Obra de 7,3 metros instalada no campus REACH desde 2019 foi desmontada sem aviso prévio, provocando críticas de artistas e ativistas locais
Antes mesmo de Washington começar a despertar na manhã de 2 de setembro, uma das obras mais reconhecíveis do entorno do Kennedy Center já estava sendo desmontada. Equipes contratadas pelo National Park Service retiraram Blue, escultura de 2019 do artista Joel Shapiro, morto no ano passado aos 83 anos. A peça, de 24 pés de altura, cerca de 7,3 metros, fazia parte das dez obras inaugurais instaladas no campus REACH quando a expansão do John F. Kennedy Center for the Performing Arts foi aberta ao público, em setembro de 2019.
Produzida em alumínio pintado, Blue transforma o conhecido vocabulário de figuras humanas esquemáticas de Shapiro em uma presença monumental. Estruturas geométricas sugerem braços e pernas, enquanto a composição parece capturar uma figura em movimento. Ao apresentar a obra, o próprio Kennedy Center a descreveu como uma escultura prestes a dar um chute e uma pirueta sobre o gramado, incorporando a paisagem ao gesto. O trabalho foi concebido especificamente para aquele espaço e rapidamente se tornou um marco visual do campus.
A retirada ocorreu sem anúncio prévio do Kennedy Center e, até o momento, a instituição não apresentou uma justificativa pública para a decisão. Um aviso do National Park Service sobre o fechamento temporário de uma via havia indicado que a operação seria concluída na quarta-feira. O desmonte provocou ainda congestionamentos significativos na Rock Creek and Potomac Parkway, uma das principais vias de acesso à região. Segundo o Washington Post, a próxima localização da escultura será definida pela Joel Shapiro and Ellen Phelan Foundation.
A reação veio rapidamente. A coalizão Hands Off the Arts, formada por artistas, trabalhadores do setor cultural, apoiadores e ativistas de Washington, classificou a remoção como mais um episódio da ofensiva do governo Trump contra as artes e chamou atenção para o caráter público e específico da obra. O grupo afirma que Blue havia sido criada para funcionar como uma presença acolhedora e alegre nos jardins do REACH. Integrantes da coalizão realizam protestos semanais diante do Kennedy Center há meses, em meio às disputas sobre o futuro da instituição.
A controvérsia se soma à transformação política do Kennedy Center desde que Donald Trump substituiu, em fevereiro de 2025, integrantes do conselho por nomes escolhidos por sua administração e assumiu a presidência do órgão. Desde então, o centro cultural tornou-se palco de uma disputa que envolve gestão, programação, identidade institucional e até o próprio nome do edifício. Uma tentativa de acrescentar o nome de Trump à instituição foi barrada por um juiz federal, que determinou que uma mudança desse porte dependeria do Congresso, embora uma nova ação judicial busque alterar esse entendimento.
Para o fotógrafo Joe Flood, de Washington, a retirada de Blue é sintomática. “Trump está esvaziando o Kennedy Center antes de destruí-lo”, afirmou. Flood definiu a escultura como um pequeno marco local, retirado sem participação ou avaliação pública. A obra que durante seis anos ocupou o gramado do REACH agora aguarda seu próximo endereço, enquanto a disputa sobre quem decide o que permanece no Kennedy Center ganha mais um capítulo.


