Felippe Moraes, Eledá

Não se espante se as instalações como Solfejo (apresentada em 2019 na FIESP) e os projetos como Eledá, (sua nova série de fotografias), de Felippe Moraes, pareçam pensar e se organizar com uma ordem muito precisa e determinada, isso envolve toda uma preparação. Trata-se de uma introdução para te fazer entrar em um mundo complexo, por vezes interativo, no qual o pensar será muito solicitado, e estaremos sujeitos a devaneios profundos. Se no trabalho de Felippe Moraes tem um pouco do rigor de Mondrian, encontramos também o fervor de Joseph Beuys.

Cito esses dois artistas porque com o trabalho de Felippe Moraes é impossível não pensar na antroposofia de Rudolf Steiner (1861 – 1925) que marcou ambos. Lembre-se que a antroposofia tira sua concepção do Karma e da reencarnação, e também do cristianismo (a ideia de Cristo como salvador do mundo). Ele afirma a existência de um mundo espiritual que está na base do mundo material. A teosofia, teoria do saber divino onipresente no mundo, doutrina formulada por Helena Blavatsky (1831 – 1891) adicionada de ocultismo, espiritismo e outras características emprestadas pelo hinduísmo e budismo… promete revelar verdades fundamentais sobre a ordem do mundo, tomando um certo distanciamento dos velhos monoteísmos das Igrejas e da racionalidade científica moderna que separa o Homem da Natureza. Em Eledá, Felippe Moraes traz o culto e ritual afro-brasileiros que fazem parte integral do seu modo de pensar e viver.

No seu trabalho Homenagem à Oxalá, sobre o qual o artista me pediu para comentar, ele se considera uma escultura viva. Cada ser vivo o é em si mesmo. Esta é uma série de quatro imagens em que vemos o artista de costas nuas. Sua cabeça passa de cabelos raspados para bem curtos, e, enfim, ao tingimento louro claro. A ordem fica a critério de quem vê – se ele raspou sua cabeça para apagar o louro, ou do contrário, se ele esperou que seus cabelos crescessem para se transformar e cobrir a cabeça de um ouro simbólico? Esse trabalho fotográfico faz de sua vida uma encenação. A arte como catarse, individual e coletiva. O trabalho de arte penetra em uma pessoa assim como a pessoa internaliza o trabalho de arte. É preciso que ambos se afoguem um no outro, diria Joseph Beuys.

Felippe Moraes é um xamã otimista de um pré-apocalipse anunciado pelo coronavírus. Esse fanático por carnaval vê em todas as coisas as suas energias positivas, e os elos invisíveis que nos unem uns aos outros e à Natureza.

Depois de seu gesto de purificação em Homenagem a Oxalá, que ele nos permite vislumbrar, ele, que entrevê o infinito, talvez queira assegurar aos humanos a sua posição real no plano do universo, salvando-nos da degradação das verdades arcaicas que são as bases de todas as religiões ao nos fazer entrar em seu ritual. Assim, ajuda-nos a descobrir – cada um a seu tempo – a união fundamental da qual todos nós surgimos.

O poeta do qual fala Heiddegger, é aquele que, pela sua criação, manifesta o mistério do mundo por querer mostrá-lo… Ele tenta reencontrar a essência da vida e de seu surgimento. Ele está em busca de uma memória histórica, humana, que se alimente a partir de suas lembranças pessoais a fim de estabelecer um passado comum. Felippe Moraes é verdadeiramente um poeta.

Tradução: Jamile Ratter

Marc Pottier, curador francês que vive entre Paris e Rio de Janeiro

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