Remoção de peças relacionadas aos direitos LGBTQIA+, às mulheres e à violência política gerou reação de artistas, curadores e diretores de museus colombianos
A retirada de aproximadamente 30 obras e documentos do Museu Nacional da Colômbia, em Bogotá, provocou protestos e críticas da comunidade artística do país. Por determinação do presidente Abelardo de la Espriella, peças que abordavam os direitos LGBTQIA+, os movimentos feministas, vítimas de violência política e o processo de paz firmado em 2016 com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) foram removidas da exposição. Segundo o veículo especializado Hyperallergic, a medida atingiu materiais ligados a episódios importantes da história social e política colombiana.
Entre os itens retirados estão uma fotografia de Humberto Rincón Perfetti que registra uma marcha pelos direitos LGBTQIA+, uma bandeira do orgulho pertencente à ativista Elizabeth Castillo e um folheto sobre direitos reprodutivos das mulheres. Também foram removidos materiais relacionados aos assassinatos de Carlos Pizarro Leongómez, ex-comandante guerrilheiro e candidato à Presidência morto em 1990, e de Bernardo Jaramillo Ossa, líder do partido União Patriótica. Outra peça retirada foi uma caneta produzida a partir de uma bala, utilizada na assinatura do acordo de paz com as Farc. O objeto trazia a inscrição: “Balas escreveram nosso passado, a educação escreverá nosso futuro”.
A decisão provocou reação de representantes de instituições culturais. Em uma declaração conjunta divulgada nas redes sociais, dirigentes de seis museus de arte manifestaram “profunda preocupação” com a retirada das peças e solicitaram que o Ministério da Cultura revertesse a medida. O documento defende que os museus devem permitir o contato com a complexidade histórica, inclusive com acontecimentos que provoquem desconforto ou questionamentos. Beatriz López, cofundadora e diretora artística da galeria Instituto de Visión, com atuação em Bogotá e Nova York, também criticou o silenciamento de vozes historicamente marginalizadas e pediu que os objetos retornem a um espaço de investigação e debate público.
A ministra da Cultura, Paola Holguín, defendeu a decisão sob o argumento de que o museu não deve funcionar como instrumento de doutrinação política nem disseminar versões tendenciosas da história, conforme informou a agência EFE. A controvérsia ocorre em meio à chamada “batalha cultural” anunciada pelo presidente, cuja agenda conservadora tem sido comparada por veículos internacionais às iniciativas de Donald Trump contra exposições sobre diversidade e direitos civis nos Estados Unidos. Em 19 de outubro, segundo o jornal colombiano Cambio, a Justiça determinou que as peças retiradas fossem preservadas e proibiu novas remoções sem justificativa administrativa.


