Mostra sobre Byblos revela não só a história de uma das cidades mais antigas do mundo, mas também as perdas culturais causadas por conflitos atuais
A aguardada exposição sobre a cidade milenar de Byblos, em cartaz no Institut du Monde Arabe, em Paris, abriu ao público marcada por uma ausência simbólica: obras fundamentais não chegaram a tempo — ou simplesmente não puderam sair do Líbano. O motivo é direto e incontornável: a escalada recente do conflito na região, que afetou o transporte e a segurança dos artefatos.
Prevista inicialmente para 2024, a mostra foi adiada justamente por conta da instabilidade geopolítica. Mesmo com parte das peças tendo chegado à França em fevereiro de 2026, um comboio com cerca de 28 esculturas em pedra foi cancelado após novos episódios de violência. Além disso, itens considerados extremamente valiosos — como um obelisco do terceiro milênio antes de Cristo — foram retidos no Líbano por questões de segurança.
O resultado se materializa no espaço expositivo: vitrines vazias e lacunas que não são falhas curatoriais, mas testemunhos diretos da guerra. Para a curadoria, essas ausências acabam se tornando parte do discurso da exposição, transformando o percurso em uma reflexão sobre fragilidade, deslocamento e preservação do patrimônio em tempos de crise.
Ao mesmo tempo, a mostra reafirma a importância histórica de Byblos, considerada uma das cidades continuamente habitadas mais antigas do mundo e peça-chave na difusão do alfabeto fenício e nas rotas comerciais do Mediterrâneo. Com quase 400 objetos reunidos, a exposição busca reconstruir essa trajetória milenar — ainda que parcialmente interrompida pelas circunstâncias contemporâneas.
Mais do que um evento expositivo, o projeto se transforma em um gesto de resistência cultural. Em meio à instabilidade, curadores e instituições apostam na arte como forma de preservar memórias e manter viva uma história que, mesmo ameaçada, insiste em atravessar o tempo.

