Frestas – Trienal de Artes anuncia lista de artistas

Jaider Esbell, Os Parixaras

Trazer para a prática o debate sobre economias de acesso, refletir sobre as políticas e poéticas de exibição, investigar quais estratégias de solidariedade são possíveis, bem como aquilo que dizem os corpos que, habitando estruturas de poder assimétricas, estão a criar um vasto mundo fora do mundo. Essa é a proposta da 3ª edição de Frestas – Trienal de Artes, cuja exposição, com curadoria do trio Beatriz Lemos, Diane Lima e Thiago de Paula Souza, acontece de 21 de agosto de 2021 a 30 de janeiro de 2022 no Sesc Sorocaba. Essa edição de Frestas leva o título O rio é uma serpente e conta com assistência de curadoria de Camila Fontenele e coordenação educativa de Renata Sampaio .

A curadoria selecionou 54 artistase coletivos de diferentes nacionalidades para integrar a mostra [confira a lista completa abaixo]. São nomes do Brasil, da África do Sul, Bolívia, Chile, Colômbia, Estados Unidos, França, Holanda, México, Peru, República Dominicana e Suíça, que residem em diferentes países e exibem obras nos mais diversos suportes, desde pinturas até instalações e performances. Destes, 33 foram selecionados para criar obras comissionadas e inéditas para o projeto, são nomes como Castiel Vitorino Brasileiro, Dalton Paula, Denilson Baniwa, Diego Araúja, Gê Viana, Lia García (La Novia Sirena), Renata Lucas, Sallisa Rosa e Sucata Quântica, Ventura Profana e Vijai Patchineelam [confira a lista completa abaixo].

Para Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc São Paulo, com a realização desta edição de Frestas, “o Sesc reafirma a direção que procura apontar com sua ação cultural, fomentando experiências simbólicas dedicadas a buscar saídas em meio a uma conjuntura cujas vias parecem conduzir a lugares onde não gostaríamos de chegar, embora já tenhamos chegado. Emblemática desses ‘lugares’, a pandemia de Covid-19 se interpôs na trajetória de Frestas, exigindo que seu curso fosse alterado”. Originalmente prevista para ter sua mostra aberta ao público em agosto de 2020, a Trienal acabou se iniciando, naquele momento, com uma série de ações formativas e agora a instituição se prepara para a montagem da exposição que ocupará a unidade do Sesc e espaços públicos da cidade de Sorocaba.

Em 2020, parte das atividades programadas ocorreram integralmente em ambiente digital: o Programa de Estudos, que contou com a presença de quinze artistas da edição; O rio é uma serpente: tópicos para a diferença e justiça social, um programa formativo para professores que integra o núcleo educativo; e o Programa Orientado a Práticas Subalternas (POPS), conduzido pelo Colectivo Ayllu, um grupo colaborativo de pesquisa e ações artístico-políticas.

Para a curadoria, “a plataforma da 3ª Frestas – Trienal de Artes investiga as possibilidades, potências e desafios que transitam por múltiplos ecossistemas naturais, espirituais e subjetivos, reunindo um conjunto de tecnologias forjadas por outros corpos que, em tempos e espaços históricos distintos, foram condicionados a agenciar permanências e acessos. Para que a mostra enfim chegasse em seu momento de abertura, foi necessário recalcular algumas rotas, fabular estratégias e negociações, reimaginar oporvir. Assim, ao desaguar em Sorocaba, O rio é uma serpente intui a abertura de um portal que suscita possibilidades, reflexões e diálogos para além do agora”.

Lista completa de artistas da 3ª Trienal (local de nascimento / local de residência)

