Tela de 1918, pertencente ao Museu Nacional Thyssen-Bornemisza, fica em São Paulo até dezembro e será apresentada ao lado de Tarsila do Amaral e outros nomes do modernismo brasileiro.
A Pinacoteca de São Paulo recebe, a partir de 5 de setembro, uma visitante que muda a escala de seu acervo modernista. O Disco, de Fernand Léger, pintado em 1918 e pertencente ao Museu Nacional Thyssen-Bornemisza, de Madri, ocupa uma das salas da exposição Pinacoteca: Acervo, no edifício Pina Luz. A escolha do lugar é tão importante quanto a obra. Em vez de isolá-la como uma peça estrangeira em trânsito, o museu a coloca frente a frente com trabalhos de Tarsila do Amaral, Flávio de Carvalho, Vicente do Rego Monteiro e Emiliano Di Cavalcanti, recuperando uma rede de influências que atravessou o Atlântico e ajudou a formar a arte moderna brasileira.
A tela pertence a um momento decisivo da trajetória de Léger. Depois de atuar como soldado durante a Primeira Guerra Mundial, o artista voltou à pintura interessado nas formas e nos ritmos impostos pela vida industrial. Em O Disco, círculos, linhas e planos geométricos se cruzam em uma composição de cores intensas, próxima da abstração. Máquinas, velocidade e a nova paisagem urbana aparecem menos como temas representados do que como princípios de construção da imagem. É uma pintura que transforma movimento em estrutura.
Esse vocabulário encontraria terreno fértil entre artistas brasileiros que passaram por Paris a partir dos anos 1920. Tarsila estudou com Léger em 1923 e levou para sua própria produção o interesse pela geometrização, pelos contrastes e pela síntese das formas. A aproximação pode ser percebida em obras como A Negra, de 1923, e nas paisagens da fase Pau-Brasil. O ateliê parisiense de Léger também esteve ligado à formação de outros artistas brasileiros, e suas ideias continuaram repercutindo décadas depois, inclusive entre nomes associados à abstração e ao geometrismo, como Lygia Clark e Milton Dacosta.
Para Yuri Quevedo, curador do acervo da Pinacoteca, o encontro permite observar não apenas uma influência, mas o modo como uma linguagem artística é transformada quando muda de contexto. “O embate entre a pintura de Léger e obras como São Paulo (1924), de Tarsila do Amaral, nos permite avaliar como as vanguardas europeias, por exemplo o cubismo, se transformaram na experiência brasileira”, afirma. A própria lógica de Pinacoteca: Acervo, inaugurada em 2020, favorece esse tipo de confronto. A exposição não segue uma linha cronológica rígida, mas aproxima trabalhos para evidenciar continuidades, rupturas e disputas na formação da arte brasileira.
A presença de O Disco integra o projeto O Thyssen Está de Visita, realizado pelo Museu Nacional Thyssen-Bornemisza, pela Embaixada da Espanha no Brasil e pela AECID, em parceria com instituições brasileiras. A iniciativa também leva ao Parque da Luz 50 reproduções de obras do museu espanhol, formando um percurso pela história da pintura ocidental. “É justamente no encontro entre coleções distintas que o museu revela sua potência”, diz Jochen Volz, diretor-geral da Pinacoteca.
A obra de Léger permanece em São Paulo até 7 de dezembro. A visita à Pina Luz dá acesso aos três edifícios da Pinacoteca, com entrada gratuita aos sábados.


