Instituto Inhotim inaugura novas exposições

Panmela Castro, Dalton Paula (Residência Jandira), 2021 | FOTO: Edouard Fraipont

O Instituto Inhotim inaugura em 19 de novembro as exposições “Quilombo: vida, problemas e aspirações do negro”, na Galeria Lago, e “O Mundo é o Teatro do Homem”, na Galeria Fonte. As duas mostras, organizadas pela direção artística e a equipe curatorial de Inhotim, continuam a pesquisa iniciada pelo museu em 2021, em parceria com o Ipeafro, sobre a obra do artista, poeta, dramaturgo e ativista Abdias Nascimento.

Desta vez, as duas exibições partem conceitualmente do jornal “Quilombo: vida, problemas e aspirações do negro”, editado pelo Teatro Experimental do Negro, e que contou com 10 edições entre 1948 e 1950, que serve como contexto e plataforma enunciativa para a organização das aquisições mais recentes feitas para o Instituto Inhotim.

Frame do filme ‘Olho da Rua’, Jonathas de Andrade, 2022

A Galeria Fonte recebe “O Mundo é o Teatro do Homem”, com obras de Jonathas de Andrade e da dupla Barbara Wagner e Benjamin de Burca. A exposição se desenvolve ao redor da relação entre a prática teatral, formação artística e cidadã e ativismo social. O ponto de partida é o legado do Teatro Experimental do Negro (TEN), grupo fundado por Abdias Nascimento em 1944 e que se notabilizou por pautar o protagonismo negro e a denúncia do racismo nas suas ações. Ganha destaque também a aproximação do TEN com a prática do psicodrama, método teatral e terapêutico desenvolvido pelo médico romeno-austríaco Jacob Levy Moreno. Mediada por Alberto Guerreiro Ramos, essa aproximação foi documentada e discutida nas páginas do jornal Quilombo. Além disso, as trocas entre Abdias Nascimento e Augusto Boal e as práticas e conceitos que o último consolidou ao redor do Teatro do Oprimido (TO) são abordadas em diferentes dimensões. As obras, por sua vez, montadas em arenas situadas nas extremidades da galeria, apresentam uma forte conexão justamente com o TO. Cada uma à sua maneira, elas desdobram alguns dos principais conceitos e práticas construídos por Boal em novos formatos, adaptados às questões contemporâneas. Entre as obras, a seleção e articulação de documentos de naturezas diversas buscam revelar a importância do TEN na formação e na trajetória de Augusto Boal, adicionando novos elementos à genealogia do Teatro do Oprimido.

Frame do filme ‘Fala da Terra’, 2022, Bárbara de Menezes e Benjamin de Burca

“Abdias certamente foi uma referência para Boal. Quando eles se conheceram, Boal tinha pouco mais de vinte anos e Abdias já havia construído uma reputação com o Teatro Experimental do Negro. O TEN foi um dos primeiros grupos a montar as peças de Boal, algumas delas escritas em sintonia com temáticas afro-religiosas, graças a recomendações e sugestões feitas pelo próprio Abdias”, comenta Lucas Menezes, Curador Assistente do Inhotim.

A exposição “Quilombo: vida, problemas e aspirações do negro” também integra o programa de aberturas para novembro. Com título fazendo clara alusão ao jornal, a mostra propõe um resgate dos conceitos por trás da publicação. Dividida em 5 núcleos [1. Novo poder: reformulando uma vanguarda; 2. Vidas públicas; 3. Vida e aspirações do negro; 4. Elas Falam; e 5. Reescrita da história: construção e afirmação da identidade], a exibição estabelece um diálogo entre temas levantados por “Quilombo”, ligadas a questões de representação e identidade da figura do negro na sociedade da época, e estabelece diálogos com a produção recente de artistas brasileiros. Entre os 35 artistas que integram a exposição figuram obras adquiridas para a coleção do Inhotim de Panmela Castro, Maxwell Alexandre, Mulambö, Antonio Obá, Wallace Pato, Desali, Elian Almeida, Paulo Nazareth, Kika Carvalho e Zéh Palito, entre outros. “Muito do que foi discutido pela publicação Quilombo ainda é latente nos debates atuais sobre cultura e sociedade, com um olhar para os anseios da população negra da época, mas que reverbera nos dias de hoje. As obras dos mais de 30 artistas, algumas delas de aquisições recentes do Inhotim, tratam de temas que resgatam esses conceitos trazidos por “Quilombo” e outras publicações da imprensa negra”, conta Deri Andrade, Curador Assistente do Inhotim.

Maxwell Alexandre, sem título (da série Novo Poder), 2021 | FOTO: Divulgação

Além de Quilombo, a exposição na Galeria Lago apresenta ampla documentação, que destaca outras publicações da imprensa negra no Brasil, como O Menelick, O ‘Clarim d’Alvorada, a revista Ébano e a revista Raça.

As duas exposições acontecem paralelas ao Segundo Ato: Dramas para negros e prólogo para brancos, que faz parte da mostra Abdias Nascimento e o Museu de Arte Negra, realizada em parceria com o Ipeafro desde 2021. A exibição, aberta em maio de 2022 e que pode ser conferida pelo público até fevereiro de 2023, apresenta questões sobre o Teatro Experimental do Negro, representatividade e auto representação, que se desdobraram nas mostras a serem inauguradas em novembro.

Zéh Palito, You are not ordinary, 2021 | FOTO: Divulgação

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