Governo basco pressiona Madri para levar “Guernica” a Bilbao pela primeira vez em três décadas – mas o Reina Sofía resiste, alegando fragilidade da obra
O icônico mural de Pablo Picasso contra a guerra, Guernica, pode estar prestes a romper um jejum de mais de 30 anos fora do Museu Reina Sofía, em Madri. O governo do País Basco formalizou um pedido ao Ministério da Cultura da Espanha para que a tela monumental seja transferida em regime de empréstimo temporário ao Museu Guggenheim de Bilbao entre outubro de 2026 e junho de 2027. A data não é aleatória: marca os 90 anos do bombardeio nazista e fascista italiano sobre a cidade basca de Guernica, ocorrido em 26 de abril de 1937, que inspirou a obra-prima antibélica.
Para Imanol Pradales, lehendakari (presidente do governo basco), a cessão representaria “uma fórmula de reparação simbólica e memória histórica” para o povo basco, além de um “recado ao mundo” sobre os horrores da guerra e da ditadura. Não é a primeira tentativa: o governo regional já solicitou o quadro em outras efemérides e até na inauguração do Guggenheim Bilbao, em 1997. Todas foram negadas. Desta vez, porém, o cenário político é outro: o primeiro-ministro Pedro Sánchez comanda um governo minoritário que depende de dois partidos nacionalistas bascos, ambos sensibilizados com a causa. Pradales chegou a advertir que uma recusa seria um “grave erro político”.
O Reina Sofía, no entanto, não facilita. Em relatório recente, a instituição “desencorajou fortemente” qualquer deslocamento, alegando que a tela de 3,5 metros de altura por 7,8 metros de largura – pintada em Paris em cinco semanas – está frágil demais para viajar. Criada para a Exposição Internacional de 1937, Guernica percorreu Europa e Estados Unidos, ficou no MoMA de Nova York até 1981 (a pedido de Picasso, que só queria seu retorno à Espanha com a democracia restaurada), e desde 1992 repousa no Reina Sofía. Agora, o governo basco propõe uma comissão conjunta para avaliar viabilidade e custos. Sánchez ainda não decidiu – e promete retomar as conversas após a Páscoa. O que está em jogo vai além da arte: é memória, política e o pulso frágil de um gigante do século XX.


