A recente decisão dos Estados Unidos de se retirarem da Unesco até o fim de 2026, anunciada pelo Departamento de Estado em 22 de julho, acendeu um sinal de alerta no setor cultural internacional. O governo Trump justificou a medida alegando que a organização promove “causas sociais e culturais divisivas” e se alinha aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, considerados contrários ao interesse nacional segundo a política externa “America First”. Embora a contribuição financeira norte-americana represente apenas 8% do orçamento da Unesco, especialistas alertam para os riscos simbólicos e práticos da saída de um dos países com maior número de sítios reconhecidos como Patrimônio Mundial.
O gesto insere-se num contexto mais amplo de desmonte das instituições culturais promovido pelo segundo mandato de Donald Trump. Desde janeiro, mais de 140 ordens executivas foram emitidas, com impacto direto sobre agências como o Instituto de Serviços de Museus e Bibliotecas (IMLS) e o Smithsonian. Criada para implementar cortes drásticos e controlar gastos federais, a nova Secretaria de Eficiência Governamental (DOGE), liderada por Elon Musk, tem imposto uma vigilância agressiva sobre instituições culturais. Paralelamente, projetos de lei como o apresentado pelo senador Jim Banks buscam vetar a “narrativa progressista” em museus, consolidando uma visão histórica nacionalista e excludente.
Para organizações que atuam na defesa da liberdade artística, como a Artists at Risk Connection, o cenário é preocupante. Sua diretora executiva, Julie Trébault, declarou que o afastamento da Unesco compromete os valores democráticos e a proteção do patrimônio cultural em escala global. Além disso, a instabilidade jurídica e os cortes orçamentários têm levado museus estrangeiros, como o Mauritshuis, na Holanda, a repensar empréstimos de obras a instituições norte-americanas. Em um ambiente de crescente autoritarismo cultural, o campo das artes nos EUA enfrenta um período sem precedentes — com impacto potencial sobre a produção, a circulação e a memória cultural internacional.