Aimée Zito Lema (Amsterdã, Holanda / Amsterdã, Holanda)
Ana Pi (Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil / Paris, França) e Maria Fernanda Novo (Olímpia, São Paulo, Brasil / Campinas, São Paulo, Brasil)
Antonio Társis (Salvador, Bahia, Brasil / Salvador, Bahia, Brasil; Rio de Janeiro, Brasil e Londres, Inglaterra)
Bronwyn Katz (Kimberley, África do Sul / Cidade do Cabo e Joanesburgo, África do Sul)
Carmézia (Maloca do Japó, Roraima, Brasil / Boa Vista, Roraima, Brasil)
Castiel Vitorino Brasileiro (Vitória, Espírito Santo, Brasil / Vitória, Espírito Santo, Brasil)
ColetivA Ocupação (São Paulo, Brasil / São Paulo, Brasil)
Colectivo Ayllu (diversos, América Latina / Madri, Espanha)
Dalton Paula (Brasília, Distrito Federal, Brasil / Goiânia, Goiás, Brasil)
Davi de Jesus do Nascimento (Pirapora, Minas Gerais, Brasil / Pirapora, Minas Gerais, Brasil)
Davi Pontes (São Gonçalo, Rio de Janeiro, Brasil / Rio de Janeiro, Brasil) e Wallace Ferreira (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil/ Rio de Janeiro, Brasil)
Denilson Baniwa (Barcelos, Amazonas, Brasil / Niterói, Rio de Janeiro, Brasil)
Denise Alves-Rodrigues (Itaporã, Mato Grosso do Sul, Brasil / São Paulo, Brasil)
Diego Araúja (Salvador, Bahia, Brasil / Salvador, Bahia, Brasil)
Ella Vieira (Sorocaba, São Paulo, Brasil / Sorocaba, São Paulo, Brasil)
Elvira Espejo (ayllu Qaqachaka, Oruro, Bolívia / La Paz, Bolívia)
Engel Leonardo (Baní, República Dominicana / Santo Domingo, República Dominicana)
Fernando Palma Rodríguez (San Pedro Atocpan, México / Região Agrícola de Milpa Alta, México)
Gê Viana (Santa Luzia, Maranhão, Brasil / São Luís, Maranhão, Brasil)
Guerreiro do Divino Amor (Genebra, Suíça / Rio de Janeiro, Brasil)
Haseeb Ahmed (Toledo, Ohio, Estados Unidos / Bruxelas, Bélgica)
Iagor Peres (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil / Recife, Pernambuco, Brasil)
Ivan Henriques (Rio de Janeiro, Brasil / Amsterdã, Holanda)
Jaider Esbell (Normandia, Roraima, Brasil / Boa Vista, Roraima, Brasil)
Johanna Unzueta (Santiago, Chile / Berlim, Alemanha)
Jonas van Holanda (Fortaleza, Ceará, Brasil / Genebra, Suíça)
Jota Mombaça (Natal, Rio Grande do Norte, Brasil / Lisboa, Portugal)
Juliana dos Santos (São Paulo, São Paulo, Brasil / São Paulo, Brasil)
Julien Creuzet (Le Blanc-Mesnil, França / Montreuil, França)
Lais Machado (Salvador, Bahia, Brasil / Salvador, Bahia, Brasil)
Laura Lima (Governador Valadares, Minas Gerais, Brasil / Rio de Janeiro, Brasil)
Lia García (La Novia Sirena) (Cidade do México, México / Cidade do México, México)
Luana Vitra (Contagem, Minas Gerais, Brasil / Belo Horizonte e Contagem, Minas Gerais, Brasil)
Madalena dos Santos Reinbolt (Vitória da Conquista, Bahia, Brasil / Petrópolis, Rio de Janeiro, Brasil – 1977)
Marepe (Santo Antônio de Jesus, Bahia, Brasil / Santo Antônio de Jesus, Bahia, Brasil)
Mário Lopes (São Paulo, São Paulo, Brasil / Munique, Alemanha e Helsinki, Finlândia)
Musa Michelle Mattiuzzi (São Paulo, São Paulo, Brasil / Berlim, Alemanha)
Negalê Jones (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil / Magé, Rio de Janeiro, Brasil )
Noara Quintana (Florianópolis, Santa Catarina, Brasil /São Paulo, São Paulo, Brasil)
Nohemí Pérez (Tibú, Colômbia / Bogotá, Colômbia)
Paulo Nazareth (Governador Valadares, Minas Gerais, Brasil / Vive e trabalha pelo mundo)
Pêdra Costa (Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, Brasil / Berlim, Alemanha)
Pedro Victor Brandão (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil / Rio de Janeiro, Brasil)
Rebeca Carapiá (Salvador, Bahia, Brasil / Salvador, Bahia, Brasil)
Renata Lucas (Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil / São Paulo e Rio de Janeiro, Brasil)
Rommulo Conceição (Salvador, Bahia, Brasil / Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil)
Sabelo Mlangeni (Driefontein, Mpumalanga, África do Sul / Joanesburgo, África do Sul)
Sallisa Rosa (Goiânia, Goiás, Brasil / Rio de Janeiro, Brasil) e Sucata Quântica (São Paulo, São Paulo, Brasil / Rio de Janeiro, Brasil)
Shirley Villavicencio Pizango (Lima, Peru / Lima, Peru)
Tabita Rezaire (Paris, França / Vincennes, França)
Thiago Martins de Melo (São Luís, Maranhão, Brasil / São Luís, Maranhão e São Paulo, Brasil e Guadalajara, México)
Ventura Profana (Salvador, Bahia, Brasil / Rio de Janeiro, Brasil)
Vijai Patchineelam (Niterói, Rio de Janeiro, Brasil / Bélgica)

