Exposição-projeto reúne obras em vídeos na fachada e site da Galeria Simone Cadinelli

A galeria Simone Cadinelli Arte Contemporânea, no Rio de Janeiro, inaugura a partir de hoje de 2020 a exposição Como habitar o presente? Ato 1 – É tudo nevoeiro codificado, com obras em vídeo de 14 artistas de todo o Brasil, instaladas na vitrine da galeria localizada na Rua Aníbal Mendonça, em Ipanema. Os vídeos ficarão ligados 24 horas por dia, e poderão ser vistos por quem estiver passando no local. A exposição será replicada no site da galeria, com informações completas das obras e dos artistas VEJA AQUI.

Dividida em dois tempos ou segmentos, exposição “Como habitar o presente?” reúne em seu “Ato 1 – É tudo nevoeiro codificado” obras dos artistas Anna Bella Geiger (Rio de Janeiro), Aslan Cabral (Recife), Fernando Velázquez (Montevidéu, radicado em São Paulo), Gabriela Noujaim (Rio de Janeiro), Jeane Terra (Minas Gerais), Kammal João (Rio de Janeiro), Luzia Ribeiro (Rio de Janeiro), Manata Laudares (duo dos artistas Franz Manata e Saulo Laudares, que vivem no Rio de Janeiro), Moisés Patrício (São Paulo), Nadam Guerra (Rio de Janeiro), PV Dias (Belém), Roberta Carvalho (Belém do Pará), Regina Pessoa (São Paulo) e Vinícius Monte (Rio de Janeiro).

A curadora Érika Nascimento chama a atenção para a possibilidade de sermos “espectadores atuantes num tempo fora de controle, em um planeta que nos alerta sobre os impactos de uma terra cansada, entrando em colapso, enquanto estamos imersos em anseios, solidão, mortes, incertezas, negacionismos, vídeo-chamadas, zoom, emojis, redes sociais, memes, algoritmos, fakes news e infinitas lives. Vivendo em um mar de saudades e nostalgias diárias registradas em #tbt, em uma tentativa de reconexão com o mundo”.

A exposição Como habitar o presente? Ato 2 – Estamos aqui será realizada de 24 de agosto a 25 de setembro de 2020, também na vitrine da galeria com espelhamento e mais informações no site, e com outros treze artistas.

Gabriela Noujaim, O Fogo (2’10”, 2019)

 

 

POR ERIKA NASCIMENTO

Como habitar o presente?

Ato 1 – É tudo nevoeiro codificado

(…) existem três presentes, o presente do passado, que é a memória, o presente do futuro, que é a expectativa, o presente do presente, que é a intuição (ou a atenção). Este triplo presente é o princípio organizador da temporalidade (…) (RICOUER, 2000, p. 360) 

Esta é uma exposição, dividida em dois atos, que acontece num mundo pandêmico onde a noção de tempo, passado, presente e futuro parece estar dilatada. Neste sentido, convido a pensarmos numa distensão do tempo, onde habitamos três presentes: presente do passado (memória), presente do presente (atenção) e o presente do futuro (expectativa).

Nesta lacuna temporal, estamos longe de encontrar respostas. Resta-nos lançar provocações de como estar num entre-lugar. Assim, abrimos espaços para entrar no primeiro ato, com nossos corpos suspensos neste presente fragmentado, lutando pela existência da humanidade como se o corpo estivesse deslocado da matéria e flutuasse pelo fluxo dos rios. Como diz Mia Couto, “o rio é como o tempo!”. Como se neste lugar de suspensão pairasse um nevoeiro, onde a obscuridade desta densa neblina na nossa retina nos impedisse de enxergar até sermos transportados para uma cidade esvaziada de vidas.

Estamos diante de um tempo hiperconectado e distópico, que sofre tropeços e acidentes, que pode se estilhaçar. Nesta aporia de ser-no-tempo, que a nossa visão de um presente possível parece estar embaçada, é como se entrássemos noutro estágio de vida, outro mundo, onde somos espectadores atuantes num tempo “fora de controle”, num planeta que nos alerta para os impactos de uma terra cansada, entrando em colapso, enquanto estamos imersos em anseios, solidão, mortes, negacionismos, videochamadas, zoom, emojis, likes, redes sociais, memes, algoritmos, fakes news e infinitas lives.

Roberta Carvalho, Frame do video cinema líquido

Você está diante de uma exposição-projeto, no sentido de projeção para novos mundos possíveis. Numa época em que o vírus Sars Covid-19 afasta nossos corpos e impõe limites e barreiras no cotidiano, nos colocando num estado de angústia e impotência, evidenciando grandes abismos sociais já existentes, como a precarização da vida. As condições impostas pelo vírus não são as mesmas para todos que vivem neste lugar chamado Brasil.

