens. A redescoberta apresentada pelo programa britânico não apenas acrescenta uma obra importante ao catálogo da artista, mas também reforça o movimento de revisão histórica que vem recuperando o legado de mulheres cuja contribuição para a arte permaneceu invisibilizada durante séculos.

