Primeira individual da artista brasileira na Europa abre o MEZEKƎRƎ, novo espaço dedicado a práticas artísticas globais e diaspóricas
Em 2 de outubro, Viena ganha um novo endereço dedicado à arte contemporânea. Instalado no antigo Sophienspital, no distrito de Neubau, o MEZEKƎRƎ abre suas portas com Anunciação das Ardências (Annunciation of the Ardencies), de Gê Viana, primeira exposição individual da artista brasileira na Europa. Com cerca de 300 m², o espaço nasce voltado a práticas artísticas globais e diaspóricas e às perspectivas da Maioria Global e de pessoas migrantes, articulando exposições e residências a performances, música, literatura, oficinas e processos de aprendizagem coletiva.
Com curadoria de Marissa Lôbo, Faris Cuchi Gezahegn e Marisel Bongola, a exposição reúne onze colagens, uma escultura, uma instalação em ráfia, dois altares, uma obra sonora e uma Radiola, sistema de som associado à cultura reggae do Maranhão. O conjunto resulta da residência realizada por Gê Viana no próprio MEZEKƎRƎ no primeiro semestre de 2026 e transforma o espaço em um território que combina arquivo, ritual e convivência. A pesquisa da artista parte da comunidade quilombola Santa Rosa dos Pretos, no Maranhão, e alcança o Mercado Dantokpa, no Benim, estabelecendo conexões entre memórias, práticas culturais e histórias compartilhadas entre a África Ocidental e o Brasil.

Gê Viana. © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo
A Radiola ocupa o centro da exposição. No Maranhão, esses sistemas de som integram há décadas uma cena reggae particular e também funcionam como pontos de encontro e circulação de memória. Na obra de Viana, o equipamento ganha outra dimensão ao levantar questões sobre presença e ocupação do espaço público, além das fronteiras entre manifestação cultural e aquilo que é tratado como perturbação. Fotografias, documentos históricos, tradições orais, espiritualidade e práticas comunitárias aparecem nas colagens e fotomontagens da artista, que reorganiza imagens provenientes de arquivos coloniais para produzir novas relações entre passado e presente.
A escolha de Gê Viana também prolonga um momento de forte circulação internacional de sua obra. Em 2025, a artista participou da 36ª Bienal de São Paulo com A colheita de Dan, instalação monumental de Radiola apontada pela ArtReview entre os trabalhos mais marcantes da edição. Em paralelo à abertura no MEZEKƎRƎ, Viana realiza sua primeira exposição individual nos Estados Unidos no Hammer Museum, em Los Angeles. Nascida em Santa Luzia, no Maranhão, em 1986, a artista vive e trabalha em São Luís e desenvolve uma produção que atravessa colagem, fotomontagem, pintura, vídeo e instalação, com atenção aos arquivos coloniais, às identidades afro-pindorâmicas, à memória e à espiritualidade. Em 2020, recebeu o Prêmio PIPA.
Para os curadores, a presença de Viana na inauguração é parte da própria proposta institucional do MEZEKƎRƎ. “Seu trabalho reorganiza o arquivo colonial até que ele conte uma outra história, uma história em que a presença de pessoas indígenas e negras não seja uma nota de rodapé, mas a própria estrutura”, afirma a equipe. O novo espaço é resultado de mais de uma década de atuação artístico-político-cultural ligada a iniciativas como o Lima. Institut, fundado em 2009, oca: migrations, minorities, arts e kültür gemma!, que desde 2012 apoiou mais de 110 artistas. O nome MEZEKƎRƎ deriva do amárico መዘክር, mäzäkr, associado a atos coletivos de reunir, preservar e cuidar. A exposição fica em cartaz de 2 de outubro de 2026 a 28 de fevereiro de 2027, com entrada gratuita, no MEZEKƎRƎ Space, Kenyon-Pavillon, SOPHIE 7, Apollogasse 21/5, 1070 Viena. O espaço funciona de segunda a quarta, das 10h às 16h; quinta, das 10h às 20h; e sexta, das 10h às 14h. A abertura ocorre na sexta-feira, 2 de outubro, e a curadoria é assinada por Marissa Lôbo, Faris Cuchi Gezahegn e Marisel Bongola.