Ao mesmo tempo em que tentamos lidar com os impactos do vírus, somos transportados para uma desaceleração temporal. Quase que numa ficção, entramos num lugar de descompasso com a velocidade de informações que recebemos diariamente através das redes sociais, sites e whatsapp. Com a impossibilidade da experiência corpórea, nos adaptamos às formas de estar no mundo, num território digital, onde estamos sempre online, através das telas dos celulares. Num contra-exemplo da velocidade e disponibilidade da cultura da imagem, somos afetados por outras condições de interações e mergulhamos numa tentativa de reconexão com o mundo.

Neste momento de incertezas, onde esperamos por curas científicas e, até mesmo espirituais, ativamos dispositivos imaginários como experienciar sonhos e rupturas de compartilhar o presente e imaginar o futuro. Seria possível deglutir a memória e fabricar sonhos? Um chamado para acordarmos para  “(…) reconhecer essa instituição do sonho não como experiência cotidiana de dormir e sonhar, mas como exercício disciplinado de buscar no sonho as orientações para as nossas escolhas do dia a dia” (KRENAK, 2019).

É preciso encontrar um novo ritmo para o tempo que costumávamos viver, costurar novos mundos possíveis para uma sociedade mais justa, e confiar na potência do amor no intuito de criar formas de reexistir, buscar por estratégias, estranhamentos, horizontes e preenchimentos de como habitar o presente. Uma reconciliação com o tempo. Compartilhar e expandir este tríplice do eterno presente e criar um presente-futuro possível, deste que está em transição, no limiar, no centro da nossa existência.

 

OBRAS

Uma breve descrição dos trabalhos:

 Anna Bella Geiger – “Out of control” (1’29”, 2002), vídeo sonoro e em cor. VT Paula Barreto

Com uma filmadora noturna, muito utilizada por militares, em uma ação performática, a artista traça um círculo com fogo no chão da EAV Parque Lage. Ao subir a escadaria, em movimentos repetitivos de descida e subida, a artista nos alerta: “out of control”, estamos fora de controle.

Aslan Cabral – “É tudo stories / dark social feelings” (7′, 2018-2020), vídeo

Uma sequência de 28 cápsulas de 15 segundos, cada, totalmente produzidos através da plataforma instagram/stories, e originalmente disseminados em redes sociais, através de perfis anônimos.

Fernando Velázquez – “TPS” [“Tempo por Segundo”], 6 vídeos de 30” cada, 2020

Uma espécie de atlas do império do invisível, um decalque em escala de 1:1 do estado da arte das coisas do mundo. Um oráculo, um espelho, que nos fala de nós mesmos a partir das nossas lembranças e preconceitos, uma fogueira que nos convida a pensarmos o paradoxo da memória, pautados na velocidade quântica dos dados e da mente, hoje, em embate direto com a paralisia dos corpos e suas marcas.

Gabriela Noujaim  “O Fogo (2’10”, 2019), vídeo

A mão da artista tenta controlar a chama da vela, estabelecendo um jogo de confiança entre poder e desejo. No limiar entre o tempo e a dor, sugere a palavra “amor”, escrita em sua mão. Diante de tantas queimadas nas florestas e crimes ambientais, a artista alerta a sociedade sobre os excessos autorizados pelo modelo político e econômico em que vivemos.

Jeane Terra – “Fábrica de Sonhos” (5”49’, 2009), vídeo

Decifra-me ou te devoro. O trabalho se insere na série de vídeos da artista sobre as relações entre o sujeito e o vazio, orquestrados pela abordagem das nuances da transitoriedade. Na formação da memória, a artista colhe a antimatéria, o que se trama em torno do vazio. Alegoria da invenção invisível do ser. Teatro sensível, forjado pela condensação inexorável do tempo e que, com seu gesto, seu giro e o deglutir das projeções, da máquina de algodão-doce, a artista põe ao serviço do instante, do inconsciente, indestrutível e atemporal.

Kammal João – “Limiar” (8’57”, 2020), vídeo. Imagens e organização: Kammal João. Edição e som: Gabriel Martinho e Kammal João

O trabalho parte de fragmentos do livro “O herói de mil faces”, de Joseph Campbell, sobre o arquétipo do herói, que cruza mitologias e narrativas de distintas tradições ao redor do mundo, buscando seus pontos em comum. Este vídeo é um desdobramento da série “Limiar”, feita a partir de desenhos em pirografias.

