Performance de Ana Dias Batista aproxima São Paulo de Potsdam ao revisitar, em corpos imóveis, as referências de descanso, arquitetura e vida aristocrática que inspiraram a residência de Ema Klabin
Durante dois domingos de agosto, o jardim da Casa Museu Ema Klabin ganha uma presença incomum. Entre a vegetação desenhada por Roberto Burle Marx e a arquitetura da residência onde a colecionadora viveu por mais de três décadas, quatro performers assumem a aparência de esculturas e passam a integrar a paisagem como se sempre tivessem pertencido a ela. É nesse intervalo entre corpo, arquitetura e encenação que se desenvolve SANS, SOUCI., trabalho de Ana Dias Batista selecionado pelo edital Jardim Imaginário 2026. As últimas apresentações acontecem em 16 e 23 de agosto, das 11h às 17h, retomando uma referência central para compreender a própria casa: o Palácio de Sanssouci, em Potsdam, na Alemanha, antigo refúgio de verão de Frederico, o Grande.
A aproximação não é apenas arquitetônica. Ao conceber sua residência paulistana, Ema Klabin incorporou elementos associados ao palácio prussiano do século XVIII, concebido como lugar de recolhimento, contemplação e prazer intelectual. Ana Dias Batista parte dessa conexão histórica para deslocá-la ao presente, substituindo a solenidade das esculturas permanentes por corpos humanos que, embora imóveis por longos períodos, carregam a instabilidade própria da performance. Os quatro atores foram caracterizados para evocar cariátides e atlantes da fachada de Sanssouci, criando no jardim uma espécie de aparição escultórica que interfere na percepção cotidiana do espaço. A imagem também estabelece uma fricção deliberada com a lógica contemporânea de produtividade, ao colocar em cena questões relacionadas ao trabalho, ao ócio, ao tempo livre e às diferentes formas de ocupar um lugar.

Performance das estátuas vivas parte de referências da pintura europeia do século XVIII. Foto: Ana Catarina Duarte/ Arquivo Casa Museu Ema Klabin
A pesquisa da artista se estende ainda ao imaginário visual do século XVIII. Pinturas de Antoine Watteau, Nicolas Lancret e Jean-Honoré Fragonard, conhecidas por representar aristocratas em jardins, encontros sociais e momentos de lazer, serviram como referências para a construção dos movimentos e das situações cênicas. Em vez de reproduzir literalmente essas imagens, os performers utilizam seus gestos e atmosferas como estímulo para improvisações que se transformam ao longo da apresentação. A aparência mineral dos personagens exigiu outro campo de investigação: durante cerca de um mês, Ana trabalhou diretamente com os atores na elaboração de figurinos, perucas, maquiagem e materiais capazes de aproximar a pele e o tecido da textura visual da pedra, fazendo com que a performance se confunda, por momentos, com a própria arquitetura do jardim.
Nesse cenário, a escolha da Casa Museu Ema Klabin ganha uma dimensão particularmente precisa. A residência preserva seus ambientes originais e abriga uma coleção que atravessa cerca de 35 séculos, reunindo desde obras de Frans Post e Marc Chagall até trabalhos de Tarsila do Amaral e Candido Portinari, além de objetos de artes decorativas, peças arqueológicas e livros raros. A intervenção contemporânea não chega, portanto, a um espaço neutro, mas a uma casa cuja arquitetura, decoração e acervo são inseparáveis da trajetória de sua proprietária e de sua maneira de construir relações entre diferentes culturas e períodos históricos. No jardim projetado por Burle Marx, a performance encontra ainda uma segunda camada de interlocução, fazendo do paisagismo não apenas um pano de fundo, mas parte ativa da experiência.

Palácio de Sanssouci, em Potsdam, Alemanha, declarado pela Unesco Patrimônio da Humanidade. Foto: Paulo de Freitas Costa / Arquivo Casa Museu Ema Klabin.
A programação de agosto amplia essa viagem entre São Paulo e Potsdam com a visita mediada Palácio de Sanssouci e a casa da rua Portugal, realizada pelo núcleo educativo da Casa Museu nos mesmos dias da performance, às 14h30. A atividade propõe observar de perto as referências do século XVIII presentes na arquitetura da residência e na coleção de Ema Klabin, antes de conduzir o público ao encontro com os performers. A combinação entre mediação e intervenção artística reforça a vocação da instituição, uma fundação cultural sem fins lucrativos dedicada à preservação, ao estudo e à divulgação da coleção e da memória da colecionadora, ao mesmo tempo em que mantém uma programação voltada à arte contemporânea, música, dança, teatro e educação. Para quem percorre o espaço em agosto, a casa deixa de ser apenas objeto histórico e passa a funcionar como cenário vivo para uma investigação sobre como diferentes épocas imaginam o tempo, o descanso e a permanência.
O Programa Jardim Imaginário 2026 apresenta, nos dias 16 e 23 de agosto, das 11h às 17h, a exposição Sans, Souci ., de Ana Dias Batista. A entrada é franca.
Nos mesmos dias, às 14h30, acontece a visita mediada Palácio de Sanssouci e a casa da rua Portugal – Experimentando museu . Inscrições pelo site da Casa-Museu.







