evento reúne INTERVENÇÕES ARTÍSTICAS INSPIRADAS PELO MAIS ANTIGO HOSPITAL PSIQUIÁTRICO DO BRASIL

Em abril de 2021, os nove últimos moradores pacientes do Complexo Hospitalar do Juquery foram transferidos e o hospital encerrou o serviço de assistência psiquiátrica de longa permanência. Pensando nisso, a 4º edição do Soy Loco Por Ti Juquery, primeiro festival de artes a ocupar o espaço do antigo hospital (o qual foi pioneiro na criação da arte como terapia através de Osório Cesar – que foi companheiro de Tarsila do Amaral), apresenta, de 15 a 19 de setembro, múltiplas intervenções artísticas, para homenagear o hospital que funcionou por 123 anos e que passa por uma transformação em suas atividades.

A 4º edição do Soy Loco Por Ti Juquery levará 13 atrações em diversos formatos, todas gratuitas e abertas ao público, para toda a cidade onde estão instalados o Complexo Hospitalar do Juquery e o Museu de Arte Osório Cesar. Na abertura do evento, acontece o “Pipaço”, onde serão empinadas 500 pipas roxas nos céus da cidade. Os participantes, alunos convidados de uma escola de ensino médio e funcionários do Juquery, irão escrever em sua pipa uma palavra ou frase, pensando neste momento de encerramento das internações.

Para Victor Fisch, diretor do Soy Loco Por Ti Juquery, “tem uma revolução cultural acontecendo em Franco da Rocha. Desde que o festival se iniciou, em 2018, é visível como o Juquery e a cidade vêm se transformando. O ano de 2021 é muito importante nessa história, pois os últimos moradores saíram do Juquery, fechando sua área de internações de longa permanência. É um ano muito importante para o Soy Loco também, pois tivemos que nos reinventar para criar um formato diferente, que trouxesse arte para as pessoas de forma presencial e sem gerar aglomerações”, observa.

Entre as diversas atividades que acontecerão durante a 4º edição do evento está a “Terrapia: um chamado da terra”, onde o artista Gilberto Junior utilizará tintas artesanais de terra coletadas do Parque Estadual Juquery para a pintura de um mural. Com o incêndio ocorrido recentemente no parque, que atingiu 80% de seu território, o artista planeja coletar também as cinzas e carvão do local para utilizar na obra.

Em “123 ponteiros”, o performer Elilson (que está concorrendo ao Prêmio PIPA 2021) liga para 123 moradores de Franco da Rocha. A cada telefonema, memórias, previsões e provisões sobre o Juquery serão coletadas e concatenadas a partir da frase “Estes ponteiros, como a vida, fluem, ainda que pareçam parados”, inscrita em latim no relógio da Torre Central. Posteriormente, cada participante receberá, via correios, um envelope com uma cartão metalfilm (espelho) contendo a frase, um texto impresso com um relato sobre as conversas em torno do Juquery e instruções de ações elaboradas e partilhadas em conjunto com os moradores, realizadas durante o festival.

O longa inédito “O Livro de Heydrich”, de Clêmie Blaud, será exibido no dia 18/09, sábado, às 17h30, no Teatro de Arena Ubirajara Ferreira Braga – Bira, na área do MAOC, seguido de uma roda de conversa com a diretora do filme. O filme investiga o delírio vindo da história do nazismo, pela perspectiva de um usuário de serviço de saúde mental de um CAPS de São Paulo. Outros usuários manifestam delírios de ordem histórica e política: um se diz judeu, outro se diz anarquista, outra diz ter conhecido Fidel Castro. A obra entrelaça documentário e ficção, num trabalho coletivo das equipes de saúde mental e de cinema.