Luzia Ribeiro – “Bacante: Cinema vivo na praça” (4’44”, 2009), videoperformance

Em uma praça, encerrados em uma caixa-preta de madeira medindo 3x3x3m, iluminada por dentro, uma bacante dança ao som de uma tamorra tocada pelo percussionista Maurizio Belli. A Bacante seduz e marca um novo ritmo ao tempo, um êxtase. Através de um pequeno orifício, as pessoas que circulavam pela praça puderam ver, durante 1’40’’, o espetáculo. A obra faz alusão à caixa-preta dos Irmãos Lumière, ao cinema de rua, e ao “cineminha” feito dentro de caixas de sapatos que marcaram a infância da artista.

Manata Laudares – “Pesadelo Nightmare” (8’48”, 2016), vídeo

Uma cidade esvaziada de vida, onde as pessoas parecem suprimidas, é o prenúncio de um tempo em suspensão. O som surdo da ventania, como num sonho que captura e aprisiona, reforça a imensidão de um mar que anseia pela volta à descivilização.

Moisés Patrício – “Aceita?” (10”, 2020), vídeo em loop

Pensada e produzida por aparelho celular via redes sociais, a obra integra um projeto iniciado há cinco anos, que tem como conceito e estética a baixa resolução, formato quadrado e a repetição. Um diário, em que o artista em seu perfil no instagram pensa a atualidade, mostra suas angústias e “bendições”, e reflete sobre a colaboração intelectual e manual da população afro-brasileira, impacto da escravidão na realidade atual, neoescravidão, geopolítica, imigração, espiritualidade africana e da diáspora entre tantos outros assuntos. Para o artista, a comunidade negra espalhada pelo mundo vive o isolamento social desde o período da escravidão, em que “nosso corpo sempre foi a nossa única casa, e sempre flertamos com a doença e a morte”. “Nada mudou; os corpos elegidos para serem sacrificados é o corpo preto; a mão que mantém a cidade limpa é a mão preta; a mão que mantém a economia girando é a mão negra; a mão que cuida dos doentes (enfermeiros) é a mão preta; a mão que luta por direitos humanos é a mão preta; a mão que faz boas troca no mundo é a mão negra”.

Nadam Guerra – “Materializador de sonhos” (2’06”, 2014), vídeo

O trabalho integra a série em que o artista faz placas de cerâmica a partir de seus sonhos, e assim descobriu que elas formavam um oráculo pessoal. A série é formada de 78 placas de cerâmica (20 x 30 cm/cada) e livros, um baralho e alguns vídeos. Materializar sonhos é um convite para se conectar com a imaginação, a arte e a magia.

 PV Dias – “Embaixo da Escola” (40”, 2020), vídeo

No formato de “gif”, o corpo-artista carrega um retrato ao passo que é lançado no vazio do corredor de armários da EAV Parque Lage, em um contrafluxo do tempo levado por um som envolvente, quase uma ficção, ao mesmo tempo aponta para questões sobre o dilema do artista enquanto produtor da sua subjetividade, dos territórios de educação, e dos cenários possíveis para a legitimação dessa produção.

Regina Pessoa – “CONFIO” (Série Desatadora), 2’26”, 2019, vídeo

A obra cria uma relação com o sagrado, e aborda a ligação da artista com o desenho e com trabalhos manuais. No vídeo, o movimento das mãos da artista define o formato de um patuá enlaçado com linha branca, de forma contínua, quase ritualística ao mesmo tempo que guarda e protege a palavra “CONFIO”. Esta ação remete ao fio do destino tecido pelas Moiras na mitologia grega, e também ao cosmos e à vida cotidiana, nos mantos andinos.

 Roberta Carvalho – “Cinema Líquido” (1’16”,2020), vídeo

Cinema Líquido traz a condição cinemática e imaterial da imagem projetada de um corpo em movimento sobre os fluxos dos rios. O corpo que se imprime na superfície das águas barrentas, típicas de rios da Amazônia, está em constante movimento tal como as águas. Águas são caminhos, água é vida. Os rios são fluxos de resistência ao longo da história, buscam formas de transbordamento e de manutenção de sua natureza imparável e irreprimível. Mergulhar no rio é mergulhar na história. É reconhecer-se tal qual, água que somos. Cinema líquido traz uma confluência dos fluxos e das existências em movimento.

Vinícius Monte – “Reconciliação” (1’35”, 2018), videoperformance

O trabalho é um desdobramento do processo de autoconhecimento iniciado na produção de um tarô autoral, em que o artista transforma em ação psicomágica as experiências reveladas na construção do oráculo.

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