Zumvi Arquivo Fotográfico (Salvador, Bahia, Brasil)

Lista completa de artistas com obras comissionadas

Aimée Zito Lema; Ana Pi e Maria Fernanda Novo; Antonio Társis; Castiel Vitorino​ Brasileiro; Dalton Paula; Davi de Jesus do Nascimento; Davi Pontes e Wallace Ferreira; Denilson Baniwa; Denise Alves-Rodrigues; Diego Araúja; Ella Vieira; Gê Viana; Haseeb Ahmed; ​Iagor Peres; Jonas van Holanda; Jota Mombaça; Juliana dos Santos; Lais Machado; Lia García (La Novia Sirena); Luana Vitra; Mário Lopes; Musa Michelle Mattiuzzi​; Negalê Jones; ​Noara Quintana; Paulo Nazareth; Pedro Victor Brandão​; Rebeca Carapiá; Renata Lucas; Rommulo Conceição; Sallisa Rosa e Sucata Quântica; Thiago Martins de Melo; Ventura Profana; Vijai Patchineelam.

Elvira Espejo Ayca, Jiwasan amayusa El pensar de nuestras filosofías

O rio é uma serpente

Ao questionar os limites entre o negociável e o inegociável na realização de uma exposição de arte contemporânea nos tempos atuais, o trio de curadoria convidado pelo Sesc investiga, na Trienal, as possibilidades, as potências e os desafios que transitam por múltiplos ecossistemas naturais, espirituais e subjetivos, reunindo um conjunto de tecnologias forjadas por outros corpos que, em tempos e espaços históricos distintos, foram condicionados a agenciar permanências e acessos como único modo de garantir a manutenção de suas existências.

A serpente como metáfora expandida por sua ampla cosmologia nas mais diferentes narrativas míticas e culturais atua como mirada para discutir o tempo não linear e os efeitos das inúmeras contradições destravadas pelo avanço do capital neoliberal e pelos processos sistêmicos de captura de subjetividades como geração de valor e reencenação de uma ética colonial.

Das curvas dos rios navegados durante a viagem de pesquisa dos curadores em outubro de 2019, surgiram as palavras cheias de imagem que deram nome ao título-estopim da 3ª edição de Frestas. Segundo o trio curatorial, “foram as formas serpenteadas por um tempo não linear que nos ajudaram a traduzir as experiências intangíveis dos contratos, conflitos e acordos que vivenciamos, bem como das estratégias de solidariedades praticadas por todos aqueles que fazem parte da plataforma Frestas. O rio é uma serpente porque se esconde e camufla e, entre o imprevisível e o mistério, cria estratégias em seu próprio movimento”.

A pesquisa para esta 3ª edição se iniciou com processos de escuta e trocas com diferentes agentes culturais de Sorocaba e região, expandindo-se para Boa Vista e para a terra indígena Raposa-Serra do Sol, em Roraima; Manaus e arredores do rio Tupana, no Amazonas; Belém, no Pará; Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí; Alcântara e São Luís, no Maranhão.

Ao desaguar em Sorocaba, O rio é uma serpente retoma o diálogo com a cidade articulando olhares para suas geografias e possibilidades de afetação, encontro e memória com agentes, coletivos, grupos, artistas, centros de cultura independente, rádios e bibliotecas comunitárias. Desse modo, cria novas paisagens questionando de que forma códigos e linguagens são criados e quais mecanismos compactuam com a manutenção de infraestruturas que regulam dinâmicas de poder, legitimam discursos, condicionam acessos, travam a crítica e forjam uma ideia de pacificação e consenso.

Denilson Baniwa, Parte da obra Nhíromi, 2020-2021

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