Já a instalação “Do Juquery para o mundo” consiste em uma intervenção artística dentro da área do hospital e outra fora, em praça pública da cidade. Estas intervenções ocorrerão em árvores escolhidas como suportes para a instalação. Serão amarrados em seus troncos fios de varal com camisetas brancas penduradas com letras estampadas e juntas formarão a frase do título do projeto. A proposta é transformá-los através da intervenção artística junto a pessoas da cidade. As pessoas enxergarão o varal transformado em mural artístico, com fotos de algumas obras do acervo do Museu de Arte Osório Cesar, e poderão co-criar com a artista pintando as camisetas. Ao final da intervenção, o varal estará colorido.

Outra atividade que merece destaque é a “Conexão Franco-Coréia”. Nela, a artista sul-coreana Eun-hye Jung, portadora de síndrome de down, encontra os artistas francorrochenses Antonio Rosas Satílio, que passou pelo Juquery, mora na primeira Residência Terapêutica de Franco da Rocha e instalou um ateliê de pintura no CAPS II do município; e Nailton Silva Fernandes, que frequenta as oficinas culturais da prefeitura e produz entre os equipamentos de cultura da cidade, usuários do CAPS e reconhecidos pela qualidade de seus trabalhos. Em um projeto de desenhar pessoas ao redor do mundo de forma virtual, Eun-hye propõe uma troca de experiências, uma conversa e troca de desenhos. O encontro será transmitido ao vivo pelo youtube do festival.

Com mensagens de empoderamento, a intervenção “Não Dorme Maria Acorda”, as Flores Odisseianas tomam a rua para recitar poesias e representar mulheres que foram impedidas de se expressar. Com dose de loucura e resistência, o grupo entrega oralidade e potência na voz, além de flores artesanais para as francorrochenses, acompanhada de uma muda de suculenta e de uma arte no formato imã de geladeira inspirada na planta “dormideira” com a mensagem, “Não Dorme Maria Acorda”.

No “Itinerário Juquery”, a dupla Massonettos, formada por Ricardo e Mariana Massonetto, convida o público para uma viagem de jardineira, um clássico ônibus do Juquery, com música acústica, performance e improvisos cênicos, enquanto realiza um percurso ao redor do complexo. A performance, que conta com as participações especiais de Ranulfo Faria e Cecília Miglorancia, acontece nos dias 18/09 (sábado), das 15h às 17h, e 19/09 (domingo), das 10h às 12h. Os embarques serão realizados no estacionamento do MAOC por meio de senha.

“O que não pode ser esquecido quando o Juquery fecha as portas?”. Este é o tema do livro das pesquisadoras, artistas e educadoras Cibele Lucena e Flavia Mielnik, que a partir da escuta de histórias de ex-funcionárias/os, ex-internas/os e outras pessoas ligadas a luta antimanicomial, construiu a obra manualmente, com desenhos, textos e colagens, e ganhou a forma de um “livro de artista” que convida o leitor a percorrer uma paisagem complexa, carregada de camadas que precisam ficar registradas antes que se apaguem. No último dia do festival, as artistas convidam o público a conhecer o trabalho em uma roda de conversa e partilha.

O Festival se encerra no domingo, 19/09, às 15h30 com o “Cortejo Canta Liberdade” – um grito que representa a memória, a força e a luta de vidas negras que habitaram o Juquery, dando visibilidade a quem também fez parte da história. Ao som dos Tambores da Alvorada, na voz Associação Cultural do Véio Griô e Grupo de Capoeira Yorubá, o Cortejo inicia no Teatro de Arena Ubirajara Ferreira Braga – Bira, atrás do MAOC. O final do percurso será com uma Roda de Capoeira e de Vivências com os participantes compartilhando memórias do Juquery.

O formato criado em decorrência da pandemia, permite que o festival continue existindo e será repetido esse ano, instigando os artistas a inventarem formatos criativos para exibição de suas obras, seguindo as medidas de segurança à Covid-19.

O 4º Soy Loco Por Ti Juquery é um projeto aprovado via Proac. Uma idealização e produção da Trapézio Produções Culturais. Apoio do Complexo Hospitalar do Juquery. Correalização da Prefeitura de Franco da Rocha e do Museu de Arte Osório Cesar. Uma realização do Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa. O evento acontece de 15 a 19 de Setembro de 2021.

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