Rita Flores afirma ter sido pressionada e ameaçada para colaborar com o serviço de segurança russo, que teria usado a artista em operações contra críticos do Kremlin
Rita Flores, nome artístico de Margarita Konovalova, afirma ter sido recrutada pelo Serviço Federal de Segurança da Rússia, o FSB, para vigiar artistas e ativistas críticos ao governo de Vladimir Putin. Em entrevista concedida ao próprio advogado, Dmitry Zakhvatov, e publicada pelo Port Media, veículo criado por jornalistas russos exilados, ela descreveu uma operação que, segundo seu relato, transformou relações pessoais e círculos artísticos em instrumentos de vigilância.
A aproximação com o aparato de segurança teria começado em 2023, depois de intensa pressão e ameaças contra sua família. Konovalova já havia sido presa em 2020 por participar, com o Pussy Riot, de um protesto contra a violência policial nas proximidades do Kremlin. Segundo ela, depois de aceitar colaborar, recebeu treinamento para coletar informações sobre artistas, ativistas contrários à guerra e nomes da cena contemporânea na Rússia e em países vizinhos. Uma de suas tarefas era identificar trabalhos considerados ofensivos ao país. “Se vejo uma arte ruim, na opinião do FSB, que insulta a pátria, tenho que ligar e dizer ‘prendam ele!’”, afirmou.
Entre os alvos estavam o artista de rua Philipp Kozlov, conhecido como Philippenzo, o performer Pavel Krisevich e Pyotr Verzilov, ex-namorado de Konovalova, ex-editor da Mediazona e integrante dos coletivos Voina e Pussy Riot. Parte das informações, segundo ela, era banal. Onde Philippenzo ia depois do ateliê, onde comia macarrão, qual cerveja bebia. A vigilância ganhou outra dimensão quando o artista contou a ela que preparava o mural Izrossilovanie, palavra criada a partir dos termos russos para “Rússia” e “estupro”. Konovalova tentou convencê-lo a desistir. O agente que a supervisionava, contou, apresentou duas alternativas, prisão com uma pena pesada ou a saída do artista do país.
Philippenzo acabou detido no aeroporto de Domodedovo e condenado duas vezes antes de emigrar para a Lituânia. No caso de Krisevich, os conflitos provocados por Konovalova se prolongaram até que ele e a mulher deixaram a Rússia, em dezembro de 2025. Mas o plano mais grave envolvia Verzilov. Segundo seu depoimento, o FSB queria que ela o atraísse para a Sérvia, onde agentes russos o esperariam em um café para sequestrá-lo e matá-lo. A recompensa oferecida ficaria entre 1 milhão e 3 milhões de rublos. Konovalova adiou a operação até revelar o plano ao próprio namorado e se casar com ele, numa tentativa de impedir que a missão avançasse.
Após a publicação da entrevista, Konovalova escreveu no Instagram que estava “segura há uma semana” e que finalmente podia contar o que havia acontecido. O período de colaboração, segundo ela, deixou consequências profundas, incluindo depressão prolongada, desrealização, transtorno de estresse pós-traumático e tentativas de suicídio. O último pagamento que afirma ter recebido do FSB foi em junho. No início da colaboração, teria recebido 30 mil rublos em uma única parcela. Mais tarde, passou a receber 50 mil rublos por mês. O relato coloca no centro da repressão russa não apenas os grandes nomes da oposição, mas também a rotina dos artistas, seus ateliês, amizades e projetos, tratados pelo aparato de segurança como peças de uma rede de vigilância.


