Instalação de 2021 ganha nova apresentação em São Paulo ao lado de duas obras recentes da artista, em itinerância que amplia o percurso iniciado em Minas Gerais
A partir de 22 de setembro, Grada Kilomba retorna ao Brasil com O Barco, instalação que chega ao Sesc Pompeia em uma parceria inédita entre o Sesc São Paulo e o Instituto Inhotim. Primeira itinerância do projeto para fora do museu mineiro, a exposição ocupa o Galpão até 25 de outubro e reúne a instalação homônima, criada em 2021, à videoinstalação Opera to a Black Venus e à instalação Compressed Time, ambas de 2024. Na abertura, a artista participa de um diálogo público com Júlia Rebouças, diretora artística do Inhotim, curadora e pesquisadora.
Com 134 blocos de madeira queimada distribuídos por mais de 220 m², O Barco reproduz a estrutura do fundo de uma embarcação com 32 metros de comprimento. A configuração remete aos porões dos navios negreiros, espaços concebidos para transportar milhões de africanos escravizados. Dezoito blocos carregam poemas de Kilomba gravados em dourado, apresentados em iorubá, kimbundu, crioulo cabo-verdiano, português, inglês e árabe da Síria. A obra combina escultura e performance para construir uma presença física a partir de uma história marcada pela violência do tráfico transatlântico.
As duas obras incorporadas ao projeto ampliam essa investigação. Em Opera to a Black Venus, Kilomba utiliza a figura mítica de uma Vênus Negra para narrar histórias relacionadas à escravização, ao colonialismo, às guerras, às mudanças climáticas e às migrações forçadas. Já Compressed Time parte da ideia do oceano como lugar de sepultamento e propõe um arquivo humano capaz de preservar essas memórias. As três obras se articulam em torno de uma pergunta formulada pela artista: o que o fundo do oceano poderia nos dizer amanhã se a água fosse retirada hoje?
Antes de chegar a São Paulo, O Barco passou por cidades como Lisboa e Londres e desembarcou no Inhotim em abril de 2024, onde permaneceu por 28 meses. A apresentação mineira foi organizada em três atos. O primeiro contou com um ensemble de coro, percussão e balé vindo de Portugal; o segundo, em 2025, incorporou 12 artistas de Brumadinho e Belo Horizonte; e o terceiro acrescentou as duas obras de 2024 que agora seguem para o Sesc Pompeia. Para Marília Loureiro, curadora responsável pela exposição ao lado de Júlia Rebouças, a itinerância permite que “essas histórias ganhem voz, corpo e forma” diante de novos públicos.
A transferência para São Paulo também integra uma estratégia do Inhotim de ampliar a circulação de obras originalmente concebidas para longas permanências. “Estamos integrando o conceito de itinerância ao nosso modo de exibir os trabalhos”, afirma Rebouças. A parceria ocorre no ano em que o Sesc São Paulo completa 80 anos e o Inhotim celebra duas décadas de existência. No Sesc Pompeia, O Barco poderá ser visitado gratuitamente de terça a sábado, das 10h às 21h30, e aos domingos e feriados, das 10h às 18h30.


