Durante três dias, programação gratuita ocupa unidades da capital, interior e litoral; nas artes visuais, exposições discutem inteligência artificial, território, fotografia, ciência, acervos e a presença feminina na arte urbana
Entre 11 e 13 de setembro, o Sesc São Paulo transforma suas unidades na capital, no interior e no litoral em uma extensa programação cultural para celebrar os 80 anos da instituição. Música, teatro, dança, circo, cinema e atividades para diferentes públicos fazem parte do festival, mas as artes visuais ocupam uma posição especialmente abrangente nesse percurso, com exposições que permitem atravessar algumas das questões presentes na produção artística contemporânea.
Criado em 13 de setembro de 1946, o Sesc chega às oito décadas com 44 unidades em funcionamento no estado de São Paulo. Ao longo desse período, sua atuação se expandiu da saúde, alimentação e assistência social para incorporar cultura, educação, esporte, meio ambiente, tecnologia, diversidade e acessibilidade.
No aniversário, essa presença territorial ajuda a definir a própria escala do festival. Em vez de concentrar a celebração em um único espaço, a programação se espalha pela rede e coloca em diálogo projetos de naturezas bastante distintas. Para quem acompanha as artes visuais, o fim de semana oferece um roteiro que vai da inteligência artificial à fotografia, da relação entre arte e ciência às representações do território brasileiro.

O Mundo Atraves da IA. Foto: Sergio Fernandes. Exposição no Sesc 24 de Maio.
Inteligência artificial como matéria do presente
No Sesc 24 de Maio, O Mundo Através da IA reúne artistas brasileiros e internacionais para discutir os impactos sociais, políticos e ambientais provocados pela inteligência artificial.
Ao levar o debate para o espaço expositivo, a mostra aproxima uma tecnologia cada vez mais incorporada à vida cotidiana de questões que ultrapassam sua dimensão técnica. A inteligência artificial passa a ser observada também a partir das transformações que produz nas imagens, nas relações sociais e nas maneiras pelas quais percebemos e representamos o mundo.
É um dos projetos que melhor situa a programação comemorativa no presente: aos 80 anos, uma instituição marcada pela formação de públicos coloca em exposição uma tecnologia que vem alterando justamente as formas de produzir, circular e interpretar imagens.

Exposição Mire Veja: MAM São Paulo Visita o Sesc Bom Retiro.
Dois acervos colocados em diálogo
Outra perspectiva aparece em Mire Veja: MAM São Paulo Visita o Sesc Bom Retiro, no Sesc Bom Retiro, que estabelece um encontro entre obras dos acervos do Museu de Arte Moderna de São Paulo e do próprio Sesc.
Em uma programação dedicada à memória de oito décadas, a presença dos acervos ganha uma dimensão particular. Colecionar não significa apenas preservar objetos: significa também permitir que obras acumuladas ao longo do tempo sejam reorganizadas, revisitadas e colocadas diante de novos públicos.
A exposição insere, assim, a história institucional no presente, fazendo da coleção não um arquivo encerrado, mas matéria capaz de produzir novas relações.
Mulheres entre arte e ciência
No Sesc Casa Verde, a exposição NÓS: Arte & Ciência por Mulheres integra a programação com uma investigação dedicada à produção científica, intelectual e artística de mulheres. A mostra abre no sábado, 12 de setembro, durante o festival.
A aproximação entre esses campos também amplia o entendimento sobre aquilo que pode constituir uma exposição de artes visuais. Ao colocar criação artística, conhecimento científico e produção intelectual em contato, o projeto chama atenção para trajetórias e contribuições femininas em áreas historicamente atravessadas por desigualdades de representação e reconhecimento.

Éder de Oliveira, Quintino, 2023. Foto: Octavio Cardoso. Exposição Delírio Tropical no Sesc Pinheiros.
Mais de 130 artistas observam o território brasileiro
No Sesc Pinheiros, Delírio Tropical: Recanto apresenta uma das exposições de maior escala entre os destaques do festival. Com obras de mais de 130 artistas, a mostra articula reflexões sobre território e sobre a construção imagética do Brasil.
A amplitude do conjunto permite pensar o país não como uma imagem homogênea, mas como território produzido por diferentes experiências, perspectivas e maneiras de representar suas paisagens e identidades.
Dentro de uma celebração que se estende por unidades de diferentes regiões do estado, essa discussão ganha outra camada: o próprio deslocamento do público entre exposições, cidades e unidades evidencia como a cultura também se constrói a partir de múltiplos territórios.
Veja programação completo do Sesc Pinheiros aqui.

Lita Cerqueira, Lambada. No Sesc Pompeia.
Lita Cerqueira e o direito de olhar
A fotografia ganha destaque no Sesc Pompeia com Ofício: Luz: Lita Cerqueira: Direito de Olhar.
A presença de Lita Cerqueira no roteiro de aniversário chama atenção para uma trajetória construída por meio da fotografia e para a importância do olhar na formação de outras representações da sociedade brasileira. Dentro do conjunto de exposições do festival, seu trabalho acrescenta uma perspectiva na qual imagem, memória e experiência social se encontram.
A rua no feminino
Já o Sesc Santo Amaro recebe RUA: substantivo feminino, exposição que reúne artistas ligadas à ampliação da presença feminina na arte urbana brasileira.
O espaço público aparece aqui simultaneamente como suporte, território de criação e lugar de disputa por visibilidade. Ao reunir diferentes artistas, a exposição permite observar como linguagens desenvolvidas nas ruas também transformaram os limites tradicionalmente estabelecidos entre cidade, intervenção e artes visuais.
Oito décadas de cultura e formação de público
O conjunto dessas exposições ajuda a observar uma dimensão que ultrapassa os três dias de aniversário. Em 2025, mais de 30 milhões de pessoas passaram pelas unidades do Sesc São Paulo. No mesmo período, somente a programação cultural reuniu mais de 11 mil apresentações de teatro, dança, circo e música, alcançando aproximadamente 2,5 milhões de espectadores.
Nas artes visuais, a programação do Festival Sesc 80 anos coloca lado a lado temas, gerações e linguagens muito diferentes. Inteligência artificial e fotografia, ciência e arte urbana, acervos históricos e investigações sobre a construção visual do território brasileiro aparecem simultaneamente em diferentes pontos da cidade.
Esse caráter descentralizado talvez seja uma das imagens mais representativas da celebração. Aos 80 anos, o Sesc não comemora sua trajetória com uma única exposição retrospectiva, mas com uma rede de experiências distribuídas por suas unidades — fazendo do próprio acesso à cultura parte da celebração.
Além das artes visuais, os três dias incluem uma extensa agenda de música, teatro, dança, circo e cinema, com nomes como Silva, Elba Ramalho, Rosa Passos, Rincon Sapiência, Eliana Pittman, Rashid e Violeta de Outono, além de espetáculos nacionais e internacionais e sessões especiais de cinema.

Mudanças no galinheiro. Foto: Mariana Chama.
O Festival Sesc 80 anos acontece nos dias 11, 12 e 13 de setembro de 2026, nas unidades do Sesc São Paulo na capital, interior e litoral. Durante os três dias, as atividades que normalmente possuem venda de ingressos serão gratuitas, com exceção da programação do Festival Mirada. A distribuição de ingressos começa em 9 de setembro, às 17h, pelo Portal Sesc São Paulo; atividades com entrada livre e formas de acesso variam de acordo com cada programação. Veja a programação completa aqui.


