Busto atribuído à pioneira Harriet Hosmer permaneceu por mais de 70 anos ao ar livre nos Cotswolds, tratado pela família como um simples ornament
Um busto de mármore que passou mais de sete décadas exposto em um jardim nos Cotswolds, na Inglaterra, pode alcançar até £18 mil (aproximadamente R$ 126 mil) em leilão. A peça, coberta por líquen e durante anos considerada pela família uma escultura de pedra reconstituída, foi identificada como uma obra de Harriet Goodhue Hosmer, artista norte-americana do século XIX e uma das primeiras escultoras profissionais dos Estados Unidos.
A descoberta aconteceu durante uma avaliação rotineira de uma residência. Thomas Jenner-Fust, diretor da Chorley’s Auctioneers, percebeu que o objeto tinha uma procedência muito mais significativa do que aparentava. Datada de 1854, a escultura representa Daphne, personagem da mitologia grega e primeiro amor de Apolo. A peça traz ainda a inscrição em latim “me fecit Roma”, ou “Roma me fez”, referência à cidade onde Hosmer desenvolveu grande parte de sua carreira.
O trabalho ganha importância adicional por sua raridade. Considerada a primeira escultura de Hosmer, Daphne teve poucas versões produzidas. Pesquisadores do Metropolitan Museum of Art, em Nova York, reconhecem apenas três exemplares de mármore autenticados ainda existentes, todos preservados em museus nos Estados Unidos. A peça encontrada nos Cotswolds seria, portanto, uma rara versão que permaneceu fora do circuito institucional por décadas.
Nascida em Massachusetts em 1830, Hosmer construiu sua carreira principalmente em Roma, onde alcançou reconhecimento internacional em um meio dominado por homens. Também viveu abertamente relações com mulheres em uma época de forte repressão social e legal à homossexualidade. Jenner-Fust a descreve como “uma verdadeira pioneira e um ícone feminista”. A trajetória da artista ajuda a explicar por que uma obra aparentemente esquecida no jardim ganhou outro peso quando sua autoria foi identificada.
Ainda não está claro como o busto chegou à propriedade inglesa. A família acredita que um antepassado tenha adquirido a peça em um leilão em meados do século XX. Depois disso, a familiaridade com o objeto teria apagado qualquer percepção de seu valor. “Eles não tinham ideia de que era mármore, de quem era a obra e de que ela valia tanto”, afirmou Jenner-Fust. A escultura será levada a leilão pela Chorley’s Auctioneers, em Gloucester, com estimativa de até £18 mil.


