Por Liege Gonzalez Jung
No dia 11 de novembro, a Pinacoteca se vestiu de gala para receber um grupo de convidados da joalheria Bvlgari para o anúncio de uma nova parceria. Embalado por champagne Ruinart, o jantar à francesa contou com a presença das globais Maria Fernanda Cândido e Marina Ruy Barbosa portando joias deslumbrantes. Vários executivos da sede em Roma também tomaram o palco para ressaltar a importância da parceria.
Após o jantar, os convidados se reuniram nas passarelas e janelas ao redor de um dos vãos para assistir de cima uma incrível apresentação de dança. Sobre um cenário todo preto com uma pirâmide central, a bailarina Ingrid Silva brilhava com o seu tutu branco e 40 dançarinos locais com trajes negros e longas luvas brancas encantaram o público com uma complexa coreografia de braços sincronizados, sob a orientação do francês Berrabah.

A bailarina Ingrid Silva e os 40 dançarinos sob a orientação do francês Berrabah. Foto: Lygia Contin
Como diretora da Dasartes, deixei o evento maravilhada, mas também desconfiada. Ao sair, passei novamente pelas cinco obras recém restauradas apresentadas como fruto da tão louvada parceria, sendo a mais antiga delas um óleo sobre tela de Lorenzato de 1985. A soma do valor de mercado de todas elas não cobriria o custo do evento. Será que a Pinacoteca precisa de ajuda italiana para restaurar pintura popular brasileira? Fiquei com a sensação de estar presenciando mais uma de tantas ações de marketing disfarçadas de filantropia, com muita divulgação para pouco resultado, algo bem comum no circuito da arte.
Torcendo para estar errada, no dia seguinte entrei em contato com com Yuri Quevedo, curador adjunto da Pina, para entender melhor esta parceria. E meus receios foram aliviados. “Estas cinco obras foram selecionadas por mim como exemplos, pois precisavam de intervenções e estavam na fila. Aqui trabalhamos sob demanda, alinhando as obras para restauração quando são selecionadas para exposições futuras.” contou Yuri. O curador deixou clara a importância do apoio da Bvlgari, que passou a financiar todo o trabalho do Laboratório de Restauro, tendo inclusive permitido a vinda de dois peritos italianos para um ateliê sobre o uso do PVA-Borax, uma técnica muito versátil que atraiu profissionais do Brasil todo. Ressaltou, inclusive, o resultado positivo do marketing: “A divulgação em si ja é excelente, pois coloca em destaque nosso departamento de restauro, um dos mais importantes do museu e geralmente ignorado pelo público.”
De acordo com Fabiane Rouillé, diretora de Brand marketing e comunicação da Bvlgari para America Latina, a parceria não envolve um simples aporte financeiro, mas também o compartilhamento do know how da empresa, adquirido em numerosos projetos de restauro mundo afora, entre eles o da Escadaria Espanhola em Roma. Em suas palavras, “em um país como o Brasil, com um poder criativo tão potente, preservar nossas criações e investir na manutenção do legado artístico é ainda mais relevante.” Também é um apoio de longo prazo, permitindo ao museu um planejamento mais concreto para o futuro, algo elogiado por Yuri: “Esta longa fila de obras aguardando restauro, que andava lentamente em função do alto custo dos equipamentos e materiais, agora vai avançar mais rápido.”
Durante o jantar, Yuri comentou que sobram marcas querendo patrocinar exposições, mas falta verba para investimentos importantes na estrutura e manutenção. Nada surpreendente. É ótimo que tantas empresas tenham despertado para o poder da arte e queiram se associar a ela. Inclusive adoraria que mais delas procurassem a Dasartes para investir em alguns dos muitos projetos maravilhosos que ficam na nossa gaveta aguardando financiamento. Mas, infelizmente, sabemos que o dinheiro acaba em ações que geram mais cliques e não necessariamente nas que mais beneficiam a arte ou o público. Por isto termino com um grazie à Bvlgari e desejando que seja mesmo uma parceria de muitos anos.






