Instalação no Los Angeles County Museum of Art mobiliza críticos e artistas latino-americanos, que denunciam apagamento de controvérsias recentes e tensionam o discurso institucional
No momento em que o Los Angeles County Museum of Art inaugura seu novo edifício e busca reafirmar sua centralidade no circuito global, uma escultura monumental instalada em sua praça externa desloca o foco das celebrações para um debate que atravessa fronteiras. Assinado por Pedro Reyes, o trabalho intitulado Tlali rapidamente se tornou alvo de críticas articuladas por cerca de 80 profissionais da cultura mexicana, entre artistas, curadores e pesquisadores, que questionam tanto a obra quanto o contexto de sua apresentação.
A reação, formalizada em carta aberta publicada originalmente em espanhol, reúne nomes como Carmen Argote e Cuauhtémoc Medina, além de críticos e escritoras como Maria Minera e Gardi Emmelhainz. O documento sustenta que o museu teria ignorado deliberadamente o histórico recente de contestação em torno de uma proposta semelhante apresentada por Reyes na Cidade do México em 2021, então rejeitada após forte mobilização de grupos feministas e indígenas.
A escultura agora exibida em Los Angeles, esculpida em pedra vulcânica e inspirada nas cabeças colossais olmecas, retoma elementos centrais daquele projeto anterior, ainda que com alterações formais. A mudança mais visível está na ausência de adornos faciais e na simplificação do título original, de Tlalli para Tlali, adaptação que o museu associa a uma atualização fonética. Ainda assim, para os signatários da carta, a essência simbólica permanece inalterada, mantendo uma representação considerada problemática da mulher indígena.
O episódio remete diretamente à controvérsia de 2021, quando a então prefeita da Cidade do México, Claudia Sheinbaum, recuou da encomenda após críticas contundentes que apontavam a inadequação de um artista não indígena para representar um monumento com tal carga histórica e identitária. Na ocasião, o projeto foi descrito por opositores como uma construção genérica e anacrônica, incapaz de dialogar com a complexidade das culturas originárias.
A reemergência dessa proposta, agora em solo norte-americano, é interpretada por críticos como um deslocamento estratégico que desconsidera as vozes que anteriormente se insurgiram contra a obra. Em declarações à imprensa, Maria Minera afirmou que a decisão do museu sugere indiferença às reivindicações de centenas de mulheres mexicanas, enquanto Cuauhtémoc Medina classificou o trabalho como uma reiteração de estereótipos visuais associados a narrativas nacionalistas do século passado.
Por sua vez, o Los Angeles County Museum of Art sustenta que a escultura apresentada constitui uma obra inteiramente nova, concebida ao longo de anos de diálogo com o artista e inserida em um contexto curatorial distinto. A instituição destaca ainda que o trabalho enfatiza aspectos fragmentários tanto na composição formal quanto na leitura simbólica, buscando estimular um debate público mais amplo.
Apesar da defesa institucional, permanece em aberto a questão sobre a ausência de contextualização explícita da controvérsia de 2021 no espaço expositivo, ponto central das críticas. Para parte dos signatários, a falta de mediação histórica compromete a recepção da obra e reforça uma lógica de circulação internacional que, ao deslocar objetos e discursos, pode também diluir tensões fundamentais.
Nesse cenário, a escultura de Reyes deixa de ser apenas um marco visual na paisagem de Los Angeles e passa a operar como catalisador de um debate mais amplo sobre representação, autoria e responsabilidade institucional. Ao atravessar fronteiras sem carregar consigo o peso integral de sua história, a obra reabre uma ferida que muitos, no México, consideravam já suficientemente exposta.

