Instituto Moreira Salles lança ebook gratuito sobre representações de pessoas negras em seu acervo

Com o objetivo de difundir narrativas atualizadas pautadas em questões de raça e gênero, o Instituto Moreira Salles acaba de lançar o ebook Negras imagens − Formação a partir do acervo IMS. A publicação já está disponível para leitura e download gratuito no site.

A publicação reúne dez ensaios que analisam, a partir de um viés crítico, imagens de mulheres, crianças e homens negros presentes nos acervos de fotografia e iconografia do IMS, além de obras de autoria negra. Os textos são assinados por Alexandre Araujo Bispo, Ana Beatriz Almeida, Diane Lima, Ione da Silva Jovino, Janaina Damaceno, Juliana Barreto Farias, Mônica Cardim, Rafael Domingos Oliveira, Roberto Conduru e Vanicléia Silva Santos.

Nos ensaios, os autores e autoras desenvolvem temas que abordaram em um ciclo de encontros online, organizado pelo IMS em 2022, em diálogo com a exposição Walter Firmo: no verbo do silêncio a síntese do grito. Em suas análises, evidenciam narrativas pouco contadas, apontando possibilidades de construção de novos modos de interpretar a história afro-brasileira e o próprio conceito de patrimônio.

O material pode ser adotado como fonte de referência para pesquisadores e professores, contribuindo para reforçar o cumprimento da lei 10.639/03, que determina a abordagem da história e da cultura afro-brasileira no ensino.

A publicação evidencia ainda o compromisso do IMS com a construção de saberes críticos e plurais em torno de suas coleções, como pontua a diretora de educação do IMS, Renata Bittencourt: “Os ensaios agrupados aqui estimulam o IMS a apurar continuamente seu olhar sobre o patrimônio do qual é guardião, se valendo dessas perspectivas renovadoras para alimentar suas ações e projetos, sobretudo na área de educação.”

Mais sobre o ebook

O volume abre com o ensaio da pesquisadora Ana Beatriz Almeida, que analisa obras de três artistas contemplados pelo Convida, programa de incentivo lançado pelo IMS durante a pandemia: o coletivo Afrobapho, a cineasta Everlane Moraes e Dona Dalva Damiana. A autora adota conceitos do sistema lógico da Irmandade da Boa Morte, instituição a partir da qual se constituiu o candomblé, para aproximar as três obras.

No texto seguinte, a curadora Diane Lima parte de registros da I Bienal de São Paulo, feitos pelo fotógrafo Peter Scheier, para discutir como o concretismo e o neoconcretismo no Brasil criaram uma equação de valor que tenta obliterar a racialidade na cena ética e estética moderna no país. O ensaio subsequente, do historiador Roberto Conduru, também adota imagens do acervo do IMS − de nomes como Geraldo de Barros, José Medeiros e Marcel Gautherot − como fonte para discutir as relações entre arquitetura e africanismo no Brasil.

O núcleo seguinte da publicação trata das representações de crianças negras nas coleções do IMS. A educadora Ione da Silva Jovino examina duas imagens feitas pelo fotógrafo Vincenzo Pastore para tratar da criação e repetição de estereótipos associados aos corpos negros, além das dinâmicas de segregação na São Paulo do início do século XX. Já o historiador Rafael Domingos Oliveira cria diálogos e tensiona as representações de crianças negras em duas coleções do IMS: a de Marc Ferrez, sobretudo as fotos da década de 1880, e as de Walter Firmo, com ênfase nos registros de festas populares brasileiras.

As fotografias de Marc Ferrez também são objeto de análise no ensaio de Juliana Barreto Farias. A historiadora parte de registros de trabalhadores na praça do Mercado, feitos por Ferrez no fim do século XIX, para abordar as relações entre trabalho urbano, gênero e raça na cidade. Em seu artigo, a educadora Mônica Cardim, por sua vez, ressignifica a galeria de fotos de homens e mulheres negros produzida nos estúdios de Alberto Henschel no Brasil do século XIX. Ainda neste núcleo da publicação, a curadora Vanicléia Silva Santos investiga imagens de mulheres negras presentes nos trabalhos iconográficos de artistas brasileiros e estrangeiros oitocentistas.

O ebook traz também um texto do antropólogo Alexandre Araujo Bispo sobre um conjunto de retratos de crianças, homens e mulheres negros feitos no estúdio do fotógrafo Limercy Forlin, em Poços de Caldas (MG), entre as décadas de 1950 e 1980. A publicação encerra com um ensaio de Janaina Damaceno no qual ela trata da representação da família negra, em especial da figura do pai, nas fotografias de Walter Firmo, reafirmando sua importância em desafiar estereótipos.

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